Ativistas sociais e militantes foram às ruas por Dilma. E agora?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ativistas sociais e militantes foram às ruas por Dilma. E agora?

Jovens militantes do PT e ativistas de movimentos sociais entraram na campanha na reta final, quando a candidatura de Aécio encorpou. Resta saber agora, se Dilma vai valorizar esse apoio

Roldão Arruda

27 Outubro 2014 | 23h15

A estudante universitária Kaline Santos, de 25 anos, passou toda a tarde de sexta-feira, antevéspera da eleição, fazendo propaganda da candidata Dilma Rousseff (PT). Eu a encontrei, coberta de adesivos, colados na camisa e na calça, por volta das 17h30, na Praça do Patriarca, no centro velho de São Paulo. Estava amarrando uma bandeira vermelha e branca nas costas, para se proteger de um vento frio que começava a soprar.

Não gostou e até virou as costas quando perguntei se estava sendo paga pelo PT. Mas eu insisti, ela sorriu, exibindo uma intricada aparelhagem ortodôntica, e aceitou conversar. Contou que tinha ido para o centro no final da manhã, para participar de uma marcha pró-Dilma, com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva.

28vitória

Quando a marcha acabou, juntou-se a um pequeno grupo que permaneceu na praça. Conversava com quem se dispunha a parar, distribuía adesivos e folhetos, agitava bandeiras, sem ganhar nada por isso. Estava lá por achar que o momento político exigia.


“Vou fazer tudo que puder para garantir a vitória do PT”, falou, já começando a tremer de frio. “Das propostas apresentadas, as do PT são as melhores. Olhe a área social. Foi o Bolsa Família que tirou o povo da fome e da miséria. Eu estou na faculdade porque as políticas do governo permitiram isso. Eu uso o FIES.”

Também contou que é baiana e eleitora do PT desde sempre. Que estuda administração de empresas numa instituição privada de ensino. E que ia sair dali direto para a aula. “Com todos esses adesivos na roupa?” – perguntei. “Não. Lá eu só deixo uns dois, aqui na camisa.”

Kaline não esteve sozinha nas ruas. Ela fez parte de um grupo numeroso de jovens petistas que, nos instantes finais da campanha, entrou em cena com uma disposição tão notável que surpreendeu os seus organizadores.

Ao comentar o assunto, durante uma entrevista que fiz com ele para o Estadão, o cientista político Wagner Iglécias, da Universidade de São Paulo (USP), me disse que o PT mantém um trabalho consistente na área de juventude. Concordou comigo que a nova geração de militantes petistas andava recolhida e apresentou dois motivos para o fato.

O primeiro foi a condenação de membros da cúpula do partido no julgamento do chamado mensalão, em 2012. “Muito jovens simpatizantes ou militantes do partido tiveram que pagar o preço de serem chamados de mensaleiros, embora não tivessem nada a ver com aquilo”, disse Iglécias.

O segundo foi o revés ocorrido nas manifestações de 2013, quando os jovens foram impedidos de exibir nas ruas as bandeiras vermelhas do partido.

A militância teria voltado quando luzes de alerta acenderam no segundo turno, sinalizando uma possibilidade real de Aécio Neves, do PSDB, vencer a eleição. “Houve nesse instante a explicitação de dois projetos políticos, seguida de uma aguda polarização, que mobilizou a militância”, observou.

ATIVISTAS

Foram principalmente os jovens que se animaram. Quem foi à festa da vitória, na Avenida Paulista, no domingo à noite, pôde ver que eles predominavam. Como se o partido tivesse se renovado.

O esforço final para reconduzir Dilma ao Planalto também deve contabilizar a participação de ativistas de causas sociais. Entre eles encontravam-se militantes do movimento gay – que decidiram deixar em segundo plano o fato de Dilma ter praticamente ignorado as suas reivindicações no primeiro mandato e apoiar a reeleição.

Resta saber agora como Dilma tratá-los. Como irá atender às demandas dos jovens militantes, que parecem se encantar sobretudo com as causas sociais que o PT têm desenvolvido. Como irá atender aos gays e aos militantes de outros movimentos, como o dos negros, dos sem-terra, sem-teto, feministas, indígenas.

A menos que considere que o único responsável pela sua vitória tenha sido o marqueteiro João Santana, a presidente deveria se aproximar mais desses movimentos.

Mais conteúdo sobre:

Dilma RousseffPTWagner Iglecias