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Ataques de evangélicos ameaçam liberdade religiosa, diz arcebispo

Roldão Arruda

29 julho 2014 | 18:23

Dom Gil Antonio Moreira, de Juiz de Fora, pede providências das autoridades contra ataques a imagens veneradas pelos católicos

Em artigo reproduzido nesta terça-feira (29) no site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o arcebispo de Juiz de Fora, dom Gil Antonio Moreira, pede providências das autoridades para que garantam o direito dos católicos de praticar sua fé. Ele se refere a “atitudes agressivas contra a Igreja Católica” que estão se repetindo pelo País. Trata particularmente de ataques contra imagens em templos.

Segundo o arcebispo, as ações visam restringir o direito dos católicos de “praticar sua fé, que inclui a veneração (não adoração) de imagens”. Na avaliação dele “trata-se de um problema sério que fere a legislação a respeito da liberdade religiosa”.

Se não houver providências, afirma dom Gil, o problema tende a se agravar: “Não há dúvida que nossos governantes devem estar atentos para que não se desenvolva um clima de odium religionis e isto venha a terminar numa verdadeira guerra entre adeptos de crenças diferentes, o que não interessaria a ninguém.”

Dom Gil menciona três atos de vandalismo que teriam ocorrido “em poucas semanas”. O último deles foi registrado no dia 16, durante uma festa em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, na cidade mineira de Sacramento, que faz parte da Arquidiocese de Juiz de Fora.

Diz o texto: “Um rapaz de 20 anos que se apresentou como evangélico quebrou as imagens de uma igreja, destruindo inclusive peças de grande valor artístico tombadas por órgãos governamentais de proteção ao patrimônio histórico. Aprisionado, o tal rapaz se disse doente mental, tendo sido até mesmo internado em clínica para tratamento desta natureza. Geralmente, quando acontecem estes desrespeitosos atos de violência e fanatismo, aparece um advogado para defender o réu com tal argumentação e tudo fica por isso mesmo.”

Os casos de vandalismo, segundo o arcebispo, “têm sido praticados por pessoas que se dizem evangélicas”.

Ao final do artigo, além de dizer que perdoa os agressores e pedir a colaboração de líderes de todas as denominações religiosas para que os ataques sejam eliminados, ele volta a se referir à necessidade de interferência das autoridades. Insiste para que “tomem atitudes que defendam o direitos dos brasileiros de praticarem livre e pacificamente a sua fé”.

Não é a primeira vez que representantes do clero católico mostram preocupação com o crescimento da hostilidade entre religiões. Um dos episódios mais significativos e polêmicos desse debate, conhecido como “chute na santa”, ocorreu em 1995. Durante um dos programas de evangelização da Igreja Universal do Reino de Deus na TV, um de seus pastores chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O episódio foi lembrado pelo sociólogo José de Souza Martins, em artigo publicado no caderno Aliás do Estadão, no domingo, sob o título Bê-á-Bíblia. Ao comentar a aprovação de um projeto de lei apresentado por um vereador evangélico da Câmara Municipal de Nova Odessa, no interior de São Paulo, que pode obrigar todos os alunos da rede municipal de ensino a ler pelo menos um versículo do Bíblia no início da aula, todos os dias, o sociólogo observa: “A proposta abusiva expressa a crescente intolerância religiosa no País e as armadilhas usadas para fazer as instituições públicas e do Estado cúmplices do proselitismo religioso.”

A íntegra do artigo do arcebispo de Juiz de Fora pode ser lido no site da CNBB. A análise de Martins, que é professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), encontra-se à disposição no Portal Estadão.