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Ministro da Agricultura fez viagens particulares em jatinho de US$ 7 mi

Bruno Siffredi

16 Agosto 2011 | 16h34

Eduardo Bresciani, do estadão.com.br, e Lígia Formenti, de O Estado de S.Paulo

O ministro da Agricultura, Wagner Rossi utiliza um avião de uma empresa que depende de autorizações da pasta para vender seus produtos. A Ourofino Agronegócio trabalha com agrotóxicos, sementes e saúde animal e colocou à disposição do ministro e de seu filho Baleia Rossi (PMDB-SP), deputado estadual, um avião Embraer Phenon 100 avaliado em US$ 7 milhões, como revelou o jornal Correio Braziliense nesta terça-feira, 16. Wagner Rossi confirmou ter usado o avião. Ele admitiu ainda ter dado pessoalmente em outubro do ano passado aos donos da empresa a notícia de que a Ourofino poderia comercializar uma vacina contra febre aftosa, o que multiplicou os ganhos na área.

Pessoas do setor e integrantes do governo afirmam que a empresa seria beneficiada pelo ministério por meio de processos mais ágeis para obter licenças de seus produtos. Relatos dão conta que servidores do ministério da Agricultura fazem pressões nesse sentido junto ao Comitê Técnico de Assessoramento de Agrotóxicos, que conta com representantes do Ministério do Meio Ambiente e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O ministro diz que a pasta age dentro de sua “missão institucional” ao defender prioridades para alguns produtos.

Ao Estado, Rossi admitiu ter viajado no avião da Ourofino em “três ou quatro ocasiões”. Ele citou ter usado o avião duas vezes para ir de Brasília para a cidade onde mora. Em outra ocasião, foi a Uberaba (MG), onde a Ourofino tem filial. Além de ceder o avião para os deslocamentos, a empresa também doou R$ 100 mil para Baleia, filho de Rossi, na eleição de 2010, e contratou a produtora A Ilha, também de Baleia, para a realização de vídeos institucionais.


A proximidade do ministro com a empresa é tanta que ele esteve no dia 1º de outubro do ano passado para anunciar aos sócios da Ourofino, Norival Bonamichi e Jardel Massari, que seria concedida a licença para a empresa vender o produto Ourovac Aftosa, vacina destinada à prevenção da febre aftosa. Rossi atribuiu o gesto “a uma questão de gentileza” e destacou que a empresa é a maior do setor em sua região. A Ourofino fica em Cravinhos, a 5 km de Ribeirão Preto.

Como prometido, a licença saiu no dia 17 de outubro e a empresa pode entrar em um mercado disputado por menos de 10 fabricantes. Só em maio deste ano a divisão de saúde animal da empresa registrou aumento de 81% em seu faturamento, saltando de R$ 16,4 milhões para R$ 29,7 milhões. O crescimento foi atribuído pelo presidente da empresa, Dolivar Coraucci, justamente à participação na campanha de vacinação contra a febre aftosa. O ministro nega que tenha havido favorecimento. Rossi destacou que a Inova Biotecnologia, braço da Eurofarma, também recebeu a licença para fabricar a vacina em outubro do ano passado.

Outro vínculo da empresa com o ministério acontece por meio de um assessor da pasta. Ricardo Saud é apontado como “representante” da Ourofino. Ele foi sócio da Ethika Suplementos e Bem-estar. A empresa hoje faz parte do Grupo Ourofino, mas Saud não consta mais no quadro societário, segundo o grupo. O funcionário do ministério é filiado ao PP e foi secretário de Desenvolvimento em Uberaba na época de construção da filial da empresa.

A Ourofino não é a única empresa com a qual Rossi mantém relações próximas. Ele próprio admite receber empresários do setor em sua casa em Ribeirão Preto durante os finais de semana. “É natural que promova encontros dessa natureza”, disse. “Não tenho porque esconder minhas atividades como ministro de Estado”, completa.