Um novo modelo econômico para o Brasil: mais déficit em conta-corrente, menos reservas. É o que recomenda o FMI

Estadão

03 Outubro 2009 | 03h48

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomenda que o Brasil
mantenha os atuais déficits em conta-corrente, em vez de voltar para
os superávits pré-crise. E o FMI aconselha os países da América Latina a
evitar acumulação excessiva de reservas. Em vez disso, deveriam usar
linhas flexíveis do Fundo como “seguro” contra fugas de capital em
crises internacionais. As economias da América Latina deveriam “ser
importadoras de capital e continuar a registrar déficits em
conta-corrente perceptíveis, mas há certa relutância entre esses
países, que não querem depender de capital externo, muito volátil”,
disse Jörg Decressin, chefe da divisão de estudos da economia mundial
do Fundo Monetário Internacional (FMI). Decressin disse ao Estado que,
a longo prazo, “mais capital deve entrar nesses países, que poderão
ter déficits em conta-corrente maiores”.

Segundo ele, esse seria o papel dos países latino-americanos no ajuste
dos desequilíbrios globais. Enquanto a China deve estimular seu
mercado doméstico e reduzir sua poupança, e os EUA devem fazer o
contrário, os latino-americanos deveriam parar com sua excessiva
acumulação de reservas e superávits em conta-corrente. Os países da
região, em geral, tinham um pequeno superávit em conta-corrente antes
da crise e passaram a registrar um pequeno déficit . A idéia é que
essas economias não mais acumulem reservas como forma de precaução
contra crises financeiras – mas sim usem o FMI como o “acumulador de
reservas” oficial. “Para facilitar esse processo, deveria haver
garantias de que, toda vez que o capital privado sair do país por
causa de problemas externos, capital oficial (como o do FMI) pode
entrar para ajudar”, disse Decressin ao Estado.”Quando não existem
essas garantias, os países usam os fluxos de capital para acumular
reservas em vez de promover mais crescimento – obviamente, mais
crescimento é melhor do que mais acumulação de reservas.” Ele disse
que o FMI já está oferecendo essas garantias com a “Linha de Crédito
Flexível”, um pacote já fechado com México, Colômbia e Polônia, que
não exige muitas condições e é destinado a países com fundamentos mais
sólidos. O Fundo tentou emplacar essa linha com o Brasil, mas o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva não quis o empréstimo, depois de
ter quitado todas as pendências do Brasil com o Fundo.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Itaú Unibanco, discorda da
idéia do Fundo sobre a necessidade de reduzir as reservas nos
emergentes. Durante seminário no FMI ontem, Goldfajn disse que a crise
do ano passado provou a utilidade de altos níveis de reservas, e que
daqui para frente haverá maior acumulação de reservas como um
amortecedor

.
Segundo o economista, com o enfraquecimento da demanda dos Estados
Unidos, o mundo está em busca de um consumidor de última instância. E
mercados domésticos de países como o Brasil são bastante atraentes.
Goldfajn prevê um aumento dos investimentos diretos em países da
América Latina, de olho nos mercados consumidores internos, com
conseqüente valorização da moeda e aumento no déficit em
conta-corrente. Ele prevê que o Brasil terá déficit em conta-corrente
de 2,6% do PIB em 2010 e investimento estrangeiro direto equivalente a
2,33%. “Mas viu-se nessa crise que o nível de reservas ideal, para
medidas de precaução, é maior do que pensávamos anteriormente”, disse
ele.