Diário da Guerra do Obama: no Afeganistão com o exército americano

Estadão

15 Julho 2009 | 11h37

Queridos leitores

Estou no aeroporto de Frankfurt, de onde embarco para Cabul daqui a algumas horas.
Depois de escrever sobre o conflito no Afeganistão durante meus quase três anos de correspondência em Washington, vou ver a guerra de perto. E queria contar um pouco do “making of” dessa matéria.

Há cerca de 4 meses, fui convidada pelo exército americano para dar uma palestra em Fort Leavenworth, no Kansas, sobre relacionamento da imprensa estrangeira com as Forças Armadas dos EUA. Fort Leavenworth é conhecido como o cérebro do exército, já que é um centro de formação de oficiais. Eu fui chamada por causa das matérias que fiz em Guantánamo, em Fort Polk (sobre treinamento de soldados que estavam indo para o Iraque) e em Quantico (treinamento de marines). No painel dos palestrantes, eu era de longe a mais inexperiente em questões militares. A meu lado estava um jornalista alemão do Frankfurter Allgemeine Zeitung, que já esteve no Iraque oito vezes e no Afeganistão umas três; do outro lado, um jornalista da TV russa, também com várias passagens em zonas de conflito, inclusive na Chechênia, e minha querida colega Joyce Karam do Al Hayat, jornal saudita – com grande experiência em Oriente Médio.

Depois da palestra, um general veio bater papo comigo e perguntou se eu nunca tinha pensado em “embed” no Afeganistão. Sim, já tinha pensado, eu respondi. Depois de ter contato com vários soldados a caminho da guerra, gostaria de ver de perto o que eles estão enfrentando. Uma coisa é estar confortavelmente no ar condicionado falando sobre a guerra com analistas. Outra coisa é testemunhar o custo do conflito para os afegãos. Para isso, o ideal era o tal “embed”, em que o jornalista consegue chegar até o front, e fica embutido na tropa – dorme , acorda, come, e vai em missões com os soldados.

Esse empurrãozinho era o que faltava para eu juntar coragem. O processo de se candidatar e ser aprovada para o embed levou mais ou menos 4 meses. O Pentágono checa todos os antecedentes do jornalista e alguns não conseguem aprovação.

O e-mail fatídico chegou no dia 13 de junho. “Cara Ms Mello : Anexa está a carta de aprovação de seu embed. Por favor chegue à base aérea de Bagram até as 4h30 do dia 19 de julho para que possamos transportá-la para seu local de embed.”

Ai Jesus. Agora eu vou.

Junto com o friozinho na barriga veio a mão-de-obra dos preparativos. Fui tomar um café com a jornalista Anna Mulrine, da US News, que me deu dicas preciosas. Anna é veterana de embeds – só no ano passado, foi quatro vezes para o Afeganistão. Além de recomendações digamos jornalísticas, ela me deu algumas dicas mais prosaicas.

“Não esqueça os “baby wipes”, ela recomendou. São aqueles lenços umedecidos de limpar bumbum de nenê, muito úteis quando banho não é a coisa mais fácil do mundo.

Gulp.

Ela também me recomendou o tipo de telefone por satélite que eu deveria levar e até a mala que era melhor. Eu havia ido na REI, que é o paraíso dos alpinistas, acampantes, etc, comprar uma mochila. O test-drive da mochila foi aterrorizante. O vendendor simpático coloca 20 quilos em sacos de areia para você testar o peso. Corcundinha era uma boa definição.

Foi então que Anna me salvou. “Mochila? Imagine….compra uma daquelas sacolas com rodinhas. Se bobear, os soldados ficam com pena e até ajudam a por a mala dentro do avião.” Ufa, fui lá trocar a mochila.

Todos os jornalistas que vão embutidos com as tropas americanas são obrigados a levar seu colete anti-bala e o capacete, dentro das especificações exigidas pelo exército. Aluguei então a parafernália – juntos, o colete e o capacete pesam 12 quilos. O pior é por o capacete na mala. Já tentou levar um capacete? Atravanca tudo. O senhor da empresa de aluguel de colete anti-bala– Kejo – era do Zimbábue. E foi logo avisando – se você fosse da Nigéria, não sei se alugava o equipamento pra você. Aparentemente aqueles e-mails picaretas nigerianos acabaram mesmo com a reputação do pessoal de Lagos.

O próximo passo foi o BGAN, o telefone por satélite que dá acesso a internet banda larga nos confins do Judas, assim me garantem. Mas quem disse que tecnologia veio para facilitar a vida das pessoas? Só se for a vida das pessoas extremamente tecnófilas. Passei uma hora e meia com o “cara do sistema” no telefone, só para instalar o software do tal BGAN no meu computador. Desse jeito, imagine quanto tempo vou levar pra fazer a coisa funcionar lá no meio do nada? O “cara do sistema”, Ken, era ultra gentil e, de quebra, esteve no Iraque durante oito meses, como operador de rádio. “Cuidado com os escorpiões – um dia acordei cercado de escorpiões brancos”, ele avisou. Ai meu Deus. Não bastassem as bombas, agora vou ficar neurótica com escorpiões.

Entrementes, ia dando conta da pilha de livros sobre Afeganistão que estava no meu criado mudo – In the Graveyard of Empires, do Seth Jones, Descent into Chaos, do Ahmed Rashid, a última Foreign Affairs tinha um artigo interessante, uma análise espetacular da Stratfor, repassada pelo colega correspondente Gustavo Chacra, quilômetros de matérias de jornais, e o Lonely Planet também porque ninguém é de ferro. Na mala, estou levando o Rory Stewart (The Places in Between) e o apropriado Cus de Judas, do Antonio Lobo Antunes, sobre a guerra em Angola. Também consultei o Lourival Sant’Anna, que já foi para os confins do Afeganistão (e duzentos outros lugares mais), e fez grandes matérias, e li as belas reportagens da colega Adriana Carranca, que esteve em Cabul no ano passado.

Assisti na semana passada ao The Hurt Locker, um filme sensacional que acabou de estrear nos EUA (embora no Brasil já esteja em DVD) sobre os destacamentos de especialistas em IEDs, as letais bombas improvisadas. E havia assistido ao Taxi to the Dark Side, espetacular, sobre um taxista afegão que é preso por engano e acaba morrendo em Bagram.

A amiga Rita Siza, correspondente do jornal português Público, foi a pessoa mais alugada do planeta durante os últimas dois meses. Aguentou toda a minha ansiedade. Prometi a ela trazer uma burca fashion de presente, no mínimo. Os amigos Balthazar e Dri (e Laurinha e Julia) também merecem suas burcas fashion – além de aguentarem meu aluguel, eles ficaram cuidando da minha filhota canina, a border collie Sarah. José Meirelles Passos, veterano de guerras no O Globo, deu a dica: nao esqueça bateria extra para a câmera e pro laptop, e um bom livro, para as muitas horas de espera. Afinal, alguém já disse que o lema do exército é “hurry up and wait”

Por fim, trago na mala o conselho do meu pai, Hélio, que junto com o William Waack cobriu a guerra do Golfo. Os dois fizeram um livro maravilhoso – Mister, you Bagdad: dois repórteres na Guerra do Golfo.”

“Se você for corajosa demais, você acaba morta; se você for medrosa demais, não faz o trabalho direito.”

E cá estou em Frankfurt, tomando a terceira Coca Light do dia e esperando o voo da Safi Airlines para Cabul. O destino final é algum ponto na fronteira entre o Afeganistão e Paquistão, sudeste do país, em uma base americana.

Espero absorver cada detalhe de tudo o que estiver acontecento ao meu redor, conversar longamente com soldados americanos, e com civis afegãos cansados dessa guerra que não acaba mais e está custando tantas vidas.
E se Deus quiser, escrever matérias que nos ajudem a entender essa guerra.

Minha mãe, que acendeu uma vela para Sao José e outra para São Jorge, ainda não se acostumou com a idéia. “Não dá mesmo para você cobrir o Michael Jackson, filha?”