‘Não me cobrem como dirigente partidário’

Estadão

15 Dezembro 2010 | 10h37

Deputado diz que, se preciso, ajudará em dificuldades políticas, mas não pretende atuar como membro do PMDB; legenda, assegura, não dará trabalho a Dilma nas votações

Christiane Samarco – O Estado de S.Paulo

Ao longo da negociação do ministério, da qual o PMDB saiu insatisfeito, o presidente da legenda e vice da República, deputado Michel Temer (SP), foi chamado várias vezes pela cúpula petista para conter o apetite de correligionários por cargos, com o argumento de que, agora, é um membro do governo e não um presidente de partido.

Ed Ferreira/AE

Ed Ferreira/AEFoco. ‘Vou me licenciar da presidência do PMDB. Não tenho obrigação legal de fazê-lo, mas eticamente acho conveniente’ 

A partir do dia 1.º de janeiro, no entanto, a conversa será diferente. Temer não quer ser cobrado por posições tomadas pelo PMDB no Congresso. “Venham cobrar do vice o auxílio necessário para que o governo possa governar com tranquilidade, mas não façam cobranças a mim como dirigente do PMDB”, avisa, em entrevista ao Estado.

No momento em que se sentar na cadeira de vice, Temer estará fora da presidência nacional do PMDB. Pedirá licença do mandato que vai até março de 2012, deixando o comando da legenda para o vice, senador Valdir Raupp (PMDB-RO).

Líderes peemedebistas já preveem problemas em votações no Congresso, caso não sejam recompensados com cargos relevantes do segundo escalão. Temer diz não acreditar que o PMDB “vá dar trabalho” na hora do voto, mas deixa a dúvida no ar. “De qualquer modo, isso já seria falar sobre o futuro e sobre hipóteses, e isso não devemos fazer.”

Da redemocratização para cá, saíram dois vice-presidentes do Congresso. Um deles foi Itamar Franco, polêmico. O outro, muito discreto, o senador Marco Maciel (PE). O senhor está mais para Maciel ou Itamar?

Estou mais para Michel Temer, e quem me conhece vai entender o que estou dizendo. Tenho estilo mais temperado e conciliador, mas quando é preciso firmeza também…

O governo discute a criação de um conselho para controle de conteúdo da mídia. Como o sr. se posiciona?

Até pela minha formação legalista e baseado no preceito constitucional, sou pela mais ampla liberdade de imprensa, sem nenhuma espécie de restrição. E sustentarei essa tese. Mas creio que nem será preciso trabalhar por isso, porque a presidente Dilma tem reiterado que é pela liberdade mais ampla da imprensa, portanto, sem controle de conteúdo.

Qual será a função do vice?

A presidente Dilma já me disse que quer que eu participe daquele núcleo dirigente de governo que se reúne diariamente às 9 horas. E diz sempre que nós vamos programar juntos. Do que ela tem verbalizado, eu acredito que me chamará para colaborar nas grandes políticas públicas do governo.

Peemedebistas insatisfeitos preveem problemas em votações, se o partido não for recompensado no segundo escalão.

Não creio que o PMDB vá dar trabalho em votações, mas de qualquer maneira isso já seria falar sobre o futuro e sobre hipóteses, e isso nós não devemos fazer.

O sr. vai intermediar dificuldades entre o PMDB e o governo?

Não exatamente (como membro) do partido. Se houver dificuldades políticas e a presidente me convocar para isso, posso ajudar na composição política que for necessária. Mas não como um representante do partido. Eu sou vice presidente da República e, portanto, faço parte do governo como um todo.

Então, a partir do dia 1º, não venham cobrar do vice-presidente posições tomadas pelo PMDB. É isso?

Venham cobrar do vice o auxílio necessário para que o governo possa governar com tranquilidade. Mas não cobranças a mim como dirigente partidário. Posso auxiliar na relação com o PMDB, mas não posso responder como dirigente do partido.

Houve algum pedido que o sr. tenha levado e a presidente tenha respondido: “Temer, este não vai dar”?

Houve sim. A bancada queria o Ministério da Integração Nacional, eu levei (o pedido) e ela falou que tinha um compromisso pré-firmado com os governadores do Nordeste. E ela me disse: “Temer, colabore comigo porque isso aqui não vai dar”.

Essa foi a negativa que mais desagradou ao PMDB? Qual foi a maior dificuldade na negociação?

Talvez tenha sido ficar nos cinco, ou seis ministérios, porque tem a Defesa, com o Nelson Jobim, peemedebista histórico, escolhido por ela.

Não é incompatível negociar acumulando a vice e o comando do partido?

Tão logo assuma as funções de vice, vou me licenciar da presidência do PMDB. Não tenho obrigação legal de fazê-lo, mas eticamente acho conveniente.

Os peemedebistas reclamam que perderam poder no novo ministério.

Numericamente, o PMDB manteve o mesmo número de ministérios. Temos a escolha pessoal do ministro Nelson Jobim (Defesa), mas ele é um velho peemedebista. Então, continuamos com seis ministérios. É claro que em face de muitas questões regionais, alguns dizem que era melhor ter outra pasta. Mas veja que o Ministério do Turismo, nos próximos quatro anos, terá importância relevantíssima no País. Previdência Social fala com mais de 23 milhões de pessoas e é uma área muito bem arrumada, de modo que o ministro poderá fazer um bom papel em nome do PMDB.

Com o senador Edison Lobão em Minas e Energia e o deputado Pedro Novaes no Turismo, a cota maranhense do presidente do Senado, José Sarney, não ficou grande demais?

Se tiver ficado, não tem importância. Também se poderia dizer, em contrapartida, que o líder Henrique Alves (RN) indicou o primo, senador Garibaldi Alves (RN), para a Previdência, o que não é verdadeiro. A escolha foi do Senado e, a de Novaes, da Câmara. O fato de terem boas relações não atrapalha, só ajuda.

Os líderes do PMDB dizem que os ministérios do novo governo são menos importantes do que aqueles que o partido comanda hoje.

Se você consultar os outros partidos, talvez receba a mesma reclamação. O PMDB não se quer fisiológico. Quer ser um partido cada vez mais voltado para as questões programáticas das áreas que vai comandar.

Mas não foi isso que pesou na negociação do ministério. O partido estava preocupado com ocupação de espaço.

Eu acho que há ocupações de espaço político no País, e quando falo de temas como Agricultura e Minas e Energia, é na ideia de ocupação de espaço governamental, de participação nas políticas públicas do governo. Acho que o PMDB, na sua maioria, está preocupado com isso.

Essa proposta de manter seis ministérios foi interpretada na base como esperteza política de um partido ameaçado de perder espaço porque perdeu força relativa na aliança pelo crescimento de outras legendas.

Ao contrário, pela primeira vez o PMDB participa do governo em uma coalizão eleitoral, e não apenas administrativa, pós-eleição. Esse raciocínio seria aplicado ao PMDB, que teria direito de exigir muito mais porque participou ativamente do processo eleitoral desde o início. Fizemos intensa campanha em todo o País.

Quem acompanha de fora a montagem do ministério tem a percepção de que houve mais briga na base agora do que em governos anteriores. Foi porque outros partidos ganharam mais força proporcional na aliança?

São dois fatores: o primeiro é porque é um novo governo, mas a presidente eleita trabalhou com essa equipe toda. Então, a abertura de espaço era uma coisa meio complicada. Em segundo lugar, acho natural que, no início do governo, haja uma disputa, porque os partidos querem ampliar seu espaço político. Na primeira conversa que tive com o presidente Lula e a presidente Dilma, sugeri que se mantivesse a mesma equação (seis ministérios).