A grande oportunidade

Estadão

02 Dezembro 2010 | 11h18

Fabio Giambiagi – O Estado de S.Paulo

O cenário básico com o qual cabe trabalhar nos próximos anos é que o País tenderá a caminhar na direção de ter, nas eleições de 2014, um Fla-Flu da política, um “clássico” de resultado difícil de prever e disputado entre dois campeões de voto: o PT – com ou sem Lula -, de um lado; e Aécio Neves, do outro.

Do lado governista, qualquer pesquisa que for feita a dois anos das eleições – quando as candidaturas começam a ganhar corpo – vai dar Lula na liderança das intenções de voto. Se o novo governo tiver um bom desempenho, não se pode descartar a possibilidade de que a futura presidente Dilma Rousseff se apresente como candidata à reeleição, mas neste caso Lula ocupará novamente um lugar de destaque nos palanques, atuando em sintonia com a presidente.

Do lado da oposição, cabe lembrar que em 1999 havia dois ou três candidatos do partido a suceder a FHC. Depois o PSDB foi, desde o começo do governo Lula, presa do dilema entre as alternativas de Alckmin e Serra. E, entre 2007 e 2009, ficou em dúvida entre Serra e Aécio Neves. O resultado foi uma espécie de paralisia, combinada com uma dissipação de energias que, em vez de serem dirigidas a atividades típicas da oposição, se concentraram muitas vezes nas disputas internas. Já olhando para 2014, quando as recentes disputas pós-eleitorais entre paulistas e mineiros tiverem sido esquecidas, assumindo que Alckmin teria todas as credenciais para ser candidato a presidente mas terá chances muito grandes de se reeleger em São Paulo, é razoável imaginar que Aécio Neves tenderá a assumir a primazia da fila e se perfilar como candidato, com chances de atrair os aliados tradicionais do PSDB.

Nesse caso, daqui a quatro anos o Brasil assistiria ao embate entre os dois maiores políticos surgidos no Brasil desde a redemocratização. Fernando Henrique Cardoso foi um verdadeiro estadista, mas ele se elegeu na euforia do Real e se reelegeu com base no medo ao desconhecido, não tendo sido nunca – nem pretendido ser – um político típico. Já Lula – que, sendo ou não candidato, será personagem do embate eleitoral em 2014 – e Aécio combinam o carisma e o ofício da profissão com a característica de saber ganhar adeptos exercitando o carisma e a arte da conversa.

A estratégia do PT será tentar reeditar a campanha vitoriosa de 2010, agregando o mesmo leque de apoios, combinando a adesão dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda, de partidos menores e, obviamente, do PMDB. Aécio, por sua vez, teria a base do eleitorado “tucano” tradicional de São Paulo e tentaria “fechar” Minas Gerais, além de aspirar a contar com a possível simpatia do eleitorado fluminense. Com isso, ele poderá ter uma “plataforma de lançamento” no Sudeste com a qual negociar a ampliação da aliança PSDB/DEM/PPS para incluir alguns dos partidos médios que marcharam divididos nas eleições de 2010 – PTB ou PP – e talvez algum partido de esquerda que não se julgue devidamente contemplado no esquema de poder vigente na época.

Se essa análise estiver correta, o fato de a próxima disputa presidencial se dar – direta ou indiretamente – entre dois líderes com grande capacidade de atração de apoios e que cultivaram um bom diálogo entre si em tempos em que um era presidente e o outro, governador, abre uma oportunidade rara para avançar, nos próximos anos, com algumas reformas que deveriam ser encaradas como políticas de Estado.

A percepção de que algumas medidas interessam ao País em perspectiva, independentemente de quem ocupar o poder na segunda metade da década, cria espaço para que se aprove uma agenda de reformas que não chegou a ser contemplada nos últimos anos. É um erro avaliar que não há espaço para reformas constitucionais. Quem define a agenda e o espaço é o Executivo. É ele que tem a possibilidade de “dar as cartas” para um possível entendimento entre forças partidárias diferentes – sem considerar o fato de que o governo conquistou uma maioria parlamentar folgada. Resta saber se o País irá revelar o amadurecimento político que isso implica.

ECONOMISTA, É AUTOR DE ”REFORMA DA PREVIDÊNCIA” (ED. CAMPUS)