Venha a nós e ao vosso reino, nada
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Venha a nós e ao vosso reino, nada

Cada um cuida do seu e o resto que se dane

José Nêumanne

19 Dezembro 2016 | 18h31

Moreira, Temer e Padilha, em clima de consternação pela conjuntura Foto: Beto Barata/PR

Moreira, Temer e Padilha não disfarçam sua consternação pela atual conjuntura Foto: Beto Barata/PR

O ano vai chegando ao fim e a economia brasileira continua afundando em índices de mal a pior. Nenhum brasileiro minimamente sensato esperava algo muito diferente. Mas, apesar de já bem desossada, a carniça ainda tem substância (a popular “sustança”) para aguçar o faro e a gula de abutres. Inclusive tucanos. Disposto a acender o fogo sob a frigideira de Henrique Meirelles e sua turma, o PSDB ofereceu, sem pudor algum, seus préstimos ao chefe do governo. O pior de tudo é que foi usado em vão e sem autorização o nome de um quadro próprio e abalizado para preencher a lacuna: o de Armínio Fraga, chefe da assessoria econômica da candidatura derrotada de Aécio Neves. Armínio estourou o balão de ensaio antes que alçasse voo e, numa inesperada reação de valentia, o presidente Temer assegurou a permanência do statu quo.

Fê-lo porque o quis. E o Brasil inteiro folgará em saber que, se há algo bom a apoiar e a resguardar no governo que ele chefia, é exatamente a escolha de um grupo de executivos competentes para evitar que a economia em forma de carniça apodreça. Ou seja devorada. Há milhões de anos-luz de distância entre Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, e Ricardo Barros, ministro da Saúde. Será mais rápido encontrar algo que distinga do que compare como gestores o chanceler José Serra e o ministro do Esporte, Leonardo Picciani. Não há dificuldade alguma em separar o trigo da dita equipe econômica do joio do “parlamentério”, composto não para gerir melhor a máquina pública, mas para garantir votos suficientes, primeiro para o impeachment de Dilma, depois para a aprovação da emenda do teto, daqui a pouco para impedir que a reforma da previdência seja destroçada e a trabalhista, abortada antes de ser apresentada ao Parlamento.

Pode-se dizer que Temer é meio podre, como a banda que o assedia no Palácio do Planalto, e meio são, como as novas gestões da Petrobrás sob Pedro Parente, do BNDES com Maria Sílvia Bastos e de Mansueto Almeida, a quem o presidente atribuiu cuidar da política fiscal no comando da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda. No entanto, amigos próximos e aliados de antanho, como Romero Jucá e Geddel Vieira Lima, já foram jogados aos jacarés fictícios do Lago Paranoá, mas ninguém no comando da economia foi trocado por denúncias na Lava Jato, operações imobiliárias suspeitas ou futricas florentinas.

Não que o trabalho tenha rendido frutos óbvios. Nem tinha como render. Mas qualquer analfabeto em economia, caso do autor destas linhas, é capaz de perceber que o chamado mercado ainda não piscou diante de ameaças do cacarejo tucano. Nem da queda  do honroso posto de espírito santo de orelha com quem o chefão compartilhava a merenda na escola.

O povão ainda desconfia do manejo de seu destino pelo ex-vice de Dilma. O galo cantou no Datafolha, que reduziu o apoio ao governo a 10%, elevou seu desprestígio a 54% e manifestou seu desejo de troca de guarda na voz de 63% de descontentes. Agora outro instituto de prestígio – o Ibope –, em levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), confirmou a medição do concorrente com números similares: avaliação negativa por 46% dos entrevistados e aprovação por 13%. O presidente amarga índices polares: 26% confiam nele e 72% desconfiam dele.

Esses índices se aproximam perigosamente da impopularidade de pré-sal de Dilma à véspera do afastamento da Presidência, em 12 de maio. E enquanto os tucanos faziam meia-volta rumo ao ninho oficial na esperança de indicarem o baiano Antônio Imbassahy para o posto vago após a desgraça do baiano Geddel, alcunhado de Babel na planilha das propinas da Odebrecht, conhecida no vazamento de suas primeiras delações premiadas.

Mas ingênuo será quem pense que, em nome da paz social e do sono dos cidadãos, se desse pelo menos um dia de trégua após a emocionante e aplaudida promulgação da PEC 55, puxada pelo ainda presidente do Congresso, Renan Calheiros. Finda a votação do segundo turno da aprovação do teto para gastos públicos, o presidenciável Ronaldo Caiado, do partido governista DEM, anunciou aos microfones disponíveis que esperava do presidente a sensibilidade, que a antecessora não tivera, de renunciar para atender aos 63% de brasileiros que desejam sua saída e uma eleição direta para seu substituto. De uma oligarquia habituada a governar na ditadura e na democracia, o senador sabe muito bem que Temer não renunciará e que a previsão constitucional para as diretas já se extingue no prazo insuperável de 15 dias após aquele seu manifesto, que, por óbvio, será muito útil quando o mandato-tampão do que era vice estiver perto do fim previsto, e, aí sim, se realizarão eleições diretas para seu legítimo sucessor. Caiado, é claro, votara antes a favor do pleito oficial.

No dia seguinte à vitória com maioria qualificada (quatro votos mais do que os três quintos necessários – 53 a 16) pró governo, os deputados Rogério Rosso (PSD-DF) e Miro Teixeira (Rede-RJ) defenderam a convocação e a instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte a partir de fevereiro próximo. O centro-direita e o centro-esquerda uniram-se na velha crença das elites dirigentes nacionais, que poderia até figurar na bandeira no lugar do “ordem e progresso” de hoje: “engana que o povo adora”. Nada faz mais sucesso em todos os matizes do espectro ideológico nacional do que o velho casuísmo oportunista multipartidário.

O importante não é construir o muro, mas pendurar o cartaz no tapume. Este é certamente o lema da mais longeva presidenciável malograda da moderna democracia brasileira. Espécie de Eduardo Gomes dos povos da floresta, Marina Silva, ex-papagaio de pirata do mártir do anti-extrativismo Chico Mendes, ex-ministra do Meio Ambiente do governo que, no mínimo, autorizou a maior gatunagem da História nada santa da República de sempre e ex-vice do neto de Arraes, apontou, em entrevista a Ricardo Galhardo, do Estadão (domingo 18, pág .A13), como solução para a crise com Temer a realização de novas eleições diretas. Ou a renúncia de Temer, que – acrescentou – só será possível se ele quiser.

Entre o ostracismo anterior às pesquisas, que a dão como vencedora num improvável segundo turno eleitoral agora, e os eventuais resultados das urnas, que historicamente desautorizam seu oportunismo falso santarrão de hábito, sabe-se que eleições diretas não são previstas na Constituição. E é esta que na República paira sobre todos com a liberdade, garantida pelo Estado Democrático de Direito e que abre as asas sobre nós. Xô, corjas de corujas sem ninho na crise de caráter que permanece sob a tempestade e sob a bonança nesta República do venha a nós e ao vosso reino, nada.

*Jornalista e escritor