Torquemada aqui e agora
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Torquemada aqui e agora

O maior desafio da atualidade é preservar o direito à privacidade e à liberdade de pensar

José Nêumanne

13 Novembro 2017 | 18h39

Inquisidores contemporâneos queimam bruxas que moram em seus pesadelos Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Um dos personagens favoritos de minha pré-adolescência em Campina Grande foi o bodegueiro Joca Leite. Dono de uma tarimba (box) com mercadorias variadas à venda no Mercado Municipal da Prata, bairro onde ficava o colégio estadual, onde cursei os três anos do científico, ele tinha uma ojeriza com a qual eu simpatizava muito: sua repugnância ao fumo – fosse de rolo, cigarros, cachimbos ou charutos. Sua solução para livrar-se do mau cheiro e do mau gosto dos fumantes era singular: “Se eu fosse interventor do mundo, proibiria terminantemente esse vício miserável”. Para chegar a esse degrau na vida pública, porém, o irado comerciante nunca pretendeu ser síndico de prédio, pois, afinal, morava numa casa, nem iniciou carreira política disputando uma cadeira na Câmara Municipal. Seu antitabagismo era simpático porque se assemelhava à luta de Dom Quixote de La Mancha contra os moinhos de vento.

Não sei o que é feito de meu ídolo de pré-adolescência, mas considerando nossa abissal diferença de idade (eu tinha 15 anos e ele, mais de 60 nos anos 60), é pouco provável que permaneça no mundo dos vivos. Nunca convivi muito com ele, mas sua bazófia me veio à memória ao deparar com dois episódios de pequenas arbitrariedades do cotidiano que, entretanto, fazem parte de um perigoso delírio coletivo gerado na soma de milhões de individualismos doentios de natureza intervencionista no planeta da globalização cibernética. Refiro-me à bombástica repercussão da piada de péssimo gosto do apresentador suspenso do Jornal da Globo William Waack, transformada em motivo de seu afastamento da bancada do noticiário na Vênus Platinada. E à agressão que a filósofa americana Judith Butler, professora da Universidade da Califórnia, vinda ao Brasil para fazer uma palestra sobre a questão do gênero. Contra ela agiu a direita raivosa, cevada pela cegueira ideológica da esquerda, cujas gestões públicas federais, com seus titulares devida e legitimamente eleitos pelo povo, Lula e Dilma, provocaram a maior crise moral, política e econômica da História desta República insana e cada dia mais chata.

O calvário de Waack começou quando dois negros – o operador de VT Diego Rocha Pereira, de 28 anos, e o designer gráfico Robson Cordeiro Ramos, de 29 – vazaram vídeo e áudio em seu poder. Neles o apresentador desqualificou como “coisa de preto”, em gravação de dificílima compreensão, o buzinaço estridente e insistente de um transeunte, tirando-lhe a concentração na gravação de uma “externa” em que entrevistaria ao vivo, para o telejornal, do qual era âncora e estava ancorando dos EUA, um convidado para falar da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais, há um ano.


Ao se identificarem em entrevista à Rádio Jovem Pan, os autores da proeza contaram que passaram um ano até divulgare, o material em rede social porque tentaram negociá-lo, mas não o lograram. Não ficou claro de que negócio se tratava. Certo é que, depois que decidiram por o vídeo e o áudio nas redes, o assunto despertou imediato interesse da rede de televisão da qual Waack é contratado e esta, dizendo-se coerente com sua postura libertária e antipreconceituosa, o afastou provisoriamente tanto do jornal do canal aberto quanto do programa semanal que tem apresentado na GloboNews, com programação exclusivamente noticiosa, ou seja, all news (tudo notícias). Argumentaram que o jornalista é racista e “ofendeu”.

É mentira. Não se pode dizer que Waack é racista só porque, numa piada infeliz e sem graça, atribuiu genericamente a um “preto” o buzinaço que atrapalhava sua entrada ao vivo na cobertura da eleição. Errar é humano, já diziam os romanos muito antigamente. E é claro que Waack errou, reconheceu o erro e pediu desculpas.

Desculpas bastam, resolvem? Isso pode ser discutível. Mas a verdade é que o deslize do profissional de comunicação foi feito em privado e, neste caso, o mínimo que se pode dizer é que ele tem, como qualquer cidadão, direito à privacidade. O delito de racismo no Brasil é grave, previsto em lei e mesmo quando a ofensa é privada será passível de punição penal se a vítima reclamar seus direitos na Justiça. Não foi o que aconteceu. Se a piada privada é racista, sua divulgação pública é que é ofensiva. Nenhum cidadão está imune a uma gravação de áudio ou vídeo num momento de intimidade e essa invasão também é passível de repulsa e condenação, tanto moral quanto penal.

Há, ainda, nesse caso, outro aspecto, o político. Os divulgadores do vídeo e do áudio privados não se identificaram como militantes políticos, mas apenas como negros atingidos pelo racismo do acusado. Mas não se pode deixar de lembrar, nesta ocasião, que o maior líder da esquerda brasileira, Luiz Inácio da Silva, é pródigo em piadas contra mulheres (“grelo duro” é apenas a mais grosseira), homossexuais (“Pelotas exporta viados”) e machistas. Feministas e militantes homossexuais de esquerda nunca cobraram dele desculpas. Isso, contudo, importa menos, de vez que  Waack, personagem do caso, se desculpou.

Mas Waack não está sendo crucificado por ser racista. Não conheço – e até agora não apareceu nenhum registro – manifestações do apresentador afastado do Jornal da Globo de grosserias do gênero em seus textos, suas intervenções nos debates do programa Painel, que apresentava, ou em palestras e outros eventos públicos de que tenha participado.

Quanto a esse particular, Pitigrilli tornou famosa sua afirmação de que “toda pessoa tem seus cinco minutos diários de imbecilidade. A diferença entre as pessoas brilhantes e as demais é que, em seus minutos de imbecilidade, os brilhantes ficam quietos.” No caso de Waacl, ele teve alguns segundos de imbecilidade e sua crucificação nu em praça pública por militantes da intolerância, nestes tempos de fogueiras da inquisição na internet, é tirânica, absurda, injusta e cruel. Acontece que Waack não está sendo exposto e maltratado por ser racista, mas por ser um jornalista independente. E também por seu talento. Os medíocres organizados e que formam quadrilhas de detratores nas redes sociais não perdoam um profissional brilhante, independente, que exerce aquela frase famosa de Millor Fernandes, segundo quem livre pensar é só pensar. Reputo Waack como o jornalista mais competente de nossa geração e um correspondente de guerra comparável ao mitológico Joel Silveira.

Na condição de jornalista independente, sem ter procuração para defender o profissional, homenageio os colegas José Roberto Guzzo, Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo, que tiveram a coragem de vir a público denunciar esses novos Torquemadas, fascistinhas de esquerda e de direita que não toleram a convivência pacífica e não perdoam os erros alheios por menores e menos relevantes que sejam, embora sejam muito condescentes com a cafajestice de seus ídolos particulares. O palpite infeliz do apresentador só foi levado ao público pela atitude clandestina, covarde e oportunista de seus detratores.

Torquemada também inspirou o lamentável episódio protagonizado pela autora do livro Problemas do Gênero – Feminismo e Subversão da Identidade, publicado em 1990, mas que não a tornou propriamente conhecida no Brasil. Eu mesmo nunca tinha ouvido falar nela. Ao contrário de muitos que protestaram contra a queima de um boneco de bruxa com o rosto da filósofa na frente do Sesc Pompeia, onde ela fez sua palestra, apesar dos protestos. Teria muito a reclamar se a palestra tivesse sido cancelada por causa do ódio sem motivo que ela despertou. A queima da boneca de bruxa não a feriu, da mesma forma que seus livros, suas aulas e sua militância no movimento gay (e mesmo na ideologia de gênero) não prejudicaram ninguém. Somente impulsos fascistoides e psicopatológicos e manifestações de loucura ideológica podem explicar, embora nunca justifiquem, a atitude absurda de uma manifestante que tentou agredi-la e deu um tapa numa mulher que se prontificou a protegê-la no Aeroporto de Congonhas, quando ela já havia embarcado no avião.

Essa queima de bruxas pode ser tão inofensiva como as fogueiras de Judas na brincadeira de Sábado de Aleluia. Desde que não venham acompanhadas de agressões físicas nem de interferências indesejáveis na carreira de um profissional que só pode ser acusado de não ser uma vaquinha de presépio dos Torquemadas de sempre, aqui e agora.

  • Jornalista, poeta e escritor