Sem Fla-Flu em Curitiba para o bem do Brasil
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Sem Fla-Flu em Curitiba para o bem do Brasil

Torcidas de Lula e Moro não interferem na normalidade do processo judicial

José Nêumanne

17 Maio 2017 | 16h20

 

Quem Lula pensa que engana vestindo verde e amarelo? Foto: Alex Silva/Estadão

Enganou-se quem previu que o depoimento de Lula ao juiz federal Sérgio Moro na quarta-feira, 10 de maio, em Curitiba seria um Fla-Flu ou uma luta de MMA entre o juiz justiceiro e o santo guerreiro das crenças populares. Não faltava quem acreditasse que seria traumática, e até sangrenta, essa fase do processo em que o Ministério Público Federal acusa o ex-presidente de ocultação de patrimônio de um tríplex de cobertura no edifício Solaris, no Guarujá. A previsão da batalha campal poderia impedir a condenação e, mais ainda, a prisão do único líder da esquerda no Brasil.

Lula e seus sequazes inflaram o noticiário e as redes sociais com a convocação de uma batalha anunciada: “Se prenderem o chefe, poremos fogo no País”. O medo da transformação das cidades brasileiras em praças de guerra para evitar que se cumpra a lei virou uma espécie de parto da montanha que pariu o rato. Como de hábito o faz, Lula alternou suas interpretações de valentão insubmisso e coitadinho perseguido. Em Curitiba, ele se comportou como camundongo amestrado na sala de audiências da Justiça Federal e serpente cruel no palanque na Praça Santos Andrade. Encarnou, assim, só em sua singular pessoa, a dupla de humoristas da Rádio Nacional nos anos 40 e 50, Jararaca e Ratinho.


E tudo se resumiu a um acusado de crime comum diante do juiz que o julga numa causa rotineira, sem consequências políticas nem indícios de  perseguição. Dos 100 mil militantes esperados foram 50 mil nas contas dos organizadores e dados como 5 mil, no máximo 10 mil. Um fracasso retumbante! Pode-se afirmar, em contraponto, que mais notório ainda foi o fiasco de quem foi ao Paraná apoiar o juiz paranaense, pois não chegaram, na melhor das hipóteses, a mil. Concordo. E não caio na armadilha retórica de justificar que os movimentos sociais e o PT convocaram os manifestantes pró-Lula por vários dias e todos os meios, enquanto Moro pediu paz nas ruas e ausência de apoiadores. Prefiro uma interpretação realista e isenta. A grande lição histórica ministrada no Paraná em 10 de maio foi que o PT e os movimentos sociais não têm condições de impedir os passos normais da Justiça em nossa democracia. E os admiradores da Lava Jato também têm mais papo do que ação. Ou melhor, nenhuma mobilização. De fato, não conseguirão na rua impedir que as providências tomadas na primeira instância sejam negadas por instâncias superiores da Justiça. A conjunção dos fatos me leva a crer que o funcionamento da Justiça e a consolidação da democracia venceram nas ruas de Curitiba.

Muita gente boa esperava que Lula pusesse o juiz no bolso no depoimento. Esse pessoal quebrou a cara. Primeiro, por desprezar a astúcia do magistrado, como diria o Chapolim Colorado. E, depois, por menosprezar a evidência de que Lula é frouxo. Diante de seus prosélitos nos comícios da militância, Lula, que já se comparou a uma jararaca, se jactou de que se elegerá presidente pela terceira vez e punirá policial ou procurador que o perseguir e prenderá jornalista que mentir sobre ele. Perante o juiz, apesar de ter recitado essa patacoada, afinou. Começou o depoimento muito tenso e, ao longo de cinco horas, recorreu a velhos truques de retórica, ensaiando até suas piadas de mau gosto favoritas. Mas foi recebido pela gélida indiferença do juiz, que tinha avisado que seu papel era de ser imparcial e julgar. Nem os miquinhos amestrados do chefe Lula presentes à sala de depoimento riram de suas piadas, que, subitamente, perderam a graça.

No depoimento Lula negou tudo o que pôde negar e passeou na beira do abismo retórico sempre que foi confrontado com fatos indesmentíveis. Não convenceu quando tentou transferir para os policiais a necessidade de justificar o encontro por eles de um documento sem assinatura em seu apartamento em São Bernardo. Nem é crível sua versão estapafúrdia de que ele e a família visitavam um apartamento chinfrim pelo qual nem sequer se interessavam. A tentativa de transformar o poderoso empreiteiro e chegado amigo Léo Pinheiro, presidente da encalacrada OAS, em vendedor de mico foi patética. A transferência de toda a responsabilidade quanto ao tríplex a Marisa Letícia, sua mulher morta, não foi original nem em relação a adversários e colegas de infortúnio na Lava Jato. Assim como o PP tentou transferir toda a responsabilidade para Janene e o PSDB fez o mesmo com o flagrado Sérgio Guerra, ele usou o truque de todo malandro apanhado em flagrante delito usando o cadáver da própria mulher. Essa foi a parte mais asquerosa de seu depoimento, repetindo, aliás, o que dissera antes na mesma sala seu pecuarista de recados José Carlos Bumlai. Ele também pisou no tomate quando deixou de responder a uma pergunta do juiz sobre a antecipação pelo jornal O Globo (em 2010) do interesse em comprar o tríplex (em 2014). E, mais ainda, quando se traiu ao dizer que uma visita de Léo Pinheiro a sua casa no ABC pode ter sido para tratar da cozinha de luxo para o sítio em Atibaia, que insiste que não é dele. Se foi buscar lã, saiu tosquiado.

*Jornalista, poeta e escritor