Péssima reputação
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Péssima reputação

Novos episódios dos arquivos secretos de Cristiane Brasil tornam cada vez mais vexatória sua posse no Ministério do Trabalho

José Nêumanne

05 Fevereiro 2018 | 18h17

Temer e Sarne, personagens da novela sem fim da troca no Ministério do Trabalho Foto: André Dusek/Estadão

O vídeo revelado pelo Fantástico sobre a coação de Cristiane Brasil para arrancar votos de funcionários traz a lume o vexame total da nomeação da filha do ex-presidiário Roberto Jefferson, dono do PTB, para o ministério do Trabalho no ano em que a pasta se concentrará no combate ao maior problema social do Brasil, o desemprego. Mantê-la é mais do que um vexame. Entre todos os motivos, éticos inclusive, há um prático. O PTB não altera mais o placar previsível da votação da reforma da Previdência. Insistir no erro político só tem explicação numa pergunta que fica no ar: que armas pode ter Jefferson para por Temer contra a parede? Ninguém mais tem dúvida de que há algo profundo e misterioso na relação entre esses dois personagens dos porões da República.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107.3 – na segunda-feira 5 de fevereiro de 2018, às 7h30m)

Para ouvi-lo clique aqui e, em seguida, no play


Para ouvir O dia em que o morro descer e não for carnaval, com Wilson das Neves, clique aqui

Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 5 de fevereiro de 2018 – Segunda-feira

Haisem Reportagem do programa Fantástico da TV Globo veiculada na noite deste domingo, 4, exibiu um áudio da deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ), então secretária do Envelhecimento e Qualidade de Vida do Rio de Janeiro, em 2014, supostamente coagindo funcionários a conseguirem votos para ela nas eleições. A notícia pode aumentar a pressão de deputados do PTB para que sua indicação para o Ministério do Trabalho de Temer seja suspensa?

Ela disse: “Eu só tenho um jeito de manter o emprego de vocês. Me elegendo”, disse a então candidata a deputada federal. Cristiane seria eleita com pouco mais de 80 mil votos. Segundo a reportagem, o áudio é de uma reunião na pasta com cerca de 50 servidores. Vamos ouvi-lo?

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Em nota ao Fantástico, a deputada disse que desconhece o áudio e que “jamais infringiu qualquer norma ética ou jurídica relacionada às eleições”.

Na reunião de 2014 na secretaria, ao lado de Cristiane, esteve presente o então candidato a deputado estadual, Marcus Vinícius (PTB), que também pediu que os servidores conseguissem-lhe votos. Em nota, a assessoria do deputado disse que que ele “desconhece tal áudio e que, consequentemente, não pode se manifestar sobre o suposto material”. Respostas muito fracas.

O que esta revelação traz a lume é o vexame total da nomeação da filha do ex-presidiário Roberto Jefferson, dono do PTB, para o ministério do Trabalho no ano em que a pasta está envolvida no combate ao maior problema social do Brasil, o desemprego. Mantê-la é mais do que um vexame. Entre todos os motivos, éticos inclusive, um prático. O PTB não altera mais o placar previsível da votação da reforma da Previdência. A insistência no erro político só tem explicação numa pergunta que fica no ar: que armas pode ter Jefferson para por Temer contra a parede.

Carolina Depois de se reunir com o presidente Michel Temer ontem, o relator da reforma da Previdência, deputado Arthur Maia (PPS-BA), disse que caberá ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), definir se a proposta terá novas alterações e qual será o calendário de votação. A que conclusão é possível chegar depois das conversas mantidas ontem nas cúpulas do Executivo e do Legislativo?

Algumas mudanças, envolvendo os servidores públicos que ingressaram na carreira antes de 2003 e o acúmulo de benefícios, já estão sendo costuradas. A equipe econômica está calculando o impacto que cada uma delas terá sobre as contas públicas. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deu entrevista coletiva à saída do Planalto comentando esta possibilidade

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A votação da reforma está prevista para o dia 20 de fevereiro, mas a definição, de fato, dependerá de Rodrigo Maia, que quer colocar o texto em votação com certeza de que existem votos necessários para sua aprovação em plenário. A Folha de S.Paulo está dando em manchete que “sem votos, MJaia quer tirar a reforma da pauta.

Tirar a reforma da pauta e manter a guerra contra o judiciário para empossar Cristiane Brasil, pra lá de suspeita, não é, no mínimo, estranho?

Haisem O juiz Sergio Moro disse que manter o auxílio-moradia para mais de 17 mil magistrados, inclusive ele, é uma forma de compensar a falta de reajuste da categoria desde 2015. Você acha que é mesmo?

Moro perdeu uma excelente oportunidade de evitar o tema, pois é um dos magistrados que recebe o benefício, cujo teto, hoje, é de R$ 4.377. Segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, Moro é dono de um apartamento em Curitiba, mas, mesmo assim, recebe mensalmente o auxílio desde outubro de 2014, um mês após decisão liminar do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estendeu o benefício a todos os magistrados. O juiz da Lava-Jato argumenta que os magistrados estão sem aumento há três anos.

Moro disse que “O auxílio-moradia é pago indistintamente a todos os magistrados e, embora discutível, compensa a falta de reajuste dos vencimentos desde 1 de janeiro de 2015 e que, pela lei, deveriam ser anualmente reajustados” . A mulher do juiz, advogada Rosângela Wolff Moro, publicou na madrugada de anteontem, em sua conta no Instagram, uma crítica à imprensa poucas horas após esta publicação: “Imprensa… para o bem e para o mal. Separam o joio do trigo e publicam o joio”, escreveu Rosângela. A postagem ainda traz uma foto de um cacho de bananas parcialmente embrulhado por um jornal cujo logotipo aparenta ser o da Folha de S.Paulo.

O juiz Sérgio Moro perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado e a mulher dele pisou no tomate e depois tentou atirá-lo em nossa cara. Até porque o marido dela acaba de confirmar que esse tipo de penduricalho é uma forma de burlar a lei e isso não fica bem em qualquer juiz, imagine então o herói nacional que ele é por causa da Lava Jato. Moro superou até o colega Marcelo Bretas, do Rio, que fez ironias a respeito. A mulher dele tem o direito de opinar sobre o que quiser nas redes sociais, mas seria melhor para o casal que ela tivesse evitado fazer comentários desairosos sobre a imprensa que, de forma geral, trata o marido muito bem. Considerações a fazer: é o fim da picada expressar o que o casal expressou porque a única defesa possível no caso seria não possuir o apartamento, principalmente numa situação como a do Brasil, que tem um enorme déficit habitacional, principal motivo da existência de comunidades nas periferias da cidade. Querer explorar esse erro para contestar as sentenças de Moro, Bretas e outros juízes, desde que as sentenças combatam a corrupção mesmo, é estupidez. Corrupção é uma coisa, privilégio outra. Até porque é legal neste caso. Mesmo legal, custa caro. 800 milhões, revelou o Estadão.

Carolina Por falar em Moro, ele mandou a Polícia Federal investigar a execução do empresário José Roberto Soares Vieira na Bahia, porque acha que tem a ver com a Lava Jato. Será que tem mesmo?

Esta notícia foi dada pelo Estadão há alguns dias e agora acaba de servir de tema para a reportagem de capa da revista Veja. De fato, o assunto é sério. Segundo a revista, o empresário José Roberto Soares Vieira desconfiava que algo de ruim estava para acontecer. Não era um simples pressentimento. No começo deste ano, ele vendeu a casa, num condomínio de alto padrão em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. Passou a evitar atender ligações de números desconhecidos, afastou-se de colegas e raramente andava sozinho na rua. Contratou um motorista particular, que fazia as vezes de segurança, e procurou uma concessionária para mudar de carro. Aos vendedores, disse que queria trocar ou blindar seu Land Rover Discovery 4. Enquanto aguardava o orçamento, deixou o veículo na loja e alugou um Gol. Na manhã de 17 de janeiro, logo depois de sair da concessionária, Roberto do PT, como era conhecido o empresário baiano, visitou uma segunda loja de automóveis antes de percorrer 32 quilômetros até o trabalho. Eram os seus últimos minutos de vida.

Ele foi morto com nove tiros na porta da sua empresa por um homem em uma motocicleta. O assassinato seria mais um de tantos que ocorrem todos os dias pelo Brasil afora, não fosse por um detalhe crucial: dois meses antes, a vítima havia delatado um esquema de arrecadação de propinas na Petrobras. Era testemunha de um braço de um caso investigado pela Operação Lava Jato envolvendo o PT da Bahia. Quem chamou atenção para esse fato foi o juiz Sergio Moro. Num despacho assinado no último dia 26, o magistrado advertiu: “Não se pode excluir a possibilidade de que o homicídio esteja relacionado a esta ação penal, já que, na fase de investigação, o referido acusado aparentemente confessou seus crimes e revelou crimes de outros”. Traduzindo, Moro levantou a suspeita de que esse caso seja a primeira queima de arquivo, ou assassinato por vingança, da Lava Jato. E tudo leva a crer que ele tem razão.

Vamos agora aguardar os fatos a serem revelados por esta investigação.

Haisem Outro caso suspeito é o revelado pela IstoÉ sobre a morte de dirigentes da Bancoop, que financiou a construção do Edifício Solaris no qual fica o triplex pelo qual o ex-presidente Lula foi condenado por Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão. De que se trata?

Trata-se da morte mal explicada de três ex-diretores da Bancoop, a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo. Os dirigentes foram vítimas fatais de um estranho acidente de carro ocorrido em novembro de 2004, em Petrolina (PE), quando voltavam de um encontro com Lula na cidade pernambucana. Os integrantes da cooperativa tinham ido ao petista dizer que ele precisava ajudar o partido a ressarcir a Bancoop de um dinheiro desviado para a campanha presidencial de 2002. A falta dos recursos havia paralisado as obras tocadas pela cooperativa e milhares de cooperados reclamavam da demora para a entrega de seus imóveis. Mas o retorno para casa foi trágico. Entre os diretores mortos estava o então presidente da Bancoop, Luiz Eduardo Saeger Malheiro.

Coube ao seu irmão, Helio Malheiro, em depoimento ao promotor José Carlos Blat, do Ministério Público Estadual de São Paulo, em 2008, levantar a suspeita de queima de arquivo. Segundo ele, os corpos vieram para São Paulo de avião acondicionados em urnas lacradas sem passar pela perícia do IML. Além disso, a circunstância do acidente envolvendo um caminhão e o Corsa, onde estava seu irmão e os dois dirigentes da Bancoop, lhe pareceu inusitada. Uma testemunha ligada ao PT teria afirmado aos investigadores do caso que o motorista e os dois passageiros, entre os quais Luiz Eduardo, que estava no banco traseiro, haviam dormido simultaneamente no trânsito, o que provocou a perda do controle do veículo e o choque frontal com o caminhão. Mas a família sequer teve acesso às investigações. “Meu irmão era uma pessoa muito desconfiada quando não estava ao volante de um veículo e não dormia em hipótese alguma”, afirmou Hélio Malheiro.

Pode ser mera coincidência, mas, se for verdade o que a revista registrou, urge que também se investigue as mortes e tudo seja publicado, de forma transparente para não se transformar num novo caso Celso Daniel.

Carolina Em menos de 24 horas, pelo menos 13 pessoas foram baleadas, deixando seis mortos no Rio de Janeiro. As ocorrências mostram que as Forças Armadas não resolvem o caos da violência no Rio ou talvez a situação estaria ainda pior sem sua permanência?

Segundo informações da Polícia Militar, bandidos executaram um paciente por quatro homens com  fuzia numa ambulância  na Rua Guarulhos, na lateral do Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, sábado, à noite.

Seja qual for a resposta a sua pergunta, a situação parece estar chegando perto do que o grande sambista Wilson das Neves profetizou em 1966.

SONORA O dia em que morro descer e não for carnaval Wilson das Neves