Mentiras emprestadas
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Mentiras emprestadas

Temer aproveita-se até de depoimento do sabidamente mendaz ex-amigo Eduardo Cunha

José Nêumanne

07 Novembro 2017 | 10h59

 

Temer repete sua cantilena de perseguido e nada justifica, como de hábito  Fotos: Beto Barata/PR

Meio ano depois de ter sido revelada a reunião de Temer na calada da noite no Palácio do Jaburu com Joesley Batista, o presidente perdeu mais uma excelente chance de, no mínimo, pedir desculpas por ter recebido uma pessoa que ele, seus advogados, assessores, ministros, bajuladores e parlamentares da base de apoio acusam de ser um delinquente da pior espécie, como se tivesse sido um santo até o momento de ter cruzado o portão do palácio gritando ser Rodrigo e só depois de 17 de maio converteu-se à militância no crime. Temer conseguiu apoio para não ser investigado, ao contrário do que ele afirmou. Deverá ficar até o fim do governo, mas não é essa propaganda do tipo me engana que eu gosto que mudará os fatos. Ele tornou-se suspeito em 17 de maio e continua sendo. Quem tiver mais de 30 de QI sabe disso.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na terça-feira 7 de novembro de 2017, às 7h30,)

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Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 7 de novembro de 2017 = Terça-feira

Alguém acredita nesta versão que o presidente da República vendeu ontem de que ele foi vítima de uma trama que pretendeu mergulhar o Brasil numa crise política?

O presidente Temer afirmou ontem que foi denunciado criminalmente duas vezes porque o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, autor das acusações formais, queria impedir sua influência na escolha do novo chefe do Ministério Público. Temer falou como vítima de uma “trama” que “pretendeu mergulhar o Brasil numa crise política”, ao discursar a deputados líderes de partidos e bancadas na Câmara, convidados para reunião no Palácio do Planalto.

SONORA 0710 A TEMER

“Urdiram muitas tramas, na verdade, para derrubar o presidente da República, derrubar o regime posto. As duas denúncias que foram desautorizadas pela Câmara, hoje está robustamente, relevantemente, fortemente demonstrado, era uma articulação que tinha um objetivo mesquinho, minúsculo, menor, de derrubar o governo para impedir o presidente de indiciar o sucessor daquele que ocupava a PGR”, disse.

Temer foi denunciado formalmente no âmbito da delação premiada do grupo JBS por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça. Sem citar as denúncias, ele disse aos deputados que o livraram de perder o mandato, barrando no voto o processamento das acusações até o fim de seu governo, que faz um governo “conjugado” e “semiparlamentarista”. “Ninguém obstacularizou, ninguém impediu que se apurasse isso ou aquilo”, defendeu-se o presidente.

Meio ano depois de ter sido revelada a reunião de Temer na calada da noite no Palácio do Jaburu com Joesley Batista, ele perdeu mais uma vez uma chance de, no mínimo, pedir desculpas por ter recebido uma pessoa que ele, seus advogados, assessores, ministros, bajuladores e parlamentares da base de apoio acusam de ser um delinqüente da pior espécie, como se ele fosse um santo até o momento de ter cruzado o portão do palácio gritando ser Rodrigo e só depois de 17 de maio converteu-se à militância no crime. Temer conseguiu apoio para não ser investigado, ao contrário do que ele afirmou. Deverá ficar até o fim do governo, mas não é essa propaganda do tipo me engana que eu gosto que mudará os fatos. Ele tornou-se suspeito em 17 de maio e continua sendo. Quem tiver mais de 30 de QI sabe disso.

Uma das razões para levar Temer a fazer o pronunciamento ontem foi o depoimento do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha na Justiça dizendo que tentaram forjar a acusação de que ele tentou comprar seu silêncio. Você acha que esta é uma base suficiente para afirmar que tentaram criar uma crise política só para evitar a nomeação de Dodge para o lugar de Janot?

O ex-deputado Eduardo Cunha negou ter recebido dinheiro do empresário Joesley Batista para não fazer delação e afirmou que a suposta compra do seu silêncio foi ‘forjada para derrubar o mandato do presidente Michel Temer‘.

SONORA 0711 A CUNHA

A declaração de Cunha foi em resposta a uma pergunta do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília, no âmbito dos interrogatórios da ação penal derivada da Operação Sépsis.

“Deram uma forjada e Joesley foi cúmplice e agora está pagando o preço por isso”, afirmou Cunha.

A suposta compra do silêncio de Cunha apareceu pela primeira vez após divulgação do áudio da conversa gravada entre Temer e Joesley no Palácio do Jaburu, ocorrida na noite de 7 de março.

Em seu acordo de colaboração, Joesley Batista disse ter efetuado pagamentos para Cunha e seu operador, Lúcio Bolonha Funaro, com o objetivo de manter os dois em silêncio na prisão.

A informação embasou a abertura de investigação e posterior oferecimento de denúncia contra Temer pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Cunha é tão mentiroso e tem dado tantas versões estapafúrdias que o Ministério Público Federal não aceitou sua delação premiada. Sua mais recente versão é tão confiável quanto a de que não tinha conta no exterior. Ele já está condenado e chega a ser constrangedor para a sociedade ver o presidente da República tentar justificar-se recorrendo a testemunha tão desprezível. É o mesmo que pedir ajuda a Pedro Malazartes.

Para evitar que a Câmara autorizasse o Supremo a investigá-lo Temer chegou a receber Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão, que conseguiu dele em troca de seu partido, o PR, o recuo do governo de privatizar o aeroporto de Congonhas. Isso pode?

Reportagem de Isadora Peron e Ricardo Galhardo, da sucursal do Estadão em Brasília, dá conta de que cinco anos depois de ter sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no mensalão, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (PR) continua dando as cartas em Brasília e circula pelos principais eixos de poder da capital. Nos últimos meses, esteve pelo menos três vezes com o presidente Michel Temer e é um interlocutor frequente de nomes como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Discreto, Valdemar não voltou à vida pública nem planeja ser candidato em 2018, mas isso não diminui a influência que tem em seu partido, o PR, e no mundo político. Segundo assessores, ele não tem mais cargo de comando na sigla. É um funcionário da legenda, com salário pago por meio da conta da contribuições pessoais – portanto sem dinheiro público do Fundo Partidário – e responsável por cuidar da administração financeira do PR. Na última semana, o Estado ouviu mais de uma dezena de nomes da política nacional, e todos foram unânimes em afirmar que Valdemar se mantém como uma figura influente. “Tenho uma relação muito boa com o PR e com Valdemar. Ele foi muito importante nas minhas duas eleições à presidência da Câmara”, disse Maia.

Recentemente, foi atribuída ao ex-deputado federal a decisão do governo de retirar o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, da lista de privatizações e de reabrir o Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, para voos de longa distância. Em troca, 26 dos 39 deputados do PR votaram a favor do arquivamento da segunda denúncia apresentada contra Temer pela Procuradoria-Geral da

República (PGR), por obstrução da Justiça e organização criminosa.

Assessores do PR negam que o presidente da Infraero, Antônio Claret, seja afilhado político de Valdemar e que ele tenha algo a ver com os aeroportos. Esses mesmos assessores, no entanto, confirmam que, em pelo menos um dos encontros de Valdemar com Temer, o tema da conversa foi a orientação dos deputados do PR na votação das denúncias. Procurado pela reportagem, o ex-deputado não respondeu.

O ambiente de casa de tolerância em que a Praça dos Poderes se transformou na votação da negação de autorização da Câmara para a investigação de Temer pedida por Janot ao Supremo chegou a transformá-la numa espécie de puxadinha da Papuda. O prestígio de Boy com os maiorais da República é muito mais pornográfico do que a exibição da genitália de Lilian Ramos que ele conduziu ao palanque de Itamar Franco num desfile de carnaval do Rio que se tornou histórico por isso.

O esforço que o governo está fazendo para tentar erguer a impopularidade imensa de Temer tem dado resultado?

Pelo visto, não. Segundo o jornal O Globo de hoje, uma propaganda do governo federal divulgada no Twitter foi alvo de críticas dos internautas. No início da tarde, o perfil governo brasileiro postou uma mensagem otimista sobre o Brasil com um vídeo com imagens da torcida brasileira nos estádios. O vídeo começa com imagens de torcedores sofrendo, com cara de espanto, que lembram a derrota para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Ao som de um samba arrastado, o vídeo diz que “em 2015, a inflação estava em dois dígitos, a Petrobras tinha sido saqueada, roubada e destruída, o desemprego era crescente e a taxa de juros estava em 14,25%. O país estava parado, desacreditado e desmoralizado”.

Mas na metade da propaganda o clima do vídeo muda:

“Mas aqui é Brasil.” E a torcida começa a vibrar ao som de uma bateria vibrante: “Viramos esse jogo”, com imagens ao fundo de uma onda feita  pelo público na arquibancada. Apesar de ter recebido até as 21h 409 curtidas, o post gerou uma enxurrada de críticas entre os 964 comentários.

Esse lema Aqui é Brasil lembra a propaganda de meu time nos intervalos dos jogos. Aqui é Flamengo. Esse orgulho só é demonstrado na propaganda. No jogo pra valer, o time é a maior decepção da paixão futebolística brasileira nesta temporada. A diferença de Temer é que ninguém esperava nada dele mesmo. Portanto, não há frustração, mas apenas uma desolada e inevitável constatação.

A patoacoada da ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, de que ela é submetida a trabalho escravo, afinal produzirá algo positivo?

Após a polêmica envolvendo a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois (PSDB), a comissão especial que analisa o projeto que regulamenta o limite salarial dos servidores prepara uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para regulamentar as possibilidades de acúmulo de salários além do teto do funcionalismo público, de R$ 33,7 mil, quando há ocupação de diferentes cargos. A mudança constitucional também deve propor o fim das férias de 60 dias concedidas a membros do Judiciário e do Ministério Público. Segundo o relator do projeto, deputado Rubens Bueno (PPS-PR), a PEC é necessária para contemplar decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), com repercussão geral, que prevê a incidência de mais de um teto remuneratório no caso de acumulação de vínculos com a administração pública. Na prática, isso legaliza o recebimento acima do limite de R$ 33,7 mil, que é o salário de um ministro do Supremo.

“O STF deixou (o entendimento) muito elástico. Queremos deixar claros os casos em que pode acumular, para não deixar espaço aberto para o jeitinho brasileiro”, afirmou Bueno. Segundo o parlamentar, a ideia é manter a possibilidade de acúmulo para professores e profissionais de saúde.

Férias. A PEC também pretende acabar com o direito que magistrados e procuradores têm de gozar de férias de 60 dias por ano. Uma mudança desse tipo teria de ser feita por lei complementar, por iniciativa dos próprios órgãos, algo considerado improvável. Daí a necessidade de prever a mudança na própria Constituição.

A notícia parece positiva, mas é preciso esperar para ver até que ponto o lobby dos servidores que, segundo a manchete do Estadão de hoje, está pondo em risco as medidas propostas pelo governo para reduzir as despesas com folha de pagamento, não vai alterá-la. Aqui vale o conceito Capistrano de Abreu. Ou faz tudo de uma vez sem exceções nem penduricalhos ou não faz. As exceções previstas no projeto já o tornam inócuo. Aliás, a origem da idéia, o giro turístico de Maia e mais nove por Israel, Palestina, Itália e Portugal, não a recomenda em nada. De qualquer momento, é esperar pra ver. Mas talvez seja desperdício jogando dinheiro fora pagando pra ver.

SONORA Me engana que eu gosto Marquinhos Satã