Omissão oportunista
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Omissão oportunista

Em depoimentos e entrevista à Época, Joesley tenta vender lorota de relação republicana com Lula

José Nêumanne

19 Junho 2017 | 10h50

Joesley em seus tempos de bamba do abate Foto Vanessa Carvalho Brazil Photos 2015

Assustam as revelações feitas por Joesley Batista na entrevista a Diego Escosteguy que circula na Época desta semana, a respeito da desfaçatez e da truculência da Orcrim do PMDB da Câmara, que ele acusa ser liderada pelo presidente em pessoa. Só não é convincente a tentativa de convencer a opinião pública que os irmãos Batista enriqueceram porque são gênios no negócio de abate de bois e que Lula foi apenas um patriota ajudando um empresário nacional a criar sua própria multinacional. Chama-me a atenção na entrevista e relativiza sua importância como furo é que só um petista é delatado por Joesley Batista. De seus depoimentos e de sua entrevista só o ex-ministro da Fazenda de Lula sai mal: Guido Mantega. Depois de delação similar de Palocci, isso muito estranho.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,4 – da segunda-feira 19 de junho de 2017, às 7h30m)

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Para ouvir De mentira, com Zeca Baleiro, clique aqui

Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 19 de junho de 2017

SONORA De mentira Zeca Baleiro https://www.youtube.com/watch?v=35dDKGYwm0k

Em que a entrevista exclusiva dada por Joesley Batista pode prejudicar a srevivência do governo Temer?

No momento em que o presidente Michel Temer embarca para a Noruega e para a Rússia tentando vender à opinião pública a impressão de que está firme no comando do País e que o programa das reformas, principalmente a da Previdência e a trabalhista depende de sua presença no Palácio do Planalto, a força política dele fica profundamente abalada no Congresso. Isso se deve à entrevista que o delator premiado Joesley Batista, da JBS, deu a Diego Escosteguy, da revista Época, publicada com grande destaque na capa do semanário que está neste momento nas bancas de todo o País. A entrevista é chocante pelo que o entrevistado revelou e pelo que ele deixou de revelar com anuência e omissão do entrevistador. As denúncias feitas contra o presidente e seus homens de governo são assustadoras. Os brasileiros parecem anestesiados em relação a denúncias contra a corrupção e não acompanho manifestações de peso sobre o grau de comprometimento da democracia quando aparece um cidadão livre, leve e solto e denuncia o presidente da Republica como o número um, o poderoso chefão de uma organização criminosa que está em parte na cadeia e em parte no Palácio do Planalto, de onde comanda os vultosos negócios da República e manda na vida econômica da produção e do consumo, sendo responsável pelo sucesso, pela fortuna e pela falência de toda uma sociedade. Joesley deu nomes aos bois. Além de Temer, seu mão longa Rodrigo da Rocha Loures e seus auxiliares ou ex-aliados e ex-auxiliares diretos Geddel Vieira Lima, Eduardo Cunha, Wellington Moreira Franco e Eliseu Padilha, grupo designado como o PMDB da Câmara. É assustador principalmente para quem imagina que vivemos em plena liberdade num Estado de Direito e de repente podemos estar sob o comando de pessoas desqualificadas e vingativas, que podem estar tramando a desgraça ou até mesmo contra a integridade física de seus críticos em quaisquer atividades que desempenhem essa crítica, políticos, jornalistas ou pessoas com relevância pública e social. O fato de o denunciante gozar de plena liberdade e não ter sido até agora contestado em nada do que tenha dito de realmente relevante é um dado que precisa ser debatido como de relevância maior do que tem sido revelado nos depoimentos de delação premiada dos dirigentes da JBS. Desde sábado quando as bancas começaram a exibir a capa explosiva, o noticiário político contém notícias preocupantes para o presidente e sua equipe de governo mais próxima, a corte palaciana, que vinham comemorando uma vitória bastante contestada na opinião pública no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Tudo isso retira autoridade de Temer sobre o que ele vai discutir com russos e noruegueses sobre política e economia no Brasil e abala ainda mais sua autoridade internamente.

Mas você acha que a palavra do entrevistado merece crédito total, a ponto de abalar os projetos de permanência de Temer no poder?

Temer tem apostado suas fichas exclusivamente na desqualificação do entrevistado. Isso não resolve em nada seu problema e, muito menos, o da Nação. Joesley é bandido, todo brasileiro desconfia disso há muito tempo, mas ele não é nosso bandido. Ele é um bandido criado e cevado no mesmo meio ambiente em que Temer foi. É muito pouco provável que o atual presidente não seja, como ele diz, o número 1 da organização criminosa que limpou os cofres republicanos nos 13 anos, 4 meses e 12 dias dos desgovernos Lula e Dilma, ambos do PT. Mas está claro que o PMDB do Senado, com Renan Calheiros, Romero Jucá, Edison Lobão e outros menos votados e o da Câmara, a quem pertencem Temer e sua patota participaram de forma ativa desse saque, se não ao longo do primeiro mandato e desmandato do primeiro governo Lula, pelo menos foi cúmplice importante a partir do momento em que, após sua segunda posse, o ex-presidente petista foi obrigado a enfrentar o desmascaramento do esquema de rapina denunciado no processo chamado de Ação Penal 470 e vulgarmente chamado de mensalão. Foi quando, sem Zé Dirceu, o articulador da base de apoio comprada na primeira indigestão, Lula terminou apelando para a idéia do seu ex-factotum e chamando o PMDB para a divisão do butim. Temer foi o representante mais importante dessa aliança ao lado dele e levou seu partido para o baile sendo decisivo nas duas eleições de Dilma e na articulação de sua sobrevivência no início do processo do desgaste. Se não é lógico que Temer tenha sido o número um nos anos em que os irmãos Batista de Anápolis enriqueceram de forma incrível e inusitada, não é desprezível a informação de que ele é o número um da patota do PMDB que participaram do grande saque aos cofres republicanos de 2011, após a posse de Dilma e Temer, até hoje. Isso fica muito claro nas investigações da Operação Lava Jato, principalmente no que concerne às revelações feitas pela força-tarefa da Operação Lava Jato, menos no que depende do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e do Supremo Tribunal Federal, que têm demonstrado mais ímpeto investigativo para punir o grupo que Joesley chama de “orcrim do Planalto” do que os chefões do PT e de seus partidos aliados no período maior e mais ativo da corrupção.

A Folha de S.Paulo chamou a atenção para contradições entre o depoimento de Joesley à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal e a entrevista, principalmente no que concerne a datas. Mas, a meu ver, este não é o principal deslize do entrevistado, do entrevistador e da revista.

E o que importa mais, na sua opinião?

A nota oficial com que o Palácio respondeu à entrevista investe, mais uma vez, exclusivamente na desqualificação do denunciante. Chamou-me, contudo, atenção, do ponto de vista informativo para o fato de que, desta vez, ela foi muito bem redigida e começou chamando a atenção para o que realmente repugna tanto na aceitação do acordo excessivamente generoso aceito pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) e homolagado pelo relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, quanto na entrevista à Época. Em nenhum momento na delação, Joesley foi instado a explicar como seu grupo de empresas saiu de Anápolis para se tornar o mais poderoso produtor e comerciante de proteína animal do mundo, sob os auspícios dos desmandos petistas e dinheiro público generosamente emprestado a juros de banana pelo BNDES. Ao contrário, Joesley sempre exaltou o espírito republicano do presidente daquele banco publico quando a natureza também republicana dos poucos encontros que teve com Lula. Diante da possibilidade de bancar o rei Midas e transformar porcaria em ouro, federais, procuradores, o repórter e a revista deixaram Joesley discorrer longamente sobre a chamada Orcrim do PMDB da Câmara, deixando-o proteger, de forma acintosa, os padrinhos que o enriqueceram. Na nota oficial o Planalto lembrou um dado que Joesley não teve de explicar nem aos agentes da lei que o interrogaram nem o repórter e a revista que o entrevistaram. Logo em seus primeiros parágrafos, a nota reza exatamente o seguinte. Vou citá-la: “Em 2005, o Grupo JBS obteve seu primeiro financiamento no BNDES. Dois anos depois, alcançou um faturamento de R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. Relação construída com governos do passado, muito antes que o presidente Michel Temer chegasse ao Palácio do Planalto. Toda essa história de “sucesso” é preservada nos depoimentos e nas entrevistas do senhor Joesley Batista” E também foi muito bem lembrado que “os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo, as conversas realmente comprometedoras com os sicários que o acompanhavam, os grandes téntaculos da organização criminosa que ele ajudou a forjar ficam em segundo plano, estrategicamente protegidos”. Infelizmente, a nota prossegue repisando a mesma lorota de que o presidente não pediu nada, em vez de dar esclarecimentos, até agora negados à opinião pública, sobre o que fazia o delator na calada da noite no palácio público, onde mora a família Temer, nem a natureza nada republicana de sua conversa. Isso é uma coisa que merece ser investigada e todos os nossos ouvintes podem testemunhar que nunca deixei de cobrar isso de Temer e de seus colegas de prosseguimento da gestão da doidinha Dilma Rousseff. Outra coisa é querer nos convencer que os irmãos Batista enriqueceram porque eram gênios do negócio de abate e que Lula foi apenas um patriota ajudando um empresário nacional a criar sua própria multinacional. Outra coisa que me chama a atenção na entrevista e relativiza sua importância como documento jornalístico, é que só um petista é delatado por Joesley Batista. De seus depoimentos e de sua entrevista só o ex-ministro da Fazenda de Lula sai mal: Guido Mantega. Isso é muito estranho em si, mas mais ainda no contexto.

A que contexto você se refere?

Veja bem: tem sido noticiada com muita insistência a possibilidade de outro ex-ministro da Fazenda petista, Antônio Palocci, estar se preparando para negociar uma delação premiada. Mas até agora nada. Nos bastidores comenta-se muito sobre a perspectiva de essa delação trazer à tona as relações ilícitas de parte considerável do PIB brasileiro com o esquema de corrupção da aliança PT e PMDB, com participação ativa da falsa oposição, comandada por Aecinho Neves, que se meteu numa embrulhada e agora se diz numa situação kafkana. Por enquanto, nada disso foi revelado pra valer e de Palocci só ficamos sabendo que ele é um dedo duro asqueroso que tenta transferir toda a responsabilidade de seus malfeitos, como dizia sua ex-chefe Dilma, de quem foi chefe da Casa Civil, para o coleguinha Guido Mantega. O conto da carochinha de Joesley, tanto na delação premiada quanto na entrevista apropriada, é de que tudo de ruim foi feito por Guido Mantega, que, aliás, continua solto. Neste fim de semana, nossa colega colunista do Estadão e da Eldorado, Eliane Cantanhêde, não apenas atentou para este fato como lembrou a semelhança que ele tem com o truque que Lula e os ministros do STF, sob o comando do impoluto Joaquim Barbosa, armaram: o de sair de fininho deixando tudo pra Zé Dirceu responder à Polícia e à Justiça. Eliane lembrou que “nParte inferior do formulárioo mensalão, Lula era o presidente, tudo ocorria no andar do seu gabinete, mas convencionou-se que o “chefe da quadrilha” era José Dirceu. A PGR, o Supremo, o Congresso, a própria oposição e a mídia foram cheias de pruridos diante de Lula, evitando cobrar responsabilidades e explicações do migrante nordestino, maior líder sindical de todos os tempos e presidente com imensa popularidade. A culpa toda recaiu sobre Dirceu”. Quanto a Janot, indicado por Dilma, Fachin, que fez campanha para Dilma e que andou com Ricardo Saud, da JBS, para cima e para baixo nos corredores do Senado para obter a aprovação da Casa para sua indicação por Dilma para o Supremo, posso até entender. Mas o caso da Época é diferente. Afinal, a revista tem feito, sob o comando de quem entrevistou Joesley, Diego Escosteguy, um trabalho competente e revelador, que não deixa brechas, sobre as investigações da Lava Jato, cujo resultado tem sido o desmascaramento progressivo e comprovado do verdadeiro comando dos desgovernos e desmandos durante os quais foi praticado o maior assalto da História. As omissões de Joesley, tratando Lula como pai, e dos principais responsáveis pelo prêmio excessivo da delação da JBS, podem ser entendidas como o pagamento de uma dívida ao padrinho que cobrou em telefonema a Jacques Wagner a ingratidão de Janot, são explicáveis, embora não sejam justificáveis pelos cargos que esses agentes da lei exercem, não para servirem quem os nomeou, mas a República e o contribuinte, que lhes paga os vencimentos. A Época, não.

SONORA De mentira Zeca Baleiro https://www.youtube.com/watch?v=35dDKGYwm0k

 

 

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