No bolso, na pele, no estômago
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No bolso, na pele, no estômago

Todo acusador tem que provar inocência quando acusa petista e toda vítima de crime de petista é sua cúmplice

José Nêumanne

30 Abril 2016 | 18h58

Kátia trata vítima como cúmplice da chefona

Kátia trata vítima como cúmplice da chefona

Sábado 30 de abril de 2016

Os petistas adotam duas atitudes comuns quando na luta política são levados a se defenderem por terem violado a lei. O primeiro deles é que os membros de sua grei são sempre inocentes. Em conseqüência, pois, quem os acusa carrega o pecado original de não pertencer ao Partido dos Trabalhadores (PT) ou a quaisquer outros grupos políticos que lhe prestam vassalagem em troca do pagamento de pixulecos e que tais. Esta é uma herança do comportamento de seus militantes egressos de grupos revolucionários que adotavam a toda prova o pretenso monopólio da decência. Todo militante ou aliado é santo. Todo adversário ou dissidente, um culpado em potencial. Qualquer cânone do partido é uma verdade sagrada e não se admite contraditório algum até mesmo pela realidade.

Por isso, Janaína Paschoal, professora de direito penal da Faculdade da USP no Largo de São Francisco, foi assediada de forma brutal e mal educada por Lindbergh Farias, Vanessa Graziottin, Gleisi Hoffmann e Fátima Bezerra na sessão do Senado em que tentou discorrer sobre seus argumentos favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ninguém se importou o mínimo com o que ela tinha a dizer. Todos queriam apenas desqualificá-la, seja por ter defendido um procurador acusado de ter batido na mulher, seja porque alguém pode ter dito em algum momento, não se sabe quando nem onde, que ela talvez fosse filiada ao PSDB.  Acusada de ter cometido tais delitos pela Corregedoria da Injustiça Petralha, a professora teria de calar e, mais, se restringir a dar aulas, única atividade que a patrulha do PT permitiria à pecadora, para quem nñao há perdão possível, como foi decretado pela sentença sem recursos da lavra da comissária do povo Fátima Bezerra.

O código de bons modos petralhas também são bastante heterodoxos, para dizer o mínimo. A senadora Simone Tebet fez um comovido desabafo, ao inquirir o advogado geral da União. Ela reclamou de ser taxada de golpista, sem nunca ter conspirado uma vez sequer na vida contra a lei. A lei, ora a lei, dizem os petistas treinados em acampamentos e aparelhos nos quais a velha ordem jurídica burguesa é apenas um empecilho para que venham a alcançar o poder de mandar inimigos impenitentes pra Sibéria.

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, é egressa de um dos grupos sociais mais truculentos da direita brasileira, a chamada bancada ruralista. Uma inexplicável afinidade eletiva jogou-a no colo do poder do matriarcado republicano tupiniquim. E ela, naquela mesma sessão, chegou ás lágrimas ao superar os atuais aliados dilmistas na lei mais cruel do Código Penal Populista, aquela em que toda vítima sempre se torna cúmplice, de maneira a ser forçada a perdoar o delito de seu algoz. Este é o segundo comportamento a que aludi no início deste texto. O momento mágico dessa profissão de fé foi quando ela disse, com a mais comovida convicção, de que é capaz com sabedoria adquirida em currais contando reses: “Quem nunca atrasou o pagamento de uma conta?”. A lógica é a seguinte: o sujeito que não paga a conta da mercearia porque as cagadas dilmísticas atiraram seu emprego no lixo é tão culpado quanto a responsável por esse crime e também pelo atraso de 11 meses sem pagar R$ 72 bilhões tomados ilegalmente de bancos públicos. O cara perde o emprego e o poder de compra que lhe era dado pelo salário e, aí, é comparado com a governanta burra, que quebrou o País, gerou a crise e é equiparada à deusa Ceres, tendo a ela sido atribuída pela devota cega de fé, o desempenho do agronegócio brasileiro que sustenta o País com sua produtiva eficiência desde os idos imemoriais dos senhores de engenho, dos barões do café e dos plantadores de soja no cerrado. Antes que me esqueça: como eu, milhões de brasileiros nunca atrasaram o pagamento de uma prestação. Sabe por que, madama? Porque pobre que não paga conta perde o crédito. Ninguém precisa ter uma vaca no quintal pra saber o valor da proteína que a carne dela tem, sabia, Kátia? O problema de sua argumentação estúpida, senhora, é que qualquer favelado ou camponês analfabeto sente no bolso, no estômago e na pele o valor que tem uma ficha limpa no SPC. Sabe lá o que é isso, zifia?

Jornalista, poeta e escritor

(Diário do Nêumanne, Blog do Estadão)