Não está fácil pra ninguém
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Não está fácil pra ninguém

Troca de comando de assaltantes do erário desmoraliza democracia

José Nêumanne

25 Setembro 2017 | 18h33

Câmara vazia para votar denúncia contra Temer: desinteresse por interesse Foto: Antônio Araújo/Agência Tempo

Em 13 de fevereiro último, o presidente Temer anunciou à Nação que afastaria temporariamente ministros denunciados por corrupção na Lava Jato. “Se houver denúncia, que é um conjunto de provas, eventualmente que possam conduzir ao seu acolhimento, o ministro que estiver denunciado será afastado provisoriamente. Logo depois, se acolhida a denúncia, e aí o ministro se transformando em réu, o afastamento é definido”, disse o presidente. E completou: “Se alguém converter-se em réu estará afastado, independentemente do julgamento final”. Até agora não contou por que mantém Moreira Franco e Eliseu Padilha em seus cargos, mesmo tendo sido denunciados.

Três meses e cinco dias depois da promessa, os queixos de mais de 200 milhões de brasileiros literalmente desabaram com a revelação feita pelo colunista Lauro Jardim, do Globo, de que o chefe do governo havia recebido o acusado Joesley Batista para um papo íntimo no porão. Quatro meses e uma semana depois, nenhum dos brasileiros surpreendidos recebeu satisfação alguma, convincente ou não, verossímil ou fantasiosa, para o fato. Temer não explicou por que recebeu um delinquente notório (cuja ficha ele mesmo faria questão de divulgar) na calada da noite, na garagem do próprio público onde mora com a mulher e o filho, para discutir assuntos nada ingênuos, como a compra de silêncio de um presidiário e propinas pagas a insignes servidores públicos do Judiciário.

Do ponto de vista da lógica comum dos fatos, além de não justificar ou se desculpar por nada, o mais poderoso dos chefões da República concentrou suas energias para desqualificar o ex-cúmplice tornado oponente, o que, pela lógica, só complicaria a própria situação. Para isso, agarrou-se a particularidades da ordem constitucional vigente no País, conforme a qual o principal mandatário só pode ser processado por quaisquer delitos que cometa antes e depois de haver exercido o cargo. Então, usou sua habilidade de fazer amigos e exercer influência na Câmara, que decidiu mantê-lo no posto, sendo a maioria dos deputados (portanto, ex-colegas) tão ou mais suspeita do que ele e seus auxiliares próximos. Ele não foi golpista quando se beneficiou do impeachment da antecessora, que encabeçou a chapa pela qual foi eleito. Nem é ilegítimo na função que era dela e ele agora ocupa, embora tenha sido denunciado pelo procurador-geral da República por delitos que não são perdoados a um reles punguista ou a um magnata de obras públicas arranjadas por gorjetas dadas a hierarcas da administração do Estado.

Os que berram “Fora Temer” na plateia do Rock in Rio, nas reuniões de artistas que se consideram deserdados dos tempos da tripa forra com o erário no Ministério da Cultura ou nos churrasquinhos de laje devorados na Mesa do Senado, em sua quase totalidade, são os principais responsáveis por sua presença no cargo do qual o querem desalojar. Eles o sufragaram em troca da vitória nas urnas do cérebro menos dotado de nossa politica em todos os tempos. Os índices de pesquisas de opinião pública que o isolam no inferno da impopularidade quase absoluta em nada alteram sua vida. Nem a nossa.

O Barômetro Político, pesquisa mensal do Instituto Ipsos, calculou o desapreço por sua pessoa (que nunca primou pela simpatia), por sua equipe (que não é um modelo de ética) e por seu governo (valhacouto de medíocres sem credibilidade) em 94%. Isso não indica que os pesquisados estejam dispostos a marchar por seu afastamento. Não devemos nos espantar com isso. A ressaca de 2013 também não impediu o triunfo da chapa de Dilma, da qual ele era o segundo, na eleição no ano imediato. A vitória nas urnas foi comprada, conforme atestam fartas provas queimadas na fogueira de vaidades de ministros do Tribunal Superior Eleitoral, executando o réquiem de sua justiça especial sob a batuta de Gilmar Mendes, ministro da mais suprema, mas não a mais supimpa das Cortes.

Num espasmo de otimismo, impróprio em análise séria da nojeira que é a prática política no Brasil de hoje, muito maior do que a que já era comum em tempos que pareciam mais sombrios, pode-se conjeturar que o povo na rua não derrotou Dilma e Temer na urna. Mas expeliu-a do poder num impeachment que deixou imenso passivo. Se, ainda assim, se aceitar uma conexão qualquer entre as manifestações de 2013 e a deposição de 2016, será para constatar que o pesadelo do maior escândalo de corrupção da História não acabou. Pois apenas foram trocados os mandachuvas. E a desmobilização de hoje é claramente justificável. Ir às ruad pra quê? Pra trocar os dólares na cueca do assessor do deputado José Guimarães por milhões de reais de Geddel Vieira Lima fotografados no apartamento de um laranja? Ora, convenhamos, uma falcatrua oculta de Vaccari e Palocci não justifica anistiar a corrida na porta da pizzaria, piada pronta da metáfora concretizada, mantendo a mochila, mas trocando o portador. Seria contar demais com a proclamada bestialidade do cidadão comum, escorchado, sim, mas não escrachado a esse ponto.

A caradura de Carlos Marun, Beto Mansur e Darcísio Perondi não foi rígida a ponto de livrar o chefinho Cunha e sua deslumbrada consorte de risco de sofrerem incômodos da carceragem do inferno prisional em que as concorrências e a honra dos homens públicos têm idêntico desvalor. Mas mais do que bastam para garantir a permanência de dom Michel no poder. Palmas para eles, pois! Só que até o cinismo no grau praticado por essa escumalha de raposas, que nunca se fartam de fígado gordo de ganso, é insuficiente para evitar as consequências nefastas de sua desfaçatez.

Há quem comemore a queda do recente índice de rejeição do presidente do conselho deliberativo do assalto inicial aos cofres da viúva, Lula da Silva, na citada pesquisa do Instituto Ipsos. Ela seria um feito que demonstraria a imunidade do multirréu perante o cidadão comum. Essa gente carece de umas aulinhas de aritmética. Entre os enxovalhados da pesquisa, o chefão do mensalão e do petrolão é aquinhoado com 59% dos que nunca votariam nele de jeito e maneira. A curva descendente registra também a curva decadente: o número arrefece o ânimo de quem sonha vê-lo de volta ao trono. O consolo que eles podem ter é que o clube dos reis da rejeição tem sócios tão ilustres como o mais visado de todos. O campeão, inalcançável, é dom Michel, o Único, com 94%. Mas há quem chegue perto: caso de Aécio Neves, o príncipe das Gerais, com seus significativos 89%. Mas o sujeito ainda conspira para ser candidato. Não desiste nem correndo o risco de repetir o vexame do dr. Ulysses Guimarães em 1989, na eleição que consagrou o carcará sanguinolento da Alagoas dos marechais, agora de volta á berlinda nà cloaca geral brasileira.

Outros aspirantes ao pódio têm a matemática do segundo turno como adversária fatal. O anestesista Geraldo Alckmin, picolé de chuchu cada vez mais aguado e pretendente confesso, tem 75%. Henrique Meirelles, a esperança branca do chamado mercado, bateu em 66%. Ciro Gomes, salvação da lavoura dos deserdados do lulismo, ostenta 64%. Jair “Boçalnaro”, comemorado nas redes sociais em que batem caixa os nostálgicos da tortura e da corrupção escondidas da ditadura fardada, 63%,  Marina da Selva, que só deixa o seringal na boa, não baixa de 60%. Mesmo João Doria, favorito dos coxinhas dos Jardins e adjacências, figura com 58%. Dos citados escapou o juiz aposentado Joaquim Barbosa, com 41%, num empate técnico com a aprovação de 38%. Sergio Moro, juiz em atividade (e que atividade!), já não desperta os suspiros de antanho, embora a desaprovação que o atinge (45%) seja inferior à metade e superior ao aplauso, manifestado em 48%, num caso em que a unanimidade nacional murchou para uma posição de maioria apertada, mas ainda manifestada.

Pois é, minha gente, a vida no Brasil de hoje não está fácil pra ninguém. Motivos para comemorar devem ter os negociantes de drogas da Rocinha, que dão calor à tropa verde-oliva como antes o conseguiu o jovem Solano López. Resta agora convocar argentinos e chilenos para, em nova Tríplice Aliança, expulsar as tropas de Nem e seus asseclas do território nacional ocupado pela indústria do crime explícito e rastaquera.

  • Jornalista, poeta e escritor