Herói tratado como um vilão
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Herói tratado como um vilão

Em “Guerra fria e política editorial”, a historiadora Laura de Oliveira retrata o editor Gumercindo Rocha Dórea como vassalo dos interesses ianques no Brasil

José Nêumanne

03 Setembro 2017 | 06h00

Editor. Gumercindo Rocha Dórea, fundador da editora GRD,  está com 93 anos. Foto: Felipe Rau/Estadão

Como qualquer gênero literário, a ficção científica apresenta aos leitores obras de baixa qualidade ou de esplêndida feitura. Por falta de espaço para elaborar uma lista dos piores livros da modalidade, o autor pede vênia ao leitor para ser dispensado de listá-los. É preferível, para quem escreve e para quem lê, elencar textos que alcançaram o estágio do sublime e que serviram de base para anarrativas de alta magnificência em outras artes. É o caso de 2001 – Uma odisseia no espaço, do britânico Arthur C. Clarke. Dele foi extraído o clássico de cinematografia com o mesmo título, dirigido pelo americano Stanley Kubrick. É antológica a cena do primata jogando um osso no espaço com o corte da edição permitindo que o espectador o veja transformar-se numa nave sideral.

Um livro britânico e um filme ianque. Será a ficção científica uma exclusividade dos vencedores da Guerra de Secessão? Que dizer de Solaris? Nada poderia ser tão pouco imperialista como uma obra dirigida pelo soviético Andrei Tarkovski no tempo em que a União Soviética ainda existia. E mais: a fita é baseada no romance do polonês Stanislaw Lem, no qual também, diga-se de passagem, baseou-se o gringo Steven Sorderbergh, sulista de Atlanta, para produzir sua própria versão em cinema – exemplo do alcance planetário e extra-ideológico do gênero.

O autor destas linhas é de uma geração de brasileiros privilegiados que conheceram a modalidade multinacional sem ter de aprender russo para ler Cem anos à frente, novela de Kir Bolitchov (1978), e assim conhecer a descrição avant la lettre do corriqueiro celular de nossos dias. Ou fruir em inglês corrente a magnífica prosa de Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. O baiano Gumercindo Rocha Dórea criou uma editora, a GRD, que lançou em português romances, novelas e contos que inspiraram a fundação de clubes de ficção científica pelo País inteiro, permitindo a patrícios monoglotas conhecerem o gênio de Isaac Asimov. Assim como livros proibidos de dissidentes do regime stalinista, como o celebrado Nós, de Ieuguêni Zemiatin. De lambujem, lançou prosadores na língua pátria da estirpe de Fausto Cunha, autor de As Noites Marcianas, Gerardo Mello Mourão, Rubem Fonseca e Nelida Piñon, que dispensam apresentações.


Por causa disso e de muito mais, Dórea sempre foi tratado como herói por cultores do gênero, caso de Bráulio Tavares, meu conterrâneo e contemporâneo de adolescência em Campina Grande, e Ataíde Tartari, paulistano. A historiadora Laura de Oliveira, premiada por sua tese sobre Guerra Fria e Política Editorial, detentora de láureas de saber acadêmico, com texto recentemente lançado em livro pela Universidade Estadual de Maringá, contudo, resolveu reescrever a história, ao feitio stalinista, que Zamiatin denunciou, atribuindo à ficção científica a sórdida condição de mera propaganda imperialista dos EUA e reservando a Dórea o papel de reles vassalo dos interesses da dominação ianque sobre o Brasil na metade do século 20, a soldo do ouro do Forte Knox. Tudo isso porque Dórea nunca escondeu sua condição de integralista, corrente política de inspiração fascista que teve importância na cena política dos anos 30 aos 60, abraçada por políticos e intelectuais como Dom Helder Câmara, San Thiago Dantas e Miguel Reale. Mas dela hoje só restam vagarosas lembranças, como o equivocado ideário autoritário de Plínio Salgado, autor de uma brilhante Vida de Cristo.

A capa do livro não deixa dúvidas quanto a suas intenções e distorções: Tio Sam, de casaca e calça listrada, senta-se no ombro do jovem editor, certamente soprando palavras de ordem para emitir doses fatais de veneno colonialista com o fito de escravizar nossa doce pátria espoliada. Se a capa é grotesca, o texto da autora é pior. Isso deixa a impressão de que a acadêmica foi movida pela intuição de que jamais a própria obra de vulgarização do marxismo-leninismo teria sido publicada por Dórea. Seja por professar ela ideologia antagônica à dele, seja por não ter o texto dela a qualidade exigida por ele na seleção dos originais a serem postos à venda.

Pela leitura do tatibitate menos do que sofrível texto a que a autora expõe o leitor e pelos deslizes editoriais que a tornam uma missão quase impossível, de tão espinhosa (a revisão deixou passar linhas repetidas em algumas páginas), a obra termina por fazer propaganda de Dórea, embora em nenhum momento lhe faça justiça.

  • Jornalista, poeta e escritor