É tudo crime, viu?
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É tudo crime, viu?

Fingindo apostar no combate à violência Temer quer criar clima político para amenizar combate à corrupção

José Nêumanne

19 Fevereiro 2018 | 16h06

Temer, com Crivella e Pezão no Rio tentando fechar a porta depois de arrombada Foto: Leo Correa (AP)

Combater o crime organizado e afrouxar o combate à corrupção da gestão pública, como Temer tenta fazer inventando Ministério da Segurança Pública, têm objetivos que conflitam e se excluem. Não se consegue restringir a ação de traficantes das comunidades periférias para reduzir a violência urbana se, ao mesmo tempo, se tenta garantir a impunidade dos gatunos dos gabinetes políticos, como no caso do chamado quadrilhão do MDB, que se divide entre os que estão presos, mas até agora nada revelaram de relevante aos investigadores Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima e os que mandam e desmandam no Palácio do Planalto, o próprio Temer, Moreira e Padilha, além de congressistas, como Lúcio Vieira Lima. Não me engana que não gosto.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 19 de fevereiro de 2018, às 7h30m)

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Para ouvir o samba enredo da Paraíso do Tuiuti clique aqui

Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 19 de fevereiro de 2018 Segunda-feira

Haisem Em evento no Rio ontem, o presidente Michel Temer anunciou a criação do Ministério da Segurança Pública. Que conseqüências práticas isso trará no combate à violência no Brasil?

Vamos começar ouvindo o que Temer tem a dizer:

SONORA_RIO 1902 TEMER

A bem da verdade verdadeira, o primeiro objetivo de Temer ao criar o ministério novo é esvaziar o Ministério da Justiça, pois terá no seu guarda-chuva a Polícia Federal. Com o anúncio, ele espera resolver a crise que ele mesmo criou ao colocar na PF um delegado para abafar o inquérito do Porto de Santos que pode trazer novas complicações para ele e seus lugares tenentes Padilha e Moreira Franco. O desastrado-geral da PF, Fernando Por qué no te callas? Segovia está sendo acusado de interferências e, com isso, criado transtornos para o chefe, mas ele não fez mais do que o que Temer lhe pediu. Tanto que já circula a informação que o governo prepara uma nova mudança transformando o emprego dele em mandato de três anos, empurrando goela abaixo do próximo presidente, eleito pelo povo e, portanto, sem discussão de legitimidade, esse estafermo puxa-saco que só quer saber de adular o chefe. Além do mais, Temer quer vender à sociedade a ilusão de que combaterá o crime organizado e trará segurança e paz às ruas do Rio de Janeiro e, consequentemente do Brasil.

São dois objetivos que se excluem. Não se combate o crime organizado se se garante a impunidade dos corruptos de colarinho branco do chamado quadrilhão do MDB, que se divide entre os que estão presos, mas até agora nada revelaram de relevante aos investigadores Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima e os que mandam e desmandam no Palácio do Planalto, o próprio Temer, Moreira e Padilha, além dos congressistas, como Lúcio Vieira Lima. Não me engana que não gosto.

A MP precisa ser votada no Congresso, que pode vetar ou não a criação da pasta.  Mas a partir do momento em que for editada tem vigência imediata. Segundo Andreza Matais, da Coluna do Estadão, a nova pasta não é unanimidade entre lideranças do Congresso. Esta, por enquanto, é nossa única esperança de que não se perca o juízo de vez se tratando de um assunto tão grave como é a vida dos cidadãos honestos e trabalhadores.

Já tivemos de engolir uma intervenção meia boca feita pelo general Braga, que não quer tomar conhecimento da delicadeza da missão, ao declarar que não há problema de insegurança no Rio, que é invenção da mídia, e mantém a quadrilha do Sérgio Cabral no poder na pessoa do ainda governador, embora pela metade, Luiz Antônio Pezão.

Carolina Mas não há nada de positivo, a seu ver, na decretação da intervenção federal na segurança do Rio?

Peço licença para ler o primeiro parágrafo do editorial do Estadão de anteontem, Uma intervenção injustificável, porque neste texto está  resumida, como eu não seria capaz de fazê-lo, minha opinião a respeito:

Não há razão objetiva que justifique a intervenção federal, restrita à segurança pública do Rio de Janeiro, decretada pelo presidente Michel Temer. A situação daquele Estado no que diz respeito ao crime organizado e à violência urbana não se tornou calamitosa de um dia para o outro, a ponto de demandar uma medida tão drástica exatamente agora, a poucos dias da esperada votação da reforma da Previdência, que, por força de determinação constitucional, não poderá ser realizada em razão da intervenção. Temer garante que os efeitos do decreto serão suspensos apenas para a votação, mas essa manobra certamente receberá inúmeras contestações judiciais e são imensas as possibilidades de o feitiço voltar-se contra o feiticeiro. E o último fecha com chave de ouro^: O fato é que, ao explorar um dos temas mais caros aos brasileiros – a segurança pública – e ao adotar um tom de comício na assinatura do decreto, dizendo que “nossos presídios não serão mais escritórios de bandidos nem nossas praças serão salões de festa do crime organizado”, o presidente dá margem a que se desconfie que, em ano eleitoral, o governante que pretendia ser reconhecido como reformista deixou-se seduzir por um atalho sombreado.

Haisem Será que a rebelião no presídio na Baixada Fluminense seria o primeiro recado do crime organizado reagindo à intervenção?

De fato, terminou no início desta madrugada o motim na Penitenciária Milton Dias Moreira, em Japeri, na Baixada Fluminense. A rebelião deixou pelo menos três presos feridos. Ao todo, 18 pessoas haviam ficado sob domínio dos detentos – oito agentes penitenciários e dez internos. Um revólver, duas pistolas, uma granada de efeito moral e uma lanterna foram apreendidos. Segundo a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), os feridos foram atendidos por ambulâncias da Defesa Civil e não correm risco de morte.

O motim aconteceu dois dias após a decretação da intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio. Mais cedo, a Seap havia informado que “medidas de controle” das penitenciárias foram antecipadas por causa da intervenção federal. Conforme a secretaria, a rebelião começou “logo após” inspetores de segurança e administração penitenciária frustrarem, ainda de tarde, uma tentativa de fuga de internos na penitenciária.

Antes de estourar a rebelião na Penitenciária Milton Dias Moreira, a Seap havia explicado que as “medidas de controle” foram antecipadas “na intenção de evitar qualquer reação da população carcerária” à intervenção federal. Questionada, a assessoria de imprensa da Seap não explicou quais seriam as “medidas de controle”, mas informou que as ações estavam sendo planejadas antes do decreto de intervenção federal, publicado na última sexta-feira. Ainda não dá para saber se é uma ameaça do crime organizado, mas o certo é que é impossível combater o crime organizado sem apoiar a devassa que a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e alguns juízes de primeira instância fazem contra os gestores públicos que mandam nos policiais corruptos que impedem o controle da violência no Brasil todo.

Carolina Só que neste fim de semana o PCC sofreu um golpe com a morte de seus dois principais líderes fora da cadeia, não acha?

Realmente, Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, foram assassinados numa suposta emboscada em um território indígena em Aquiraz, a 30 quilômetros de Fortaleza. As vítimas eram apontadas como as mais fortes lideranças soltas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e uma rixa interna na facção é o que pode ter motivado as mortes. E, para ser fiel, a seu novo papel de xerife da República, Temer determinou o envio de uma força-tarefa ao Ceará para atuar nas ações de combate ao crime organizado. Vamos ouvir o que o enfrquecido e escanteado ministro da Justiça, Torquato, tem a dizer?

SONORA_TORQUATO

Deve ser mera coincidência, mas o fato é que a morte de Gegê lembra outro aspecto da fragilidade do Estado brasileiro no combate ao crime. O bandidão do PCC foi liberado pela Justiça dois dias antes de ir a júri naquelas decisões que ministros do Supremo como Gilmar Mendes e Marco Aurélio Melo costumam presentear chefões do crime de colarinho branco e do crime organizado. Quero lembrar que o Supremo está prestes a julgar, o que já é um absurdo, pois ainda está sendo julgado no STJ o habeas corpus do criminoso condenado por corrupção e lavagem de dinheiro Luiz Inácio Lula da Silva com grandes possibilidades de vir a conceder. Como se pode combater o crime com decisões como essa?

Haisem A explosão da criminalidade nos últimos anos levou os Correios a suspender a entrega de produtos em quase metade do Rio de Janeiro, segundo revela em manchete a Folha de S.Paulo hoje. Isso não reforça a necessidade de se combater a violência pra valer?

É, você tem razão. Dos 27.616 endereços da cidade, há algum tipo de restrição em 12.037 deles, o que equivale a 43,6% do total.

Em mais da metade deles (6.469), a entrega só ocorre com o uso de aparato especial de segurança, como escolta armada, o que obrigatoriamente provoca a ampliação dos prazos para recebimento de produtos. No restante dos casos (5.568), porém, a distribuição não ocorre de forma nenhuma os clientes precisam buscar a encomenda em uma unidade dos Correios.

Esta notícia dá uma boa ideia de como a violência prejudica a vida do cidadão honesto, que paga impostos, escolhe seus governantes e fica sempre ao deus-dará, ou seja, ao diabo que os carregue. E aponta para a necessidade de estes tratarem esse assunto com a seriedade devida.

Carolina Aclamado pelo público por apresentar um enredo crítico ao presidente Michel Temer (MDB), o Paraíso do Tuiuti, vice-campeão do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, voltou ao sambódromo do Rio na madrugada deste domingo, 18, para o desfile das campeãs sem um dos principais elementos do desfile oficial: o destaque do último carro alegórico, que na madrugada de segunda-feira, 12, havia desfilado vestido de vampiro e usando a cópia de uma faixa presidencial, numa referência a Temer, trocou esse adereço por uma gravata verde e amarela. A escola informou que o professor Léo Morais, que encarnava o “vampiro presidente”, perdeu a faixa presidencial ao final do primeiro desfile e não confeccionou outra. Dá para acreditar nessa desculpa?

Durante a exibição deste domingo, outra crítica a Temer foi retirada. Sobre o mesmo carro alegórico em que o “vampiro presidente” era o destaque principal, numa lateral o auxiliar administrativo Sérgio Lopes, de 38 anos, desfilava vestindo uma cópia de camisa da seleção brasileira e batendo panela, numa referência irônica aos manifestantes que entre 2013 e 2016 promoveram panelaços em prol do impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). Dentro da frigideira, Lopes havia colado um papel onde se lia “Fora, Temer”. Ele ingressou na avenida assim, mas só conseguiu percorrer aproximadamente metade da pista exibindo a frigideira com essa mensagem. Ao notar o protesto, que um repórter fotográfico se preparava para registrar, um dos responsáveis pela alegoria arrancou o papel, gerando reclamações do jornalista. Questionado, o responsável pela alegoria afirmou que “manifestações desse tipo são proibidas”.

Fico perplexo com a possibilidade de o presidente da República não admitir críticas e ironias do gênero e pressionar, seja de que for, para que sejam retiradas de um desfile de escola de samba. Dizem que Getúlio Vargas, no Estado Novo, ria das piadas do teatro de revista a respeito. A atitude de Temer, se é que foi dele, impede que críticos como eu sintam falta, como senti, de referências ao maior escândalo de corrupção da História, o petrolão do PT. Ironizar cidadãos que batiam panela manifestando a opinião deles sobre esse escândalo é uma tolice, mas o sumiço da faixa do vampiro resulta de truculência inaceitável.

SONORA Samba enredo da Paraíso do Tuiuti