Cafuçus de carnaval
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Cafuçus de carnaval

Trêfegos delegado, ministro e deputada são candidatos a grosseirões do tríduo momesco

José Nêumanne

12 Fevereiro 2018 | 16h56

Já na posse, Segóvia deixou claro que sua missão era salvar Temer Foto: Dida Sampaio/Estadão

É tradição da cultura popular brasileira que no Sábado de Aleluia figuras públicas que não gozam propriamente da simpatia popular sejam retratadas em bonecos e penduradas em postes tornados forcas,simbolizando o apóstolo Judas, que traiu Jesus por 30 moedas. Mas isso fica para a Quaresma. Estamos em pleno carnaval, que antecede a Semana Santa, e a figura que sintetiza o reinado da alegria e da efusão que antecipa o luto quaresmeiro agora é o próspero, gordo e bonachão Rei Momo. Deste blog proponho que, nesta época de crise e mesa magra, nós, cidadãos dos blocos e dos sofás no carnaval, sigamos o exemplo da Estação Primeira de Mangueira, que espinafrou o prefeito inimigo da folia no Rio, Marcelo Crivella, e elejamos o(s) cafuçu(s) que abra(m) caminho para os “enforcados” da véspera do Domingo de Páscoa.

Em sua página 364, o Dicionário Aurélio(3.ª Ed.) registra que cafuçu é um substantivo comum masculino com o qual os nordestinos, como o autor destas linhas, definem o diabo e usado em outras partes do Brasil para desqualificar indivíduo grosseiro, inábil. A última definição do verbete contempla um significado especificamente goiano, um roceiro asselvajado. Não passa de mera coincidência, mas o suficiente para “indicar” (como registraria a notícia corrigida pela agência alemã Reuters, até antes disso considerada fonte confiável de informação por leitores de notícias) o primeiro “indicado” (idem) para ocupar o trono da, apelando para o neologismo, “cafucice” militante, o natural do Estado onde nasceram irmãos Batista, marchantes de Anápolis, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Não se trata de nenhum deles, mas de alguém que assoma agora ao protagonismo do noticiário: o delegado federal Fernando Segóvia, nomeado por Temer para ocupar a Diretoria-Geral da Polícia Federal (PF) no momento em que a instituição do Estado ainda goza de enorme simpatia popular por sua participação nas investigações de corrupção da Operação Lava Jato e congêneres.

Não que nosso primeiro “indicado” para cafuçu do carnaval seja noviço (e certamente nocivo). Já há um tempo ele tem merecido destaque por uma das condições para personalizar a figura, a de se comportar como um macaco em loja de fina porcelana. Segóvia destacou-se a ponto de ser nomeado chefão de sua grei por ter passado pelo Maranhão e nada ter percebido de errado nas estripulias políticas do clã Sarney. E de São Luís saiu tão amigo da famiglia que foi designado pelo soba para ocupar o relevante posto na administração policial brasileira num momento em que quem o nomeou era objeto de várias investigações da instituição. E é…


Na posse na Diretoria-Geral da PF, o ex-adido na Embaixada brasileira na África do Sul, de onde dificilmente terá adquirido notório conhecimento técnico sobre atividades policiais, Segóvia chamou a atenção por haver declarado o seguinte: “A gente acredita que, se fosse sob a égide da Polícia Federal, essa investigação teria de durar mais tempo, porque uma única mala talvez não desse toda a materialidade criminosa que a gente necessitaria para resolver se havia ou não crime, quem seriam os partícipes e se haveria ou não corrupção. É um ponto de interrogação que fica hoje no imaginário popular brasileiro e que poderia ser respondido se a investigação tivesse mais tempo”. Quem tentar depositar R$ 10 mil, 50 vezes menos, num banco logo perceberá que o diretor-geral da PF não conhece a legislação financeira como deveria, pois se exige do cidadão que comprove a origem da quantia, o que até agora a instituição que ele assumiu não logrou informar ao distinto público pagante sobre a mala.

O leitor atento sentirá na prosódia do diretor certa familiaridade. Afinal, quem se consagrou nesse tipo de retórica tosca foi a ex-presidente Dilma Rousseff. Mas, pior do que o vernáculo chinfrim, o que mais caracteriza sua assertiva é a completa caradura de tentar com essa afirmação torpe dissociar o presidente que o nomeou de Rocha Loures, ex-assessor filmado correndo com a mala de dinheiro que recebeu do delator Ricardo Saud, da empresa dos irmãos Batista. Talvez ele pudesse ter poupado o distinto público de haver tomado conhecimento de que a PF agora não se encontra em tão distintas mãos. O autor destas linhas acha por bem lembrar a frase com que o ex-rei da Espanha Juan Carlos silenciou o tiranete venezuelano Hugo Chávez numa reunião em Santiago: “Por qué no te callas?”. Bem que Segóvia sempre tem merecido a alcunha em castelhano. Mas nunca ela vem tão a calhar quanto neste tríduo momesco, em que São Paulo deixa de ser túmulo do samba (apud Vinicius de Moraes) para levar à 23 de Maio uma multidão de humilhar a Marquês de Sapucaí e a rota do centenário Cordão do Bola Preta, no Rio.

Nestes dias de folia, o diretor-geral da PF passou um atestado ainda mais explícito de que não está no cargo para investigar nada, mas apenas para interpretar a lei penal de acordo com as ordens que recebe de quem o nomeou. O colega Leonel Rocha registrou na Coluna do Estadão que a Reuters informou que “Segóvia afirmou na sexta a respeito do inquérito sobre corrupção no porto de Santos, na qual Michel Temer é investigado: ‘Até agora não apareceu absolutamente nada que desse base de ter uma corrupção (sic) … então assim os indícios são muito frágeis, na realidade, de que haja ou que houve algum tipo de influência realmente porque em tese o decreto não foi feito para beneficiar aquela empresa’”. Críticos intransigentes diriam que ele agiu como um “baba ovo” do chefão.  Mas talvez até o delegado desastrado apreciasse esse caridoso eufemismo, pois age mesmo é como gari encarregado de jogar o lixo sob o tapete.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, relator das apurações policiais no Porto de Santos, por exemplo, encrespou-se. “Tendo em vista que tal conduta, se confirmada, é manifestamente imprópria e pode, em tese, caracterizar infração administrativa e até mesmo penal”, intimou o trêfego federal a prestar contas da frase, em nada atenuada pela galhofa a que se submeteu a Reuters ao substituir na edição definitiva o verbo afirmar por indicar. A ausência da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, na polêmica nos dias em que ela explodiu, pôs o ministro na condição de voz isolada da razão nesse episódio grotesco em que Fernando “Por qué no te callas?” Segóvia chegou ao desplante de ameaçar o subordinado encarregado do inquérito, seu colega Cleyber Matta Lopes, só porque o amado e sensível chefinho Temer não gostou do tom das 50 perguntas que lhe coube fazer ao próprio.

Do lado oposto, o solícito secretário de Governo de Temer registrou nas redes sociais, a seu estilo sub-Trump: “Já assisti dezenas (sic), talvez até centenas de entrevistas de delegados, de promotores a respeito de inquéritos em andamento. Por isso até estranho essa celeuma que se estabelece no momento em que o diretor-geral da Polícia Federal verbaliza o óbvio: que num inquérito aonde (sic) não existem provas, não existem indícios, que não existe sequer a materialização do ato ilícito, tenha a tendência de ser arquivado”. Os brasileiros ainda não entenderam como ele teve acesso tão minucioso a um processo mantido sob sigilo de Justiça.

Assim, ele repetiu a defesa de valentão de circo com que tentou justificar a polêmica judicial causada pela filha do ex-presidiário Roberto Jefferson, a deputada Cristiane Brasil (nunca um sobrenome terá sido usado de forma tão vã como neste caso), condenada em processo trabalhista e “indicada” para o Ministério do Trabalho neste ano em que caberá à dita pasta o único desafio que restará ao governo depois do pranto anunciado pela derrota na reforma da Previdência: o desemprego. O cafuçu de Mato Grosso do Sul absolveu a colega carioca de ter passado recado (também ao estilo Dilma) cercada de cavalheiros de torso nu numa lancha al mare, porque ele mesmo não freqüenta praia de terno. Não é fofo? E mais: atribuiu a resistência da Justiça a manter suspensa a posse da trêfega infratora da Consolidação das Leis do Trabalho a “ativismo político”.

Como dificilmente Segóvia será demitido e novas patacoadas dele serão evitadas por ordem de Barroso, assim como a novela da sra. PTB poderá ficar no ar sob as bênçãos de Marun, ainda que ele não cumpra sua missão de “seu ministério pela minha reforma”, talvez tenhamos mesmo de “enforcar” os bonecos de Judas desses três cafuçus na Semana Santa.

  • Jornalista, poeta e escritor