Autoridade ausente
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Autoridade ausente

Estado brasileiro nem se solidariza com vítimas de tragédias que produz

José Nêumanne

19 Março 2018 | 18h29

Enquanto Exército tenta fazer de Vila Kennedy modelo para a intervenção, violência espalha-se pelo Rio. Foto: Ellian Lustosa/Código 19

Foi noticiado que o presidente Michel Temer iria ao Rio no domingo 18 de março para celebrar o primeiro mês da meia intervenção militar, dita federal, na segurança pública do Rio de Janeiro. Mas ele não demorou muito para desmarcar a viagem e ficou em Brasília. Esse é o maior símbolo da ausência decretada pelas autoridades brasileiras ao momentoso episódio político causado pela execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, na noite da quarta 14. Se nada havia a comemorar, muito havia – e ainda há –  a lamentar. Inclusive a ausência da autoridade.

A meia intervenção no Rio é uma tragédia de erros e se perde na noite dos séculos quando nos é dado analisar a evidência de que o princípio da ocupação da periferia e a transformação da antiga Cidade Maravilhosa no inferno a céu aberto tem a participação decisiva do Estado. Lembro-me bem, pois morava no Rio à ocasião, quando tudo se agravou. E digo que se agravou porque já então era notória a conivência de ex-governadores, como o famigerado Chagas Freitas e Marcelo Alencar, chamado de Velho Barreiro, com o jogo do bicho, disfarçado de contravenção penal. Leonel Brizola encontrou o pretexto politicamente correto para justificar o acobertamento dos bandidos que lhe serviam de cabos eleitorais: “Polícia minha não sobe em morro para bater no povo”, dizia o socialista moreno.

Como houve também uma série de crimes de colarinho-branco, a Operação Lava Jato, que acaba de completar quatro anos de existência, desmascarou uma quadrilha no Estado do Rio, com penetração nos três Poderes. Seu chefe, o ex-governador Sérgio Cabral, já foi condenado a mais de 100 anos de cadeia e, no andar atual da carruagem, deve chegar a 300. Seus três mais notórios aliados na Assembleia Legislativa – Jorge Picciani, Paulo Mello e Edson Albertassi – estão presos e a Justiça os mantém  na prisão para evitar que prejudiquem as investigações. Só uma conselheira do Tribunal de Contas do Estado escapou de vexaminosas prisões ou conduções coercitivas na Polícia Federal (PF). E nem os membros dos altos escalões da Justiça estadual dormem bem, por temerem a chegada dos agentes federais para arrancá-los do recesso do lar, doce lar.

Diante desse quadro, convicto de que não conseguiria fazer a reforma da Previdência, o presidente Michel Temer resolveu intervir para virar tudo pelo avesso, naquilo que seus aliados chamam de “golpe de mestre”. Seu próprio marqueteiro pessoal, Elsinho Mouco, o definiu como algo que poderia ser “capitalizado politicamente”. No entanto, para surpresa geral, inclusive deste escriba, o chefe do governo limitou-se a decretar uma intervenção militar apenas na segurança pública, deixando seu antigo aliado e correligionário Luiz Antônio Pezão, cria política e ex-vice de Sérgio Cabral, continuar com sua gestão desastrosa do Estado.

Na mesma ocasião em que a Operação Lava Jato – cujo braço fluminense é comandado pelo juiz Marcelo Bretas, que disputa em rigor com o paranaense Sergio Moro – completou quatro anos de existência, a meia intervenção militar, dita federal, de Temer fez um mês. A efeméride daria ocasião a discursos e pronunciamentos oficiais do chefe do Poder Executivo e tudo foi devidamente programado. Mas, repetindo a velha piada da pergunta de Garrincha a Feola –  se o técnico da seleção de 1958 teria combinado o jogo que programava com os adversários russos – esqueceram-se de combinar com os milicianos. E passaram a impressão de que as tropas redentoras da paz social carioca não têm a mínima ideia de que bandidos teriam de combater em primeiro lugar.

Aí, na quarta-feira 14 de março, à noite, enquanto seu time, o Flamengo, ganhava o primeiro jogo fora de casa numa Libertadores em quatro anos, a vereadora negra, esquerdista, homossexual e militante dos direitos humanos, crítica da violência policial e da intervenção militar, foi morta. Não foi vítima de uma bala perdida, como o menino abatido comprando algodão doce no Alemão. Foi executada com requintes de crime mafioso e o general Braga Netto ficou sabendo que não vai ser com operações-modelo na Vila Kennedy, uma invenção da Aliança Para o Progresso, velho engodo colonialista da época da guerra fria, que estancará  o sangue derramado nas calçadas, nem calará a matraca das metralhadoras.

O general é um engano a mais de Temer. O fuzilamento da líder (nascida na Maré) numa rua do Estácio, vindo da Lapa, bairros tradicionais da boêmia carioca dos tempos da Cidade Maravilhosa, origem e reduto do samba, foi, ao que, tudo indica, obra e desgraça de milicianos. O sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro Dos Barões ao Extermínío: A História da Violência na Baixada Fluminense, com 25 anos de expertise no local, deixou claro, em entrevista ao blog da revista Exame, que o verdadeiro desafio ao Estado na região que ele conhece muito melhor do que o novo secretário de Segurança, um general egresso do mais absoluto anonimato, como seu chefe interventor, não vem mais dos traficantes de drogas, que substituíram os bicheiros sambistas e hoje foram submetidos pela presença dos milicianos. Estes controlam, como já sabemos por notícias da imprensa, negócios e serviços públicos, como venda de água, fornecimento de sinais de televisão, celular e internet, entre outros.

O Estado já não domina o território das chamadas comunidades da periferia carioca há muito tempo. Ultimamente Sérgio Cabral inventou a fantasia de que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do então secretário de Segurança José Mariano Beltrame devolveria o território ao controle estatal. Tudo mentira, tudo propaganda.

Do mesmo partido de Cabral, Temer e seus ministros de confiança do Planalto inventaram outra ficção de propaganda com a intervenção meia-boca. No primeiro mês, tudo parece mais um filme da série dos Trapalhões. Na tarde do enterro de Marielle e do motorista Anderson Gomes, Temer fez uma festa no Palácio do Planalto e lhes dedicou um minuto de silêncio, que de fato durou 30 segundos, passando a ser a maior autoridade ausente no velório da vereadora. Apesar de ter divulgado um vídeo para a televisão afirmando que o atentado atingiu a democracia, não se fez presente nas exéquias da nova mártir. O ainda governador sem segurança Luiz Fernando Pezão também choramingou publicamente e evitou comparecer ao funeral. Assim como o prefeito Marcelo Crivella, que decretou três dias de luto e correu de medo das vaias da multidão, que se mostraram até contidas na hora de berrar seu habitual “fora Temer”.

A autoridade ausente continua sendo a marca de um Estado conflagrado pela violência, onde os pobres usam serviços normalmente públicos vendidos a preços exorbitantes pelas prósperas milícias e sempre são assistidos pelos traficantes, agora em decadência financeira, quando o Estado falha. Enquanto o interventor, general Braga Netto, tratava de orçamento inexistente com o governador meio deposto, herdeiro do gatuno Cabral, a poucos metros do Palácio Duque de Caxias, patrono do Exército Nacional e chamado de o Pacificador, um homem foi morto por tiros não identificados no ponto de ônibus, tentando ir para o trabalho.

A primeira semana após o primeiro mês de existência da intervenção começou sob o signo da confusão. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que supre o silêncio do interventor, que mantém distância da imprensa, criou uma trama policial ao afirmar, no sábado, que as balas de calibre 9 mm usadas no atentado eram de um lote comprado pela Polícia Federal e roubadas numa agência de correio em João Pessoa. Só que o presidente dos Correios, que não é russo e com quem Jungmann nada combinou, o desmentiu em nota. Na segunda-feira, o Ministério da Segurança Pública cumpriu o doloroso dever de comunicar que a imprensa entendeu mal o democomunista, que de jeito e maneira jamais teria dito o que disse, embora tenha sido gravado e retransmitido. Jungmann teria feito melhor se tivesse comparecido ao velório público da vítima. Mas também se ausentou. Assim como o general Braga Netto, que deu entrevista por e-mail ao Estado para garantir que “o assassinato de Marielle reforça os objetivos da ação federal no Estado, como reduzir a criminalidade”.

De truísmo em truísmo, a autoridade ausente, como de hábito, vai promovendo a erosão da própria credibilidade, apesar de ainda lidar com a esperança dos cariocas, que, em sua maioria, a apoiam, ao contrário da vereadora executada. A questão é uma só: até quando?

  • Jornalista, ploeta e escritor