Acuados…
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Acuados…

Autoridades falam muito, mas fazem pouco para acabar com violência nas ruas do Rio e do resto do País

José Nêumanne

01 Fevereiro 2018 | 11h13

Tiroteio na Cidade de Deus se estende à Via Amarela e apavora população do Rio. Foto: Antonio Lacerda/EFE

Vi a notícia do tiroteio com três mortes na Cidade de Deus e na Via Amarela, no Rio, no noticiário da televisão na hora do almoço e, no intervalo, a emissora apresentou anúncio do Ministério do Turismo, pago por nós a peso de ouro, vendendo uma imagem falsiê da antiga Cidade Maravilhosa, como se ainda vivêssemos nos tempos de Lúcio Flávio, Mineirinho ou Cara de Cavalo, bandidos pobres armados de revólveres e sem os armamentos modernos de hoje. O Estado em geral, não apenas o governo federal, nem só os governos estaduais, é o grande responsável por tudo isso, inclusive por esse contraste entre a realidade da guerra perdida e a ficção publicitária do reino encantado. A população em geral, principalmente a classe média e os pobres, pagam literalmente a conta duas vezes. E estamos todos acuados…

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na quinta-feira 1.º de fevereiro de 2018 às 7h30m)

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Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 1 de fevereiro de 2018 – Quinta-feira

Haisem Três suspeitos morreram em confrontos nesta quarta-feira (31) com policiais militares na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio. O tiroteio provocou pânico na Linha Amarela, deixando os motoristas em pânico e atarantados. Até quando esse tipo de violência vai se banalizar?

Um dos mortos era Rodolfo Pereira da Silva, conhecido como Rodolfinho, apontado como um dos chefes do tráfico de drogas na região e isso já basta para muita gente achar que no fim o pânico valeu a pena porque um bandido importante foi morto. Mas o chefão será substituído e o crime continuará sua trajetória de piora. Morei no Rio no começo dos anos 80 no fim de uma era do crime romântico, em que os bandidos temiam a polícia. Hoje a situação inverteu-se e quem paga é o cidadão ordeiro que cumpre seu dever e entra no clima de guerra que foi instalado quando, em protesto, moradores colocaram barricadas na Linha Amarela, que desde as 11h sofre interdições intermitentes devido à operação para retirada dos bloqueios e trocas de tiros. A via chegou a ser fechada por três vezes e foi liberada por volta das 13h. O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Roberto Sá, disse ontem que o governo estadual vem “trabalhando para que instituições possam dar cada vez mais respostas” que visem o combate às ações do crime organizado no Rio.

SONORA_ROBERTO SÁ

O secretário de Segurança Roberto Sá ainda comentou que o Rio vive uma situação complexa, onde somente no ano passado quase quinhentos fuzis foram apreendidos pelas forças de segurança.

Vi esta notícia na televisão na hora do almoço e no intervalo a emissora apresentou anúncio do Ministério do Turismo, pago por nós a peso de ouro, vendendo uma imagem falsiê da antiga Cidade Maravilhosa, como se ainda vivêssemos nos tempos de Lúcio Flávio, Mineirinho ou Cara de Cavalo, bandidos pobres armados de revólveres e sem os armamentos modernos de hoje. O Estado em geral, não apenas o governo federal, nem os governos estaduais, é o grande responsável por tudo isso, inclusive por esse contraste entre a realidade da guerra perdida e a ficção publicitária do reino encantado. A população em geral, principalmente a classe média e os pobres, pagam literalmente a conta duas vezes.

Carolina Enquanto motoristas e passageiros abandonavam veículos na Linha Amarela para se proteger dos tiros trocados por policiais e criminosos na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, a cerca de 30 quilômetros dali, no centro da cidade, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, dizia que o sistema de segurança do Brasil “está falido”. Esse tipo de constatação fria e genérica ajuda a combater o crime?

Citando a crise financeira, a “incapacidade do Judiciário de julgar processos”, a superlotação de presídios e o poder de facções, o ministro afirmou que o crime “se transnacionalizou”. Segundo ele, “este sistema vigente está falido, e o que estamos vivendo hoje é o feito, não apenas da falência, do desenho deste sistema, mas o feito de muitas outras razões. O crime se nacionalizou. Mais do que isso, se transnacionalizou. Então, não é no espaço da unidade da Federação que vamos resolver o problema da grande criminalidade”. E mais: “O futuro começa hoje”, organizado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

Segundo ele, grandes  grupos criminosos já têm a distribuição do consumo de droga no Brasil. Agora, buscam o controle da produção.

“Veja o exemplo do Nem (Antônio Francisco Bonfim Lopes, um dos chefes do tráfico na Favela da Rocinha, na zona sul, encarcerado em penitenciária federal). Ele está preso a 5 mil quilômetros do Rio, em um presídio de segurança máxima de Rondônia, e ainda assim é capaz de declarar uma guerra na Rocinha e levar o governo federal a convocar as Forças Armadas para tentar apaziguar o local”, comentou o ministro.

SONORA_JUNGMAN FALÊNCIA

Esse tipo de parolagem sociológica só facilita a progressão da situação que o próprio ministro analisa no drama da vida real. Menos papo e menos ação é o que a sociedade exige de autoridades federais e estaduais no combate ao crime organizado, que também faz prosperar o crime desorganizado.

Haisem A 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) rejeitou, por unanimidade, nesta quarta-feira, 31, mais um pedido de exceção de suspeição contra o juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, movido pela defesa de Luiz Inácio Lula da Silva. A defesa de Lula é persistente, mas o TRF-4 não lhe dá trégua, não é mesmo?

Os advogados alegaram que o magistrado teria perdido a imparcialidade para julgar a ação penal referente ao sítio Santa Bárbara.

O imóvel em Atibaia, em nome de Fernando Bittar, filho de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas pelo PT, é pivô de mais uma ação penal em que Lula é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal sustenta que as reformas bancadas pela Odebrecht e a OAS dissimularam pagamentos de R$ 1 milhão ao ex-presidente.

De acordo com o desembargador federal João Pedro Gebran Neto, relator dos recursos da Operação Lava Jato no tribunal, as questões apresentadas e que atestariam a quebra de imparcialidade do juiz já foram exaustivamente analisadas pela 8ª Turma em outras ações semelhantes propostas pela defesa do ex-presidente.

Ao insistir, a defesa do ex-presidente cumpre o papel que dela se espera no sistema jurídico vigente no País. Mas nós aqui não podemos simplesmente ficar à distância, como se nada tivéssemos com isso. E aproveito para citar o primeiro parágrafo do excepcional editorial do Estadão de hoje a respeito de outro habeas corpus negado, este pelo STJ.

O editorial de intitula A nova afronta de Lula. E seu primeiro parágrafo é?

Lendo-se o caudaloso pedido de habeas corpus preventivo impetrado na terça-feira pela defesa do sr. Lula da Silva no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mais uma vez fica claro que os advogados do ex-presidente não estão interessados em defendê-lo objetivamente das acusações que resultaram em sua condenação, em duas instâncias, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A estratégia da defesa do chefão petista foi e continua a ser a transformação de um caso jurídico em ato político, razão pela qual o pedido de habeas corpus transborda de ataques a quem ousou colocar Lula no banco dos réus e, pior, teve o atrevimento de condená-lo à prisão.

Carolina A deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) pediu a revogação da decisão liminar (provisória) da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, que suspendeu a posse dela como ministra do trabalho. A novela de Lula está no ar há mais tempo, mas esta de Cristiane Brasil no ministério também está durando, hein?

É isso mesmo. Desta vez, a defesa da parlamentar negou que a condenação por dívidas trabalhistas inviabilize que ela assuma o cargo e defendeu a competência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para julgar o caso.

No documento protocolado no STF, Cristiane apresenta seu currículo e classifica a ação que originou o processo como “oportunista e cavilosa”. Em manifestação enviada à Cármen Lúcia, presidente do STFontem, seus advogados dizem que a decisão do vice-presidente do STJ, Humberto Martins, a favor da deputada é “irrepreensível e incensurável”.

Cármen já despachou contra, mas passou a decisão final para o plenário que está voltando de férias. A insistência de Cristiane em tomar posse, do ex-presidiário Roberto Jefferson, seu pai, e de Temer e os ministros palacianos é compreensível por causa da necessidade de apoio do PTB de Jefferson à reforma da Previdência. Mas tudo tem limite, minha gente.

Haisem A Advocacia Geral da União (AGU) pediu que a primeira instância da Justiça Federal do Rio remeta ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) a decisão que autorizou o juiz Marcelo Bretas, responsável pelas ações da Lava-Jato no Rio, a receber auxílio-moradia mesmo com a sua mulher, a juíza Simone Diniz Bretas, já recebendo o benefício. Bretas ser herói da Lava Jato muda a questão?

A AGU quer que a segunda instância reavalie a decisão.

Uma resolução publicada em 2014 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) proíbe o pagamento do benefício para um mesmo casal. Mesmo assim, Bretas recebe o benefício desde 2015, quando ganhou o direito após ação na Justiça. O juiz comentou, na segunda-feira, pelo Twitter, um questionamento feito a ele pela Ouvidoria da Justiça Federal a respeito da questão. Em vez de se submeter à lógica dos fatos, o juiz Bretas preferiu ironizar. “Pois é, tenho esse ‘estranho’ hábito. Sempre que penso ter direito a algo eu VOU À JUSTIÇA e peço. Talvez devesse ficar chorando num canto ou pegar escondido ou à força. Mas, como tenho medo de merecer algum castigo, peço na Justiça o meu direito”, escreveu em sua conta pessoal do microblog. Depois fechou seu perfil. O fato de ele ser herói popular por ser um juiz honesto e competente não o ajuda em nada a ter esse tipo de postura. Ao contrário: herói de verdade dá exemplo e esse exemplo específico que ele está dando é dos piores.

O artigo 3º da resolução de 2014 do CNJ frisa que o magistrado não terá direito ao pagamento de ajuda de custo para moradia em quatro casos: quando houver residência oficial colocada à sua disposição, mesmo que não a utilize; quando estiver inativo; quando estiver licenciado sem percepção de subsídio; ou quando o cônjuge ou companheiro (a) receber vantagem da mesma natureza, a não ser que resida em outra localidade.

Segundo o CNJ, a decisão da Justiça de 2015 favorável ao magistrado afronta a resolução. Apesar disso, o Conselho informou, por meio de comunicado enviado à imprensa, que não pode impedir o pagamento dos auxilios a Bretas e sua mulher.

Carolina O mercado de trabalho manteve a tendência de melhora gradual na reta final de 2017. A taxa de desemprego recuou de 12,4% no terceiro trimestre para 11,8% no quarto trimestre. Isso quer dizer que o emprego está se recuperando e a crise abandonando os lares brasileiros?

Infelizmente não, Carolina, porque a média do ano foi de 12,7%, a mais elevada da série histórica iniciada em 2012, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo IBGE. Houve geração de vagas e recuo no número de pessoas em busca de emprego. A qualidade dos postos de trabalho criados, porém, permanece precária. O total de empregados com carteira assinada no setor privado desceu ao menor patamar da série histórica. Como consequência, 1,1 milhão de trabalhadores ocupados, em média, deixaram de contribuir para a Previdência Social em 2017.

Os jornais – o Estadão inclusive – abordaram os dois lados da moeda e fizeram bem. É preciso manifestar alívio pela virada da curva, mas não dá ainda para fazer o carnaval do fim da crise. Ainda estamos longe disso e, apesar da competência que a equipe econômica do governo tem mostrado no cumprimento de sua difícil missão, o desemprego ainda continua sendo a mais árdua de suas tarefas, o mais difícil de seus objetivos. É preciso ter noção da realidade para que a luta continue e sejam vencidas mais batalhas.

SONORA Alagados Paralamas do Sucesso