WikiLeaks e a encruzilhada do jornalismo

Marcos Guterman

08 Dezembro 2010 | 00h15

Muitos excelentes jornalistas saíram em defesa de Julian Assange e seu WikiLeaks no episódio do vazamento de documentos diplomáticos americanos. Para eles, a prisão de Assange é “política”, como brada um ainda incipiente movimento brasileiro de protesto. O argumento é simples: o direito à informação é superior a qualquer outra consideração moral ou ética.

“A prisão de Julian Assange é um teste claro, voltaireano: não precisamos concordar com nada do que ele diz para aceitar que tem o direito de fazê-lo”, escreveu Paulo Moreira Leite em seu blog.

“Não há autismo intelectual que impeça o mais medíocre dos jornalistas de perceber a ardilosa campanha organizada contra a WikiLeaks”, argumentou Diego Escosteguy em seu Twitter. “Para aqueles que, como eu, subordinam seu trabalho ao princípio democrático da liberdade de expressão, é imperativo expressar indignação.”

São discursos fortes, obviamente respaldados na ideia, absolutamente correta, de que a transparência do poder público é sempre melhor do que a sombra, e na percepção de que Assange está sendo perseguido mundialmente não porque fez sexo sem camisinha, mas porque incomodou a Casa Branca. O caso do WikiLeaks, porém, requer algumas considerações que deveriam ser levadas em conta para analisar o caso, inclusive do ponto de vista jornalístico.

O primeiro aspecto a se observar é a natureza dos documentos vazados. É muito provável que, entre os 250 mil despachos diplomáticos, haja alguma coisa relevante do ponto de vista da história; afinal, como lembrou o historiador Timothy Garton Ash, não é todo dia que podemos pôr a mão em fontes primárias tão frescas e conceituadas para entender o tempo presente. No entanto, a maioria absoluta dos documentos vazados, a julgar pelo que veio à luz até aqui, aparenta ser simplesmente inútil para reconhecer neles alguma importância histórica ou jornalística, quer porque tratam de fatos já bastante conhecidos, quer porque resvalam na fofoca, pura e simples. Assim, o único efeito prático desse vazamento, tomado em seu todo, tem sido o de supostamente desmoralizar a diplomacia dos EUA – para Umberto Eco, é irônico descobrir que diplomatas da maior potência do mundo comunicam “segredos” vazios, isto é, que saem antes na imprensa.

Como lembrou no New York Times o colunista Roger Cohen, porém, a revelação dos documentos do Departamento de Estado dos EUA compromete anos de trabalho de diplomatas empenhados em costurar acordos e negociações ao redor do mundo. Em lugar de atender algum tipo de interesse público, o vazamento é simplesmente danoso, segundo esse ponto de vista, porque os contatos diplomáticos são feitos na base da confiança do sigilo. Na Slate, Christopher Hitchens comenta que “uma das mais antigas e melhores ideias da civilização é estabelecer pequenos encraves estrangeiros soberanos na capital de cada país” e que esses encraves, destinados à resolução pacífica de impasses, precisam ter “certas imunidades especiais” para exercer suas funções, entre as quais “um alto grau de privacidade”. Para Hitchens, “mesmo a menor violação dessa antiga tradição pode causar indesejáveis e inesperadas consequências”. Cohen, por sua vez, faz uma comparação interessante: “Todos os jornalistas sabem que, se seus contatos fossem subitamente tornados públicos, eles perderiam a maioria de suas fontes. Isso deveria fazê-los parar para pensar”.

Outro argumento foi apresentado pelo jornalista João Pereira Coutinho, colunista da Folha. Para ele, os jornalistas deixaram de fazer seu trabalho e se transformaram em “cúmplices da pirataria e da espionagem de um foragido”: “Temo pelo futuro do próprio jornalismo. Tempos houve em que os jornalistas tinham a nobre função de vigiar e criticar o poder. Uma tarefa necessária, solitária, tantas vezes perigosa, que implicava ‘pesquisa’, ‘filtragem’, ‘interpretação’. Uma fonte era uma fonte. O início do processo, não o seu fim preguiçoso. Com a WikiLeaks, o jornalismo transformou-se no latão de lixo de um delinquente cibernético. Não existe ‘pesquisa’, ‘filtragem’ ou ‘interpretação’ alguma”. Christopher Hitchens foi na mesma direção ­– para ele, Assange é um “megalomaníaco inescrupuloso” que “transformou todo mundo em cúmplice de sua decisão privada de tentar sabotar a política externa dos EUA”, em nome de uma “agenda política”.

Desconsiderando-se os exageros de praxe, o fato é que o caso WikiLeaks colocou não só a diplomacia americana numa encruzilhada, mas também o próprio jornalismo, que Assange diz defender.

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