Sakineh, ou a sordidez eleitoreira de Lula

Marcos Guterman

31 Julho 2010 | 18h31

O presidente Lula ainda não sabe o que fazer com a influência internacional que supõe ter, a julgar pelas suas reações no caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Pior: confirmou a sensação de que cada gesto seu é fruto de cálculo político, e não de convicção moral.

Primeiro, ele se negou a aderir à campanha que busca impedir a morte de Sakineh por apedrejamento – ela foi condenada no Irã por suposto “adultério”. Argumentou que um presidente brasileiro não pode interceder em favor de condenados no Irã, a não ser que esses condenados sejam brasileiros ou de um terceiro país. Desconsiderando-se o fato de que Lula é aliado do regime dos aiatolás e que já justificou inclusive a perseguição aos dissidentes políticos iranianos, o argumento do presidente é correto. Não se tem notícia, por exemplo, de que o presidente dos EUA, Barack Obama, tenha aderido a qualquer campanha por Sakineh. Com seu jeito deselegante e confuso, Lula criticou a condenação da iraniana, mas considerou que interceder em seu favor seria “avacalhação”.

Em época de eleição, porém, tal declaração obviamente ganhou repercussão negativa. Por essa razão, Lula tentou mostrar que está sensibilizado pelo caso de Sakineh e que agora quer ajudá-la. Ele tocou no assunto neste sábado, durante comício em Curitiba, e o que se viu foi uma série de gafes, distorções e tentativas patéticas de reverter um episódio que lhe pareceu desfavorável.

Em primeiro lugar, Lula escolheu um comício eleitoral para fazer suas considerações, o que dá a dimensão da seriedade com que ele está tratando o caso. Se a diplomacia brasileira é “silenciosa”, como se gabam Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, o que dizer desse arroubo lulista em cima de um palanque?


Em segundo lugar, Lula, mais uma vez, parece demonstrar imensa insensibilidade para o sofrimento dos prisioneiros de regimes despóticos e violadores de direitos humanos que agora são parceiros comerciais e políticos do Brasil. Ao se referir a Sakineh, Lula declarou que, “se essa mulher está causando incômodo” ao Irã, ele a ajudaria. “Causando incômodo”? Sakineh foi condenada sob a acusação de ter traído o marido. Não teve direito a ampla defesa e seu julgamento foi um claro exemplo do estado deplorável da Justiça iraniana dirigida por fanáticos religiosos. Sem falar da sentença – ela morrerá sentido dores indescritíveis, apedrejada num ritual macabro de “justiça”. Seu caso não causa nenhum “incômodo” aos aiatolás; causa “incômodo”, sim, à consciência e aos valores morais e humanitários universais.

Lula, porém, parece ter levado seu pragmatismo cínico ao ápice da desumanidade. Em Cuba, comparou os presos políticos a bandidos comuns; agora, quando resolveu falar do caso de Sakineh, foi para tentar atrair dividendos políticos. No palanque, ao lado de Dilma Rousseff, ele discursou: “Já que minha candidata é uma mulher, eu queria fazer um apelo ao meu amigo Ahmadinejad, ao líder supremo do Irã e ao governo do Irã”. Ora, se o candidato de Lula fosse homem, então ele não interviria? E o que o fato de seu candidato ser uma mulher tem a ver com Sakineh e seu sofrimento? A única resposta possível a essas perguntas é: Lula está simplesmente tentando capitalizar o hediondo caso iraniano a favor de sua candidata. Nem mais, nem menos.

É sórdido demais.

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