Qatar?

Marcos Guterman

03 Dezembro 2010 | 00h47

A escolha da Rússia para sediar a Copa de 2018 não é necessariamente uma surpresa. Embora não tenham se classificado para a última Copa, os russos têm razoável tradição e estão entre as 15 melhores seleções do mundo, segundo o ranking da Fifa. Além disso, o país, ex-superpotência, tem disposição (e um governo suficientemente autoritário) para superar as evidentes deficiências de infra-estrutura e fazer um bom torneio.

Já a escolha do Qatar para 2022 é um mistério. Nem é o caso de lembrar que a temperatura por lá é de incomodar beduínos – isso se resolve, segundo os catarianos, com ar-condicionado nos estádios. Mais adequado é falar de sua população – somente 1,5 milhão de pessoas. É como se a Fifa tivesse decidido fazer a Copa em Campinas e, de uma hora para outra, a cidade tivesse de erguer 12 estádios – que, no caso do emirado, serão quase totalmente inúteis depois do torneio, porque lá existem apenas 10 times de futebol na primeira divisão.

Poderíamos pensar que o Qatar foi escolhido por representar um contraponto à candidatura dos EUA, mas o emirado foi apoiado por países que não nutrem nenhum sentimento especial contra os americanos. Um argumento possível é o de que o Qatar funcionaria como sede para a “Copa do Oriente Médio”, atraindo, portanto, as atenções de 350 milhões de pessoas, uma população equivalente à dos EUA. No entanto, o Qatar pode não ser o país adequado para representar o Oriente Médio, se a intenção for fazer relações públicas; afinal, o país é uma ditadura feroz, cujo emir derrubou o próprio pai num golpe sangrento e que segue o script clássico: não permite liberdade de imprensa, encarcera homossexuais, reprime mulheres e faz vista grossa ao tráfico humano.

Resta a hipótese de que o Qatar comprou a Copa de 2022. Não há como provar isso, mas, diante da ausência de uma explicação melhor, a corrupção passa a ser pelo menos plausível.

Há quem diga, porém, que os vencedores mesmo foram os países que perderam a disputa. No New York Times, o economista Dennis Coates argumenta que a Copa do Mundo vale muito menos do que é oferecido por ela.

“Os economistas e os especialistas em políticas públicas estudaram o impacto de grandes eventos esportivos, como Copa e Olimpíada, e as evidências mostram que há muito pouco benefício econômico para os anfitriões desses eventos. Os lucros não crescem tão rápido, a expansão do emprego não se verifica e os governos não obtêm aumento significativo na arrecadação de impostos. Em outras palavras, o valor econômico de organizar uma Copa ou uma Olimpíada não é especialmente grande”, escreveu Coates.

Para Paul Rhys, da Al Jazeera, a decisão da Fifa foi “corajosa”; para Coates, é simplesmente uma “maldição”.

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