“Passei o sangue do meu irmão em mim e fingi que estava morto”

Marcos Guterman

31 Maio 2012 | 10h00

O menino sírio Ali el-Sayed só está vivo porque é esperto. Deitado no chão de sua casa, enquanto milicianos a serviço do açougueiro Bashar Assad dizimavam sua família, ele sujou suas roupas com o sangue de um de seus irmãos para enganar os assassinos, fingindo-se de morto.

Ali, de 11 anos, contou à Associated Press que tentou parar de tremer enquanto os pistoleiros matavam seus pais e seus quatro irmãos. A mãe levou cinco tiros, todos na cabeça e na nuca. O mais novo, Nader, de seis anos, tinha levado dois tiros – um na cabeça, outro nas costas. Foi o sangue desse garoto, morto de forma indescritível, que Ali usou para se safar.

“Passei o sangue do meu irmão em mim e fingi que estava morto”, descreveu Ali, um dos sobreviventes do terrível massacre de Houla – o assassinato frio e sistemático, casa a casa, de mais de 100 pessoas, a maioria mulheres e crianças, como nos terríveis pogroms que marcaram a Europa. Os milicianos alauítas da Síria são mesmo conhecidos por sua capacidade de intimidar quem se opõe a Assad.

“Eu vi uma criança com o cérebro para fora. Eu vi outra, que não tinha mais de 1 ano de idade, que havia sido esfaqueada na cabeça”, contou um ativista. Segundo a ONU, os assassinos aparentemente visaram as vítimas mais vulneráveis.

O governo sírio nega qualquer responsabilidade no massacre e culpa os “terroristas” de sempre. De fato, não há nenhuma prova concreta que ligue Assad diretamente ao crime, e os simpatizantes do ditador dizem que ele, na verdade, é “vítima” de uma campanha dos “imperialistas” que desejam ocupar a Síria. A expulsão de diplomatas sírios em diversos países, porém, mostra que o mundo civilizado já não cai mais na conversa fiada de Damasco.

Não há cinismo que resista ao fato de que as digitais dos terroristas de verdade, isto é, o governo sírio, estão por toda a parte. O menino Ali que o diga. A Associated Press informa que não foi possível confirmar o relato do garoto de forma independente – a entrevista foi intermediada pelos rebeldes que lutam contra Assad. A esse respeito, pode-se dizer que está cada vez mais difícil conseguir testemunhas das atrocidades do “Açougueiro de Damasco” – quer porque estão apavoradas, quer porque estão mortas.