O WikiLeaks é mesmo democrático?

Marcos Guterman

23 Dezembro 2010 | 00h10

O WikiLeaks não tem nada de democrático; é, na verdade, equivalente a uma ditadura. A opinião é do escritor e cineasta francês Yann Moix, em artigo publicado na revista La Règle Du Jeu. Essa ideia contraria a essência da noção construída em torno do WikiLeaks, a de que o vazamento de informações confidenciais produzidas pelo Estado contribui para aperfeiçoar a democracia.

Para Moix, a demanda pela “transparência” que emana do WikiLeaks não é democrática, e sim “uma obsessão totalitária”. “A palavra totalitarismo, de fato, expressa perfeitamente essa idéia: tudo é igual a tudo, tudo deve ser conhecido de todos, tudo deve ser conhecido em todos os momentos.’’ Moix considera que uma ditadura busca “fazer com que os seres sejam indistinguíveis’’, ou seja, promove ‘‘o primado da massa sobre o indivíduo’’, por meio da “transparência”.

Se houvesse transparência em todos os momentos, se a vida fosse sem mentiras e segredos, sem privacidade, argumenta Moix, ela seria um ‘‘inferno’’. A essência da política, diz ele, é saber equilibrar o segredo e a transparência, em nome do bem público. Moix lembra que ‘‘a soma das vontades individuais não constitui a vontade geral’’, de modo que, numa democracia, cada indivíduo aceita a liberdade ‘‘possível’’, alienando parte dela ao Estado, tendo em troca a garantia de que o Estado saberá administrá-la melhor do que os indivíduos isoladamente.

O WikiLeaks, sob esse aspecto, “quebra o contrato, aquele de Rousseau, do Iluminismo”, diz Moix. “É antidemocrático, porque, de repente, um homem, uma organização, um homem-organização decide parar de cooperar, decide desistir da ‘farandole’ (dança coletiva). Sem a permissão (ou a legitimidade) daqueles que nos governam, mas também nos representam, o WikiLeaks está se colocando acima deles. Ao fazer isso, o WikiLeaks não está insultando o Estado, mas o povo representado por esse Estado. Somos nós os insultados – em nossa democracia, em nossa liberdade.”

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