O telegrama de Tegucigalpa e a dupla moral

Marcos Guterman

01 Dezembro 2010 | 00h15

Como era previsível, um telegrama do embaixador dos EUA em Tegucigalpa que considerou como “golpe” a remoção de Manuel Zelaya da Presidência de Honduras, em 28 de junho de 2009, está sendo usado pelos ativos simpatizantes de Lula como prova de que seu governo estava certo ao recusar qualquer acordo com o chamado “governo de facto” daquele país.

São, no entanto, duas coisas muito distintas. Uma coisa é condenar o alegado golpe de Estado, algo que a comunidade internacional inteira fez logo depois dos incidentes em Tegucigalpa. Outra, muito diferente, é negar-se a observar as particularidades do episódio e a participar, de modo desinteressado, do processo de pacificação em Honduras.

O Brasil, ao abrigar Zelaya em sua embaixada, tomou partido, anulando-se como candidato natural a mediador do conflito. Foi um erro, que permitiu aos EUA assenhorear-se da situação diplomática – e qualificar de “irresponsável” a decisão brasileira de permitir a volta de Zelaya a Honduras, naquela ocasião, sem acordo prévio.

De lá para cá, embora a crise ainda não tenha sido inteiramente superada, houve eleições livres em Honduras e um novo governo foi empossado, reconhecido por boa parte da comunidade internacional. Mas o Brasil insiste no equívoco de opor-se a ele. A expectativa é que a presidente Dilma Rousseff tenha mais bom-senso que seu antecessor nesse caso.

Mas voltemos ao telegrama do embaixador americano Hugo Llorens e a seu controvertido conteúdo. Atentos leitores aqui do blog, logo depois que o texto diplomático foi vazado pelo WikiLeaks, correram a apontar um suposto erro meu ao considerar que não houve golpe em Honduras e que Zelaya foi removido do poder segundo o que reza a Constituição.

Não é bem assim. Em meu primeiro post sobre o assunto, em 29 de junho, um dia depois dos incidentes, qualifiquei a situação de “golpe de Estado”. Era, então, a percepção geral do caso – inclusive dos EUA. O próprio presidente americano, Barack Obama, chegou a usar o termo “golpe”. Com o passar dos dias, porém, ficou evidente que o contexto era bem mais confuso do que parecia à primeira vista, sobretudo levando-se em conta que havia um elemento crucial em questão – o chavismo de Zelaya e sua clara intenção de emular o mestre. Esse fator embaralhava consideravelmente o problema. O que era um golpe passou a ter ingredientes de contragolpe.

Mesmo o telegrama de Llorens, embora afirme categoricamente que a remoção de Zelaya do poder foi ilegal, reconhece que a Constituição hondurenha não é clara sobre os procedimentos de impeachment nem sobre a pretensão do presidente de convocar um referendo para alterá-la – de acordo com o script chavista.

Ademais, o telegrama de Llorens é apenas uma das opiniões americanas sobre o caso. Um

Documento

preparado a pedido do Congresso dos EUA, no ano passado, chegou a uma conclusão diametralmente distinta: para esses especialistas, a remoção de Zelaya respeitou a Constituição. Foi com base nesse estudo que este blog passou a aceitar o argumento de que não houve golpe em Honduras. Agora, considerando-se ambas as conclusões, é possível perceber que o problema hondurenho de fato não é tão simples quanto certa retórica militante lulista faz supor.

Por fim, é interessante notar a dupla moral no discurso de lulistas que estão explorando o texto de Llorens como prova incontestável de que houve golpe em Honduras – e de que, por conseguinte, toda opinião contrária a essa é reacionária. É lícito perguntar se os lulistas que ora brandem o telegrama de Tegucigalpa têm a mesma opinião positiva sobre outros documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks – como o que qualifica Chávez de “louco”, o que diz que o MST é obstáculo à luta contra o terrorismo e o que afirma que o governo Lula é tomado pela corrupção.

O próprio Lula tratou de responder a essa questão, ao dizer que os documentos diplomáticos americanos que comentam os escândalos de seu governo “não merecem ser levados a sério”. E ele completou: “Na verdade, não sou obrigado a acreditar num telegrama do embaixador americano”.