O poder do sangue de Saddam

Marcos Guterman

21 Dezembro 2010 | 00h01

Na década de 90, durante dois anos, o então ditador do Iraque, Saddam Hussein, dedicou-se a uma macabra rotina: uma enfermeira retirava-lhe sangue, e com esse sangue um calígrafo transcrevia o Corão. Foram 27 litros de sangue para os 114 capítulos. Desde a queda do ditador, os iraquianos vivem o dilema do que fazer com o livro sagrado do islã escrito nessas condições, relata o Guardian.

Por um lado, o governo iraquiano, xiita, não quer que um símbolo tão forte do regime do sunita Saddam seja exposto; por outro, os sunitas temem ser perseguidos se reverenciarem o livro.

As páginas do volume seguem guardadas, longe dos olhos do público. Apenas três pessoas têm acesso a elas. Destruí-las, obviamente, está fora de questão. Há quem diga que os iraquianos nem querem vê-las mesmo, por serem muito perturbadoras, e que elas devem preservadas como o símbolo da loucura de um ditador.

Uma coisa é certa: como bom líder totalitário, Saddam tinha noção intuitiva de como se perpetuar, como um monstro onipresente, na memória coletiva de seu país.

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