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Política » O “massacre” do Pinheirinho e os limites do “jornalismo cidadão”

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Marcos Guterman

09 Fevereiro 2012 | 01h17

O episódio do “massacre” do Pinheirinho – em que redes sociais na internet disseminaram a falsa informação de que a PM matara sete pessoas ao expulsar invasores de um terreno em São José dos Campos, em 22 de janeiro – é útil para desmistificar a suposta revolução liderada pelo chamado “jornalismo cidadão”.

A versão sobre as mortes, reproduzida fartamente pelo Twitter e pelo Facebook, foi deflagrada pela “Agência de Notícias das Favelas” e se manteve ainda dois dias depois do episódio, quando já se sabia que a informação era apenas rumor (a sequência pode ser vista aqui, aqui, aqui e aqui). No dia 2 de fevereiro, um ativista que disse ter testemunhado as mortes iniciou “greve de fome” para denunciar a suposta conspiração da mídia tradicional para encobrir o “massacre” – ele chegou a dizer que os corpos foram escondidos, inclusive o de um menino de 4 anos que teria levado um “tiro na nuca”. “Graças à completa ausência de uma mídia no Brasil, estou denunciando tudo na minha página no Facebook”, disse ele.

É fato que jornalistas irresponsáveis há em qualquer plataforma e em qualquer veículo – mesmo a estatal Agência Brasil veiculou, sem checar, a informação de um representante da OAB segundo a qual tinha havido mortos na operação; dias depois, teve de se retratar, e o fez de modo exemplar.

Mas, considerando-se que o “jornalismo cidadão” inclui virtualmente todos os que habitam a internet, a chance de uma informação sem fundamento circular livremente, sem contestação, com ares de fato, é substancialmente maior do que no caso do jornalismo tradicional – que tem mecanismos institucionais e técnicos que ajudam a filtrar bobagens.

O “massacre” do Pinheirinho mostra que o jornalismo das redes sociais e dos blogs “independentes”, embora seja uma novidade com enorme potencial, ainda está longe de ser substituto do jornalismo tradicional. Sem a mediação dos critérios técnicos do exercício do jornalismo, essa plataforma carece de um elemento fundamental na disseminação da informação: credibilidade.

O meio, em si, não é garantia de que a informação seja “democratizada”. A internet, até aqui, tem sido superdimensionada como elemento político – houve entusiasmo sobre o papel dela na Primavera Árabe, mas hoje sabe-se que as redes sociais foram apenas um entre tantos mecanismos de mobilização, e nem de longe foi o principal. Parece claro que a fragmentação infinitesimal da informação, mesmo com boas intenções, não ajuda a construir consenso político.

Por fim, mas não menos importante, o escarcéu em torno da “revolução” do chamado “jornalismo cidadão” mal esconde a hostilidade em relação aos jornalistas profissionais e aos veículos nos quais trabalham, todos eles supostos detentores do monopólio do “direito” de informar. Nessa equação, os cidadãos são os que naturalmente chegam à “verdade” dos fatos, posto que não estão submetidos à agenda de nenhum meio de comunicação tradicional, podendo divulgá-la, por meio da internet, sem as amarras político-ideológicas e econômicas desses veículos. Mesmo isso, porém, não é inteiramente verdadeiro. Hoje, sabe-se que muitos blogueiros estão organizados e articulados para defender os interesses do governo federal petista contra o que chamam de “PIG”, ou “Partido da Imprensa Golpista”. Auto-intitulados “blogueiros progressistas”, consideram-se a vanguarda do jornalismo cidadão, mas eles mesmos têm uma agenda muito definida e interesses políticos claros.

No “jornalismo cidadão”, a verdade surgiria por causa da chamada “cultura wiki”, isto é, a colaboração entre vários cidadãos para trabalhar a informação. O problema da “cultura wiki” é intrínseco à sua natureza. A checagem das informações não é feita antes de sua divulgação, e sim durante o processo, graças ao espírito “colaborativo” – o certo e o errado, o verdadeiro e o falso vão se distinguindo, nas redes sociais, à medida que a informação é “lapidada” pelos próprios internautas. Um dos blogueiros que participaram da cobertura do “massacre” do Pinheirinho explicou: “Cabe às redes sociais e à blogosfera repercutirem tudo que for denunciado, mesmo que seja uma repercussão em tom condicional, pois denúncias que não se confirmem causarão muito menos prejuízos que a costumeira supressão da versão dos mais fracos”.

Ou seja: a regra basilar do jornalismo, a de que é preciso verificar a veracidade da informação antes de publicá-la, simplesmente não existe nas redes sociais, empenhadas em defender “causas”. É o elogio ao boato e à irresponsabilidade – posição que nada tem de inocente ou democrática.

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