O governo Lula e a aporofobia

Marcos Guterman

31 Dezembro 2010 | 00h15

O governo Lula chega ao fim hoje. É cedo ainda para julgar que lugar ele terá na história, a despeito da pressa apaixonada tanto de seus simpatizantes quanto de seus detratores. Se o legado de Getúlio Vargas ainda é objeto de intenso debate, meio século depois da morte do caudilho, não parece prudente propor rótulos definitivos para a Presidência de Lula quando este nem passou a faixa a sua sucessora. Há sinais, porém, de que uma pequena revolução foi operada no Brasil durante o governo lulista. O principal deles é o diagnóstico de que parte da classe média brasileira sofre de um mal ainda ausente dos dicionários nacionais: a

Documento

.

Definida no final do século passado, a aporofobia é uma aversão especial aos pobres. É mais do que indiferença ao destino dos miseráveis; é o medo de que eles possam, de alguma maneira, perturbar a suposta paz social e econômica. A aporofobia pode significar, entre outras coisas, intranqüilidade em relação à manutenção daquilo que é tido como privilégio próprio de uma classe. E a ascensão social de um crescente número de brasileiros pobres, vistos como meros apadrinhados de um presidente demagogo e intrinsecamente despreparados para usufruir de sua nova condição, pode ser considerada como o foco central desse sentimento de desconforto. A reação pode incluir franca hostilidade, diante da perspectiva de desequilíbrio e de mudança do status quo.

Os aporofóbicos temem sobretudo uma “contaminação” de seu mundo por essa legião de pobres alçados, de uma hora para outra, à categoria de “consumidores” dos mesmíssimos bens outrora reservados à “velha” classe média. Os aeroportos tumultuados e o excesso de carros nas grandes cidades parecem ter se tornado os elementos simbólicos dessa guerra.

Em novembro, um comentarista da TV RBS de Santa Catarina chegou a atribuir o alto número de acidentes automobilísticos ao fato de que, “hoje, qualquer miserável tem um carro”. E foi mais longe: “O sujeito jamais leu um livro, mas tem um carro na garagem”. Também em novembro, um colunista da Folha escreveu que detesta aeroportos e “classes sociais recém-chegadas a aeroportos, com sua alegria de praças de alimentação”. Para ele, “viajar, hoje em dia, é quase sempre como ser obrigado a frequentar um churrasco na laje”.

Essas reações indicam que, para a “velha” classe média, os novos “consumidores” atingiram essa condição não por meio de seu esforço pessoal, mas por causa do paternalismo do governo Lula, que deu a essa gente a chance ilusória de abrir um crediário, viajar de avião e comprar um carro. Por esse motivo, eles não teriam educação e cultura suficientes para gozar adequadamente de sua nova (e, esperam alguns, apenas provisória) condição social. Falta-lhes, segundo esse raciocínio, o estofo que somente a boa educação e o esforço individual são capazes de fornecer; portanto, quem não tem a “velha” classe média em seu DNA certamente vai tumultuar aeroportos porque jamais saberá fazer um simples check-in.

Pior: a “nova” classe média significa a ascensão de um novo padrão estético, diluindo os conceitos de beleza e cultura considerados até agora como a mais confortável fortaleza da elite em relação aos pobres. Os desdentados com poder de compra vieram para confundir essas certezas, e o “churrasco na laje” ameaça até se tornar moda. Eis, até aqui, o maior legado de Lula.

Mais conteúdo sobre:

Lula