O Brasil ajuda a tornar a ONU irrelevante

Marcos Guterman

17 Outubro 2009 | 00h00

O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou ontem resolução que endossa relatório sobre a invasão israelense a Gaza entre o final de 2008 e o início de 2009. O documento acusa Israel e o Hamas de terem cometido crimes de guerra. O endosso final, porém, diz que o plano de Israel era, “pelo menos em parte”, atingir diretamente “a população de Gaza como um todo”. Por outro lado, o texto do conselho simplesmente omite o fato de que os militantes do Hamas usaram civis como escudos humanos, sendo portanto co-responsáveis pela morte desses civis. Esse “detalhe” foi ignorado, o que mais uma vez prova o uso político do Conselho de Direitos Humanos da ONU – e tal distorção foi denunciada pelo próprio Richard Goldstone, autor do relatório de investigação que originou a resolução.

Além disso, a lobby anti-Israel no conselho aproveitou a resolução para contrabandear temas que não estavam previstos no relatório de Goldstone, como a questão de Jerusalém. Esse foi um dos motivos alegados pelos EUA para votar contra a resolução.

Já o Brasil ignorou todas essas contradições e votou a favor da resolução. Se o país tinha alguma intenção de servir de mediador do conflito israelo-palestino, jogou fora sua chance. Uma atitude mais inteligente, se o Brasil não queria se indispor com os países árabes, teria sido pelo menos abster-se. O voto brasileiro ajudou também a reforçar a sensação de que o Conselho de Direitos Humanos da ONU só existe para punir Israel, uma vez que 80% de todas as suas decisões até agora disseram respeito a esse único país. Considerando-se que integram o conselho países onde grassam a homofobia, a repressão a dissidentes e o desprezo pelo Estado de Direito, parece até piada. Mas não é, razão pela qual é difícil levar essa entidade a sério.

Se o Brasil está realmente tão interessado em reformar a ONU para torná-la relevante, como declarou Lula em recente entrevista, seria bom começar por não dar apoio a resoluções claramente emanadas de ódio religioso e político, que contaminam o ambiente da diplomacia, em lugar de arejá-lo.