Não tenho palavras para descrever isso

Marcos Guterman

23 Maio 2012 | 10h00

No vídeo abaixo, uma “repórter” da Bandeirantes na Bahia “entrevista” um assaltante que era também suspeito de ter estuprado sua vítima. Em alguns minutos, a “jornalista” mostra a que ponto chegaram os programas policiais da TV. Ela humilha o rapaz de um modo indescritível, explorando a ignorância dele, e se antecipa ao trabalho da Justiça ao condená-lo como estuprador.

É improvável que a moça tenha conduzido seu “trabalho” sem o conhecimento da emissora. Pelo contrário: o padrão desse tipo de “atração” televisiva é exatamente esse. Com a cumplicidade da polícia, as TVs sensacionalistas transformam delegacias em circos de horrores e expõe seres humanos ao escárnio público, como nos julgamentos medievais. Todas as conquistas do iluminismo contra a barbárie, de que se orgulha nossa civilização, vão pelo ralo em alguns segundos reveladores.

O pior é que a “repórter”, embora tenha cumprido ordens, demonstra enorme satisfação. Ela claramente acredita que está fazendo a coisa certa e parece muito ciosa de sua responsabilidade em transformar aquele rapaz em um monstro ignorante, para que telespectadores tão cruéis e desumanos quanto ela concedam a tão almejada audiência à TV.

O caso levou jornalistas baianos a divulgar um abaixo-assinado no qual questionam a “conivência do Estado com repórteres antiéticos”. Para eles, “o direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime”.

Preparem o estômago.