Muito além das fofocas do WikiLeaks

Marcos Guterman

02 Dezembro 2010 | 01h20

Leslie Gelbs é presidente emérito do Council on Foreign Relations, um dos principais centros de estudo de política externa dos EUA. Para ele, o recente vazamento de documentos americanos pelo WikiLeaks, em lugar de comprometer a imagem da diplomacia do país, ajudou a melhorá-la.

“Quando se retiram a fofoca e as curiosidades óbvias que têm hipnotizado a imprensa, observa-se claramente aquilo que os Wikileakers jamais esperariam: um Estados Unidos que tenta, de modo sério e profissional, resolver os mais perigosos problemas de um mundo assustadoramente complicado, ainda que lhe falte o poder de ditar soluções”, escreveu Gelbs em artigo no Daily Beast.

Segundo ele, os diplomatas foram “flagrados” fazendo o que se espera que façam: buscando informações com líderes estrangeiros e decidindo qual a pressão política correta a ser aplicada em relação a aliados e a adversários. E, diz Gelbs, “em muitos casos, o vilão não é Washington, mas líderes estrangeiros que evitam uma ação comum por covardia e hipocrisia”.

Para Gelbs, a imprensa caiu feito pato na armadilha de Julian Assange, cuja isca foram inconfidências picantes sobre Sarkozy, Merkel e Berlusconi (sempre ele). Os documentos mais importantes, no entanto, são aqueles que mostram delicadas negociações para resolver questões como Coreia do Norte e Irã, e Assange os vazou para simplesmente “provar que podia fazê-lo”, transformando-o num herói midiático, a serviço da “democracia” e da “transparência”. No entanto, “quem quer que não seja um coitado ideólogo esquerdista sabe que tais vazamentos vão, na verdade, comprometer futuras conversações desse nível no futuro”, escreveu Gelbs. Em razão disso, a tendência, argumenta Ross Douthat, do New York Times, é que o Estado se torne ainda mais fechado, e não mais aberto, como supostamente pretende o WikiLeaks.

O vazamento promovido pelo WikiLeaks seria útil se comprovasse que o governo dos EUA mentiu ou distorceu informações ao transmiti-las ao país. Não foi isso o que aconteceu até agora, afirma Gelbs, para quem o episódio não forneceu informações essenciais para uma discussão política crítica sobre como atua a administração americana. Pelo contrário: serviu somente para comprometer a diplomacia e dificultar a possibilidade de soluções pacíficas para os problemas globais, como afirma James Rubin, que foi assessor do governo Clinton e hoje é professor em Columbia. Nesse aspecto, diz Rubin, a ironia é que os “progressistas” de esquerda que aplaudem o vazamento são justamente aqueles que defendem a negociação diplomática para evitar conflitos. Para Gelbs, a violação da confidencialidade diplomática do governo dos EUA é simplesmente “um crime”.