Fidel, o interminável

Marcos Guterman

11 Agosto 2010 | 01h07

Fidel, vivinho da silva

Fidel, vivinho da silva

 

A revista Semana, da Colômbia, fez curiosa retrospectiva das diversas vezes em que se anunciou a iminência da morte de Fidel Castro. Como se sabe, o ditador cubano (alguns o chamam de “ex-ditador”, mas há controvérsias) reapareceu todo pimpão nos últimos dias, depois de ter sido considerado definitivamente fora de combate. Fidel parece ter vencido mais uma batalha contra o vodu dos cubanos exilados em Miami, que começou já em 1960, um ano depois da revolução em Cuba.

Na primeira semana de agosto daquele ano, Fidel adoeceu e os jornais já especulavam sobre sua sucessão. No dia 2, a manchete do Estadão foi “Cuba: Fidel precisa de repouso físico e mental – Rumores de que seria substituído por Raúl”. Depois, no dia seguinte, o tom era ainda mais sombrio: “Sigilo absoluto em torno da situação de Fidel Castro: perdura clima de rumores”.

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Nada aconteceu, claro, além de um forte resfriado. No ano seguinte, 1961, no episódio da Baía dos Porcos, Fidel escaparia da primeira de uma série de tentativas de assassinato tramadas ou patrocinadas pelos EUA e pelos cubanos de Miami. O comandante, de fato, é um sobrevivente – resistiu aos EUA, ao fim da URSS e à desmoralização do comunismo, além do mau olhado: em 1989, como lembra a Semana, a revista Economist chegou a prever o fim do regime comunista em Cuba; três anos mais tarde, o jornalista Andres Openheimer publicou um livro chamado “A Hora Final de Fidel Castro”.

Ignorando tais profecias, o regime não só segue firme, como Fidel superou a grave doença que em 2006 o obrigou a entregar o poder ao irmão Raúl – na ocasião, a revista Time chegou a informar, com base em fontes do governo americano, que o comandante sofria de câncer em “estado terminal”.

O comandante, portanto, resistiu a tudo. Só não resistiu à decrepitude acelerada de seu legado – que em pouco tempo passou de inspiração autêntica na luta contra a tirania na América Latina a uma ditadura sanguinária, que sobrevive com mentiras e que contradiz flagrantemente os valores pelos quais diz lutar.

 

(Foto: Desmond Boylan/Reuters)

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