Como é malvado, esse Obama

Marcos Guterman

01 Maio 2012 | 16h37

O presidente dos EUA, Barack Obama, está sendo criticado por usar a morte de Osama Bin Laden como trunfo eleitoral. Meu colega de Estadão, Gustavo Chacra, foi duro em seu julgamento, ao lembrar que Obama é Nobel da Paz e, no entanto, usa um “assassinato” como “principal bandeira” para tentar se reeleger. Chacra é muito mais informado do que eu, tanto em termos de eleição americana (afinal, é correspondente nos EUA) quanto em relação ao Oriente Médio e à Al Qaeda, já que esteve presente na maior parte dos países da região fazendo excelentes reportagens. No entanto, permito-me a ousadia de contestá-lo.

Em primeiro lugar, não é possível concluir que a morte de Bin Laden tenha sido um assassinato. Se estamos preocupados com as minúcias da lei, é preciso conhecer igualmente todas as minúcias do episódio, e não conhecemos. A versão oficial diz que houve confronto. Mandam o bom jornalismo e o bom senso desconfiar de versões oficiais, mas, por outro lado, é equivocado tirar toda uma série de juízos de valor a partir da mera sugestão de que o governo americano está mentindo.

Em segundo lugar, a questão do “assassinato” de Bin Laden é controversa mesmo entre especialistas em direito internacional. Não há consenso sobre a legalidade da ação, sobretudo porque, para os EUA (inclusive a Suprema Corte), Bin Laden era um “alvo militar legítimo”.

Em terceiro lugar, parece-me um pouco exagerado dizer que o “assassinato” de Bin Laden é a “principal bandeira” eleitoral de Obama. Do material de campanha que pude ver, o presidente está apostando na recuperação da economia, ainda que tímida e inconclusa, porque ele sabe que isso é o que dá ou tira votos. Bin Laden é, digamos, uma cereja no bolo.

E que cereja. Achar que Obama não deveria explorar eleitoralmente a morte de Bin Laden é o mesmo que esperar que o Santos não escale Neymar. É um trunfo vistoso demais para qualquer político, e não vejo razão para que Obama, mesmo sendo “Nobel da Paz”, tenha pruridos em usá-lo. Ademais, Obama não tem culpa se os velhinhos em Oslo resolveram lhe dar um Nobel da Paz antes mesmo que ele fizesse realmente jus – foi uma aposta, que ainda pode ser ganha, porque Obama deve se reeleger, e sua marca pode ser a de ter acabado com as duas guerras que seu desvairado antecessor começou.

Por fim, é hilário ver o Partido Republicano questionando Obama por associar sua imagem ao triunfo sobre Bin Laden. Eram os mesmos republicanos que desde 2001 diziam que, se um democrata assumisse a Presidência, os monstros da Al Qaeda comeriam todas as pobres criancinhas americanas. Eram os mesmos republicanos que declararam “cumprida” a missão no Iraque no distante Primeiro de Maio de 2003 – e a guerra provocada pelas mentiras republicanas, como se sabe, ainda duraria quase dez anos mais.

Obama, por sua vez, cumpriu o cronograma de retirada das tropas do Iraque e, de lambujem, Bin Laden, o inimigo público número 1 dos EUA, está mortinho da silva. Não surpreende que os republicanos estejam tão mordidos.