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Marcos Guterman

06 Outubro 2010 | 10h11

 

O general Sarmento em Gaza, em 1965

 

A Folha desta quarta-feira informa que o Brasil está negociando sua participação no comando da Unifil, a tropa da ONU estacionada no sul do Líbano. Seria, segundo a reportagem, parte da “estratégia do governo Lula de tornar o país um ator relevante na conturbada região”.

Como membro-fundador da ONU, o Brasil tem importante participação nas missões de paz desde 1956, quando integrou as forças enviadas para supervisionar o fim da crise do canal de Suez e garantir o armistício entre Israel e Egito. Após essa experiência, porém, os soldados brasileiros não estiveram em fronts considerados tão estratégicos. Isso não significa que o papel do Brasil tenha sido menos substancial; traduz somente o peso do país e sua capacidade militar, mais adequada a missões na África e no Caribe do que no Oriente Médio.

O governo Lula, porém, parece ansioso para usar politicamente a “volta” do Brasil ao Oriente Médio. A julgar pela reportagem da Folha, que ouviu diplomatas brasileiros, a ideia é mostrar que o país, em seu atual momento de “potência emergente”, tem a pretensão de “ajudar na resolução do conflito Israel-Palestina” e de obter o “reconhecimento de maior estatura internacional”.

O pleito lulista, porém, não para em pé. Em primeiro lugar, o envio de soldados brasileiros ao Oriente Médio, em si, não significa uma demonstração da força nacional. A Unifil é integrada por potências como França e China, mas também por países pobres como Bangladesh e Guatemala. Em segundo lugar, estar “no comando” da Unifil também não é garantia de relevância suficiente para “entrar no jogo” do Oriente Médio, como quer o Itamaraty sob Lula. Um exemplo disso é a própria missão da ONU após a crise de Suez, que teve o general brasileiro Syseno Sarmento como comandante entre 1965 e 1966. Esse fato não conferiu ao Brasil peso maior ou menor na resolução dos conflitos do Oriente Médio – simplesmente porque isso não tem real importância.

A real importância está na capacidade do país de oferecer substância militar às suas palavras diplomáticas. Não existe negociação sem ter como transformar eventuais ameaças em uso concreto da força, que é um elemento legítimo para dissuadir atores recalcitrantes. Nesse aspecto, o Brasil sob Lula se esforça para rugir como um leão, mas é um leão banguela: como diz a reportagem da Folha, a ONU pediu que o Brasil enviasse pelo menos um navio para a frota que atua no Líbano, “mas o Ministério da Defesa reluta, alegando que isso prejudicaria a depauperada estrutura da Marinha”.

Desse modo, o atual governo brasileiro, a exemplo do que ocorreu no teatral “acordo” nuclear com o Irã, parece permitir mais uma vez que suas ambições desmedidas de afirmação histórica atropelem o bom senso e insultem a inteligência alheia.

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