A subversão capitalista do Primeiro de Maio

Marcos Guterman

02 Maio 2012 | 10h00

Uma liquidação promovida no Primeiro de Maio por uma rede de supermercados em Portugal tornou-se um caso digno de figurar em manuais de ciências sociais.

As lojas do Pingo Doce ficaram apinhadas de gente atraída pela oportunidade de comprar produtos com 50% de desconto – bastava gastar acima de 100 euros. Segundo o relato da imprensa portuguesa, houve cenas dignas de “saques em tempos de guerra”. “Parece o fim do mundo”, registrou o Público. “Famílias inteiras enfiaram-se dentro dos estabelecimentos a encher os carrinhos.” Em alguns estabelecimentos, “houve pancada e até facadas” e “foi preciso chamar a polícia de choque”.

O interessante do episódio, à parte as cenas de pugilato e barbárie, é que a promoção do Pingo Doce limitava-se ao Primeiro de Maio, como uma resposta aos sindicatos que haviam convocado um boicote aos supermercados por causa da decisão de abrir no feriado do trabalhador. Os sindicalistas e a empresa já andavam às turras desde que o Pingo Doce resolveu mudar sua sede social para a Holanda, afim de pagar menos impostos, o que foi considerado uma traição pelos nacionalistas de esquerda. “Estamos fartos de grupos económicos que se alimentam de nós como parasitas, destroem o pequeno comércio e nada contribuem para a economia nacional. Não pactuem com o Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce, Recheio) na sua missão de sugar o máximo de capital possível para o estrangeiro e não pagar impostos afundando ainda mais o nosso País. BOICOTE JÁ!”, convocava uma página dos sindicatos no Facebook já em janeiro deste ano.

Quando os supermercados anunciaram que abririam no Primeiro de Maio, houve nova convocação de boicote. “Estimado cliente”, dizia o apelo, “estes trabalhadores estão a ser obrigados a comparecerem no seu local de trabalho no 1º de Maio de amanhã, Dia Internacional do Trabalhador e Feriado Nacional. Apela-se a que nenhum cliente se dirija a este espaço comercial em solidariedade com estes trabalhadores e com o 1º de Maio!”

O que se viu, no entanto, foi o exato oposto: os trabalhadores do supermercado trabalharam muito, enquanto outros trabalhadores, sem um pingo de consciência de classe, metamorfosearam-se em consumidores salivantes e literalmente assaltaram as gôndolas, “numa vergonhosa traição à classe, numa cedência inadmissível à alienação consumista e ajudando o infame capitalismo a mostrar que é possível a confluência de interesses entre classes ditas antagónicas”, como ironizou o blog Blasfémias.

Restou à desolada esquerda portuguesa lamentar a “atitude vergonhosa mas perfeitamente enquadrável no sistémico e habitual jogo sujo, arrogante, perverso dos grandes grupos económicos”.