A “libertação” de Sakineh e a modéstia lulista

Marcos Guterman

10 Dezembro 2010 | 11h41

A notícia da libertação da iraniana Sakineh Ashtiani, anunciada por uma ONG alemã, provou-se precipitada. Na verdade, parece que a situação dela não mudou nem um milímetro – ela continua condenada a ser enforcada por participação no homicídio de seu marido, a quem ela supostamente traiu. O caso, como se sabe, é centro de enorme atenção mundial, graças ao fato de que Sakineh fora primeiro condenada à morte por apedrejamento, sentença de indizível crueldade, justificada por questões religiosas. Enquanto não foi desmentida, porém, a informação da libertação de Sakineh causou comoção, embora não mudasse substancialmente o cenário de desrespeito flagrante de direitos humanos no Irã – há ainda dezenas de condenados a apedrejamento no país, por motivos semelhantes. Houve reticência, no entanto, por parte dos vários governos interessados no assunto. A Casa Branca não emitiu nenhum comentário. França e Alemanha alegaram que precisavam de confirmação. Já o governo brasileiro, apesar de exibir certa cautela, não perdeu a chance de tripudiar sobre os críticos e reivindicar a responsabilidade indireta pela “libertação”.

“É uma vitória dos direitos humanos em geral e confirma que há formas eficientes de vender os direitos humanos que não precisam ser ruidosas”, disse o assessor do presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, sugerindo que foi a “discrição” do Brasil lulista que libertou Sakineh. Como o Irã parece que não mudou de ideia mesmo com a “discreta” mediação brasileira, é lícito considerar que a estratégia, enfim, não funciona com regimes de perfil totalitário.

Garcia aproveitou para defender o “companheiro” presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.  “Esperamos que esse processo prossiga. Acho que revela a sensibilidade do governo iraniano”, disse o assessor. Pois o “sensível” governo iraniano permanece surdo aos apelos de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Por fim, Garcia reafirmou a modéstia que caracteriza o governo Lula: “Acho só que é um acontecimento suficientemente grande para nós querermos nos apropriar dele individualmente”. Ah, bom.

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