Vitória de Eduardo Cunha reflete acerto de contas entre os vencedores de outubro passado

Marco Aurélio Nogueira

02 Fevereiro 2015 | 12h36

O maior problema para o governo não foi a vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, mas o modo como ela foi conquistada.

O deputado peemedebista não só conseguiu obter com folga e em primeiro turno os votos necessários (267, pouco mais que a metade), como soube se defender das investidas pesadas do núcleo duro do Palácio do Planalto, sensibilizando os parlamentares de que seria preciso lutar pela “autonomia” do Poder Legislativo. De quebra, fez com que o PT ficasse completamente alijado da Mesa diretora da Câmara, fato desagradável para um partido que é governo há 12 anos.

Os 136 votos de Arlindo Chinaglia (PT-SP) ficaram longe da soma dos deputados que compõem o bloco que diz sustentar o governo, a base aliada. Situação nada animadora.

A derrota acrescenta alguns gravetos a mais na fogueira que arde em Brasília, a incomodar Dilma. Ruim de articulação política, o governo parece se ressentir também de falta de coordenação. Há muitas cabeças se chocando entre si, pouca capacidade ou disposição para construir pontes: com a sociedade, com as organizações sociais e com os aliados. O governo assiste quase paralisado à revolta, à debandada e às chantagens da base aliada, que foge de sua direção.

Fim dos tempos? De modo algum. Até por ser governo, Dilma, sua equipe e seus apoios têm como seguir em frente, reagir e se recuperar. Têm quatro anos diante de si. Eduardo Cunha não é tudo isso, tem muitos telhados de vidro e não se furtará de adular o governo, prestar-lhe serviços pontuais e facilitar a aprovação de certas medidas. Fará isso mordendo e assoprando, e não sem deixar de produzir algum calor adicional no Planalto. Como declarou após a vitória: “não seremos oposição, nem submissos”. O Planalto, por sua vez, poderá aprender com a derrota e agir para recompor a unidade perdida e conquistar uma “governabilidade” que a cada dia se mostra mais difícil e que exigirá uma postura política que até agora não deu o ar da graça.

Seja como for, fevereiro começou mal para o governo. O que não significa que tenha começado bem para as oposições. Eduardo Cunha não é personagem nem criatura delas. As oposições agitaram as águas, fizeram seu papel, mas não poderão dizer que elegeram um candidato “seu”. O governo tem mais problemas em seu próprio quintal, e pode ser efetivamente prejudicado por ele.

O novo presidente da Câmara é um indicador de que o tão falado “terceiro turno” eleitoral está mais vivo do que nunca, sem que envolva ou dependa de maior protagonismo oposicionista. Trata-se essencialmente de um acerto de contas entre os parceiros que venceram em outubro passado, uns tentando acumular mais fichas do que o outro. Política, em suma.

É um enredo que deixa em suspenso o ano político de 2015.