Suicídio em banho-maria

Marco Aurélio Nogueira

10 Novembro 2017 | 16h09

No interior dos partidos brasileiros atuais, ou de vários deles, a bateção de cabeças funciona como estacas espetadas no coração: ferem e minam as forças das organizações, em vez de revigorá-las.

Travadas sem densidade programática e ideológica, as lutas internas não produzem valor ou agregações superiores. O que deveria ser um choque de arejamento e diversificação, ao final do qual se atingiria uma unidade de melhor qualidade, acaba por se reduzir a meras brigas de correntes. Lutas por poder, pura e simplesmente. Em vez de se purificarem internamente, as organizações são contaminadas por venenos e toxinas que as debilitam.

Nos últimos dias, o pau quebrou feio no PSDB. O partido, que já foi um dos grandes artífices da democratização brasileira, mergulhou na escuridão profunda. Encontra-se sem rumos, entregue a caciques e a lideranças despreocupadas com o futuro da própria legenda. Com Aécio Neves à frente, o PSDB engasga, sufoca e ameaça se desfazer.

Aécio nem sempre foi assim. Jamais teve porte de estadista ou de construtor partidário, mas conseguiu atingir posição de força a partir de Minas. Chegou a ser candidato presidencial em 2014, quando, no segundo turno, encabeçou uma chapa de coalizão que só não venceu as eleições porque houve mais coisas no céu do que aviões de carreira.


A partir das denúncias dos irmãos Batista, porém, ele decaiu a níveis difíceis de serem aceitos por quem se preocupa com a política feita com critérios éticos claros. Submergiu na cena nacional e entregou-se à luta por sua sobrevivência, conseguida a duras penas. Reduzido à condição de morto-vivo, concentrou-se então em fazer do PSDB o seu puxadinho.

Com isso, levou o partido à pior luta interna de sua história, fase na qual ele vai se inviabilizando politicamente. O pior é que fez o que fez com o beneplácito das próprias direções do PSDB, que se omitiram e fizeram vista grossa aos tropeços de Aécio.

Agora, ficou difícil, muito difícil, que os tucanos continuem a se apresentar como alternativa ao PT e ao PMDB. Talvez nem sequer consigam atuar competitivamente nas eleições de 2018. Se nada for feito de vigoroso para promover o reencontro do partido com suas tradições e seu perfil socialdemocrático, não haverá força que impulsione o PSDB. Ele será deslocado para as margens.

Sem o PSDB em boas condições, e com os demais partidos enfraquecidos como estão, diminuem as chances de que se possa ter, em 2018, um polo democrático que impulsione um bom debate democrático e articule uma saída mais razoável para o país. A macro-polarização que se anuncia ganhará contornos catastróficos.

Com a degradação do PSDB, perdem sobretudo os tucanos, Geraldo Alckmin à frente. Mas perde também a democracia como um todo. Sistemas políticos que assistem à decomposição de seus entes estruturadores ficam mais fracos e com menor capacidade de articulação. O país fica sem eixo e de certo modo menos democrático.

Como subproduto, amplia-se o espaço para que se lancem candidatos com a marca do novo, embalados pela expectativa de que combatam o protagonismo de Lula/Bolsonaro e renovem a política. Como e com quais ideias substantivas, ninguém ainda sabe.

Uma possibilidade em aberto apoia-se no fato de que o PSDB tem uma história que, como toda história, teve seus altos e baixos mas que, vista em bloco, foi até aqui mais positiva que negativa. O partido definiu uma identidade e acumulou alguns trunfos importantes, o que fornece um patrimônio que poderá ajudá-lo (e aos 400 delegados que escolherão seu novo presidente em dezembro) a recuperar o fôlego e a sensatez, expurgando o que deve ser expurgado e formulando uma nova e mais substantiva agenda para si próprio e para o país.