Sinais de acordo entre Lula e Cunha criam confusão e alimentam a crise

Marco Aurélio Nogueira

15 Outubro 2015 | 18h07

Muitas fontes noticiaram ontem e hoje que foi posta em curso uma operação destinada a convencer Eduardo Cunha a travar o processo do impeachment de Dilma. Dá-se como certo que o principal agente da operação é Lula, em nome do governo. O ex-presidente quer que deputados do PT fechem acordo com outros partidos da base aliada para barrar a investigação contra Cunha, no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Se o presidente da Câmara aceitar a proposta, os negociadores governamentais prometem ajudá-lo a encontrar uma saída que preserve seu mandato como deputado.

Eduardo Cunha, que de bobo não tem nada, já antecipou sua diretriz de atuação, decodificando e desnudando o eixo da operação desenhada, ao que tudo indica, no Palácio do Planalto. “Se eu for bem tratado, pode ser que tenha boa vontade com o governo, mas, se não for, posso tomar minha decisão mais rapidamente”. Ele diz com todas as letras: se me ajudarem, pode ser que faça corpo mole na questão do impeachment e postergue sua discussão ao infinito. Mas também guarda uma carta na manga: nega tanto que esteja estendendo uma bandeira branca quanto que irá ferir de morte o Planalto. “Não há nem guerra nem trégua. O que há é que eu tenho de cumprir a minha função. Se minhas decisões podem significar guerra para uns e trégua para outros, é uma questão de interpretação. Até agora, não fiz nada diferente daquilo que falei que iria fazer”. Com isso, busca ser cortejado (e, portanto, protegido) por todos.

Pelo noticiário, parece que o governo estaria disposto a abrir tratativas com Cunha para preservar o mandato de Dilma e até mesmo atenuar a pressão política que sobre ela tem sido exercida. O governo certamente saber que as denúncias contra Cunha são graves, mas teme que o deputado  as utilize como pretexto para acelerar a análise dos pedidos para abrir o processo de impedimento de Dilma. Concluiu que terá de escolher entre ficar com Cunha ou correr o risco de brigar com ele e enfurecê-lo.

Não é propriamente uma “escolha de Sofia”, mas está longe de ser algo simples ou fácil de ser efetivado. A manobra de aproximação, além do mais, é arriscada e pode ter efeito bumerangue, com desdobramentos ruins para Dilma e para o País.

Primeiro, porque Cunha não é de se deixar enrolar e tem seus próprios planos de vôo. Quer preservar o mandato, mas de forma ativa, ou seja, sem ficar com a imagem queimada demais e desprovido de oxigênio para seguir em frente e se reaprumar. Ele mesmo já disse que, se cair, será atirando.

Em segundo lugar, porque os articuladores do governo terão de convencer a bancada petista no Congresso e o próprio partido, com seus militantes, suas glórias e tradições. E, por último, porque precisarão tornar a manobra palatável para a opinião pública.

No primeiro caso, pode ser que tudo fique facilitado pelo teor mesmo da negociação: na defesa dos mandatos de Dilma e de Cunha, os interesses tendem a convergir, valendo-se da ideia de que juntos será mais difícil que sejam derrotados.

Mas e quanto ao PT e à opinião pública? Parte importante do povo petista – integrado sobretudo pelos que são mais militantes – considera Cunha um inimigo frontal, tanto porque não é um “progressista”, quanto porque está envolto em coisas inescrupulosas demais. 34 dos 62 deputados da bancada do PT assinaram requerimento protocolado pelo PSOL e pela Rede Sustentabilidade pedindo a cassação de seu mandato. O grito de “fora Cunha” também sai das gargantas do PT, e o partido poderá ter sua imagem ainda mais comprometida se passar a circular abraçado com o atual presidente da Câmara, que do começo do ano para cá tem protagonizado, no palco e nos bastidores, não poucas situações constrangedoras para o governo.

O PT enfrenta sérias dificuldades junto à opinião pública democrática. Está com parte do filme bastante avariada.  Se, em vez de acertar as contas com seus próprios desvios de conduta – com os esquemas ilícitos em que figuras do partido estão envolvidos –, estender a mão para o atual campeão da mentira e da corrupção, acobertá-lo e ajuda-lo a conseguir a absolvição, não se poderá esperar que venha a obter aplausos.

Seria como se o PT vestisse a carapuça em praça pública e assumisse a condição de aliado da corrupção. Ou, ao menos, de um personagem tolerante para com ela. O sinal seria facilmente decifrável: pela manutenção do poder, vale tudo — não somente fazer o diabo, mas também aliar-se com o diabo.