São Paulo é uma cidade magnética, mas se ressente da falta de uma ideia urbana

Marco Aurélio Nogueira

26 Fevereiro 2015 | 20h38

461 anos depois de sua fundação, a cidade de São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo, mas não conseguiu se tornar mais amigável para seus moradores.

É uma terra de encontros e desencontros, sonhos e fantasias, onde o plural se impõe, as culturas se interpenetram e as experiências se multiplicam. Lócus de chegadas e partidas, de vidas que se cruzam e se prolongam no tempo, gerações após gerações, misturadas com existências fugazes, impermanências e deslocamentos incessantes. São Paulo é amada e odiada, vivida como objeto de desejo e temor, um circuito de anonimatos repleto de sucessos surpreendentes e celebridades instantâneas, que vão e vêm.

Tem tudo para dar certo, a começar da pujança econômica, do dinamismo cultural e da centralidade que ocupa no mapa político do país. É uma cidade continental, referência internacional. Mas segue à deriva, imune a tentativas de planejamento, submetida a caprichos políticos e gerenciais, a arranjos inconsistentes e à falta escandalosa de políticas públicas, como um gigante que todos temem e não se dispõem a enfrentar. Com o passar do tempo e a cristalização de suas lacunas, a cidade foi-se tornando inimiga de si mesma.

Tudo nela é difícil, caro e cansativo, a começar do lazer e do “bem viver”. O paulistano é um forte, vive num vácuo de solidariedade sustentável. Não faltam espaços para a convivência, mas eles são disputados palmo a palmo: primeiro com a especulação e os negócios, depois com o privatismo elitista e os automóveis, e por fim os cidadãos disputam-nos entre si. Filas, congestionamentos, esperas intermináveis, mau atendimento, amontoados, desgastes, custo. E o barulho permanente, sempre e em todos os lugares, a roubar o sossego, como se o silêncio estivesse proibido ou tivesse perdido “valor de mercado”.

Cidades costumam ser comparadas, determinismos históricos à parte. O preço de um ingresso de cinema, de uma refeição, de um bilhete de metrô, o tempo que se gasta em deslocamentos, a oferta cultural, o desenho urbano, a postura dos policiais, a linguagem dos moradores, o modo como lidam com o estrangeiro e o turista — tudo serve para que se perceba a qualidade de vida em cidades diferentes.
São Paulo não sai bem neste tipo de fotografia. Ganha somente de cidades particularmente problemáticas. Perde de goleada quando comparada com municipalidades de ponta em termos de vida urbana: Paris, Berlim, Barcelona, Amsterdam, Nova Iorque, mas também Buenos Aires, Bogotá e Montevidéu, bem consideradas as diferenças de escala.

Há cidades mais amigáveis, outras menos. O que as distingue é o modo como a vida nelas transcorre. As mais amigáveis são as que se abrem para as comunidades e as pessoas, que as convidam para uma celebração coletiva na qual cada um possa circular, usufruir, contemplar, aprender e crescer, ser o que deseja ser, sem muitos custos adicionais. São cidades eminentemente pedestres, com calçadas seguras, automóveis submetidos ao fluxo e ao ritmo das pessoas e do transporte coletivo, que funciona sem muita reclamação. Cidades em que se pode circular sem medo, ainda que com a devida precaução. Cidades plurais, nas quais a tolerância, o reconhecimento da diversidade dos outros e a valorização do que há de comum nas experiências socioculturais andam de mãos dadas.

Cidades não nascem amigáveis: precisam lutar para ficarem assim. Podem se beneficiar de tradições comunitárias seculares, mas não se consolidam sem empenho coletivo e intervenção pública democrática, política cultural e educacional. Não são cidades sem problemas, desigualdades, tensões ou segregações. No mundo do risco, do capitalismo intensivo e do mal-estar em que se vive hoje isso, aliás, seria impossível. Elas também têm suas negatividades, seus defeitos de origem, suas periferias injustas e humilhantes. A diferença é que contam com uma corrente sanguínea de onde emanam vida cívica e parâmetros para o conjunto.

Já as cidades inimigas primam pela hostilidade e pelo alto custo existencial. Também elas não nascem assim: tornam-se. Por carência de políticas e movimentos comunitários sistemáticos, por estragos derivados de guerras atrozes, pela perda de oportunidades, pela falta de lideranças democráticas, pelos azares históricos, por excesso de mentalidade especulativa.

Cidades são filhas da História. Nas metrópoles atuais, o tempo livre encurtou, o lazer virou espetáculo, o mercado e o consumo ganharam força descomunal, tudo passou a ser agendado. Seria estranho se isto não se refletisse nas ruas. Os jovens têm menos autonomia, os encontros se dão mais em shoppings que nas praças, já não se brinca fora de casa, da escola ou de espaços controlados. A espontaneidade e a convivência aberta, geradoras de surpresas e encontros inesperados, praticamente desapareceram. Há conflitos disseminados e violência em excesso.

Por isto mesmo, todas as cidades passaram a ficar dependentes de políticas que promovam a vida urbana – urbe: civitas: polis – e a reinventem de modo continuado. Aquelas que sabem forjá-las e adotá-las, adquirem outra qualidade.

São Paulo não é seguramente um caso perdido. Há muito nela que aponta para o futuro e é disto que a cidade extrai boa parte de seu magnetismo. Mas uma cidade que olha para o futuro sem mapear adequadamente o presente em que pisa e sem valorizar de onde veio, arrisca-se a ter um futuro vazio, interposto como uma órtese às suas realidades urbanísticas e existenciais excruciantes.

Aos 461 anos de vida, São Paulo está carregada de trunfos e coisas positivas. O que falta nela são políticas continuadas, uma ideia urbana que sirva de matriz geradora e produza adesão popular, servindo assim de parâmetro para a conquista da cidade pela população. Não é somente um problema de bons ou maus governos. Mas sim de arte política superior: construção de uma cidade como pacto de convivência.