Ruas têm vozes dissonantes mas confluem para um ponto principal

Marco Aurélio Nogueira

05 Dezembro 2016 | 19h23

É sempre igual. Depois de qualquer manifestação, faz-se a contagem dos que delas participaram e, a partir daí, especula-se sobre o efeito que terão na dinâmica política do país. Chuta-se muito, porque é quase impossível não haver uma disputa sobre quantos manifestantes foram às ruas e, também, porque nem sempre o importante é o número.

De 2013 para cá, período rico de protestos, outros temas passaram a frequentar as análises.

Um é o papel da Rede Globo e do jornalismo em geral. Sobretudo nas leituras feitas por parte da esquerda, a “grande mídia oligopolizada” responderia pelo sucesso ou pelo fracasso das manifestações – sim, justamente ela, que seria a maior interessada na continuidade do “golpe” que se abateu sobre o país, ou seja, no “golpe dentro do golpe”. Tudo não passaria de uma grande conspiração.

Outro é o da classe média. Não a nova, mas a tradicional, que segundo alguns analistas teria se convertido de vez ao “reacionarismo” e estaria a fazer das manifestações sua pista de decolagem. Personagem golpista por excelência, ela seria a base de toda a maldade que estaria sendo descarregada sobre o PT e os progressistas, vistos em bloco como a encarnação maior da pureza e vítimas principais da reação antidemocrática.

Um terceiro tema é o da descoberta do “morismo”, expressão com que se pretende estigmatizar e ridicularizar o apoio que uma extraordinária maioria de brasileiros tem dado ao combate à corrupção. Desconfia-se de Moro porque se o vê como um inquisidor antipetista disposto a sacrificar a Justiça no altar de seus interesses pessoais. Muitos especulam que ele será candidato em 2018, impulsionado pelo movimento anticorrupção e contra os políticos. Não há base na especulação, mas ela avança em marcha batida.

Fala-se por isso de “antipolítica”, como se a cidadania que vai às ruas estivesse toda ela de costas para o Estado e a comunidade política. Como se fosse individualista e autocentrada, egoísta e ultra neoliberal, só preocupada em defender o próprio interesse.

A simplificação analítica tem mostrado o quanto pesam hoje, no campo chamado de progressista, o fígado e o ressentimento. Tem havido mais ideologia que esforço de compreensão. Torce-se para que o fogo queime o Palácio e leve consigo o governo Temer. Seria preciso vingar Dilma, Lula e o PT. A suspeita é que, por detrás de tudo, estariam o PSDB, o PMDB, o DEM, o juiz Moro e o MP, a PF, todos amarrados pelos interesses da Globo, da grande mídia e do capitalismo internacional. Para combater e denunciar essa articulação perversa, vale tudo, até mesmo aliviar a crítica aos parlamentares corruptos e hostis à Lava Jato.

Até prova em contrário, é primária a posição dos que veem nas ruas uma invasão das classes médias situadas à direita. É banalizar algo complexo e abrangente, que passa pela nova sociabilidade e pelo novo modo de vida que está aí, assim como pela reconfiguração do trabalho e do emprego, pela fragmentação social e pelo impacto que tudo isso tem na estrutura de classes. É deixar de reconhecer que a democracia atual assume formatos inusitados e demandas de novo tipo, e que as ruas também refletem expectativas sociais ampliadas, muitas das quais abertas à esquerda.

Sim, as ruas estão abertas a temas caros à esquerda. Mas não a uma esquerda saudosa de uma época em que as classes eram territórios claramente demarcados, dos quais partiam as matrizes que organizavam a política. Defesa da democracia, liberdade de movimentação e questionamento, luta contra a corrupção, regulação da economia, controle social do poder, combate ao Estado todo-poderoso, defesa da Lava Jato, depuração dos partidos e da classe política, firmeza governamental, reforma política — são demandas que emulam os melhores programas da esquerda democrática mais avançada. Os manifestantes não sabem disso, mas é assim.

É por isso que dá perfeitamente para dizer que estão a confluir para as ruas grupos, pessoas e correntes que não cabem nas caixinhas da esquerda e da direita, ou na ideia pobre de golpe e conspiração.

As ruas de ontem reverberam vozes dissonantes. Houve quem, pela margem, gritou pela volta dos militares. Mal foram ouvidos. Houve quem foi às ruas para defender um Judiciário mais forte, outros foram para criticar os juízes pelos altos salários que recebem. Houve os que desancaram os políticos e o Legislativo, flertando com um mundo sem representantes ou com cidadãos plenamente “empoderados”. Falaram alguns contra o PT, Lula e Dilma, outros contra Renan e Rodrigo Maia, jogaram tomates no retrato de Requião e levantaram bandeiras contra os que querem fazer leis que criminalizem o “abuso da autoridade” de juízes e procuradores.

A flexibilidade multicolorida da agenda teve a cara da sociedade atual, de múltiplas identidades e fragmentação intensiva, em que cada pedaço se vê como um todo. O elo de ligação, porém, esteve o tempo todo presente. As pessoas estão irritadas, pondo pra fora seus demônios e seu cansaço, mandando recados enfáticos aos políticos e aos ativistas: ouçam-nos, levem em conta nossa força e nossa voz. Queremos mexer no modo como se governa, no modo como são usados os recursos públicos e definidas as políticas, queremos ser ouvidos no conflito distributivo, queremos que a riqueza seja gerada mas beneficie o maior número, não só os capitalistas, queremos menos desigualdade, menos privilégios e o fim da corrupção na política e na gestão.

Os democratas, mais progressistas ou menos, estão agora diante do desafio de decifrar esse enigma. Que consigam abrir os olhos para a nova dinâmica sociopolítica que veio para ficar, que saibam traduzi-la em termos políticos e organizacionais para dar um sentido, um rumo, à massa que se pôs em movimento.

Basta de olhar fixo para os próprios umbigos e ficar fabulando sobre o momento mais adequado “para ir ou voltar ao poder”. Não dá mais para se dissociar da agenda que contagia a sociedade. Especialmente os que se veem como vanguarda do progressismo deveriam sair do vale de lágrimas da tragédia que se abate sobre a esquerda e voltar à praça pública com humildade e espírito democrático.