Precisamos falar do PMDB

Marco Aurélio Nogueira

29 Abril 2016 | 18h43

O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff acentuou a imagem negativa do PMDB junto a diversos setores da opinião pública democrática.

Já não se via com bons olhos a existência e a atuação política dos peemedebistas, quase sempre identificadas com práticas clientelistas e fisiológicas dedicadas a acumular recursos de poder e interpretadas como parte de uma operação voltada para “suavizar” e conter a democratização do país. Esta imagem negativa foi agravada, agora, pelo sucesso relativo da versão que atribui ao PMDB – e particularmente ao deputado Eduardo Cunha e ao vice-presidente Michel Temer – intenções golpistas, conspiradoras e de alta traição, invariavelmente acompanhadas da ênfase nos crimes de corrupção e nos desvios de conduta do primeiro, fatos estes que transformaram o presidente da Câmara no parlamentar mais malvisto do país, de peso problemático e nefasto na política nacional.

Aprovado o encaminhamento do impeachment ao Senado e com o avanço das articulações de Temer para formar um novo governo, um terceiro fato passou a rondar o PMDB: o de que estaria a ser articulada uma manobra para livrar Eduardo Cunha de uma cassação que todos os indícios mostram ser inevitável. Empossado o novo governo, tudo estaria a ser organizado para absolver o deputado, quem sabe ao preço de seu afastamento da chefia da Câmara. Seria um elemento adicional a “provar” o golpe peemedebista, outra demão na imagem negativa do partido.

Independentemente de se avaliar quanto há de verdade neste terceiro fato, pode-se dizer que a imagem do PMDB é o resultado tanto do real papel que o partido tem tido na história política brasileira, quanto de avaliações de caráter imediatamente político, passionais, ideológicas, dedicadas a deslegitimar a conduta peemedebista no momento atual, em que ele poderá ser investido de uma função política elevada. Ao lado de uma disfarçada admiração pela resiliência, pela capacidade estratégica e pela força de um partido que abriu mão da conquista da Presidência para ocupar importantes espaços no plano estadual, regional e municipal, manifesta-se um ora arrogante e ora preocupado desprezo pelo pragmatismo da atuação peemedebista. A posição ocupada pelo PMDB na arena política chama atenção e intriga, especialmente porque o partido não sai de cena, mesmo quando assume a condição de coadjuvante. Tem sido cortejado e temido por todos, não vacilando quando seus interesses, seus cálculos e sua visão do mundo indicam que deve desembarcar de um governo e embarcar em outro ou permanecer ancorado em porto seguro, à espera de uma nova viagem.

Tão expressiva tem sido a presença do PMDB na política brasileira que é impossível contar a história dos últimos 40 anos sem dar o devido destaque à atuação peemedebista. O partido agregou parte expressiva da elite política, modelou o sistema político e contribuiu para formatar a cultura política que acompanhou a democratização a partir dos anos 1980. O filósofo Marcos Nobre, por exemplo, chegou ao ponto de chamar de “pemedebismo” o estilo de pensamento e ação que vem governando o Brasil, por sobre os governos eleitos, de modo a moderar, conter e controlar as pressões sociais, bem como a garantir a reprodução de uma elite política de perfil bem definido.

Não se trata de uma elite conservadora ou escravizada pelas elites econômicas. Articulando-se ao longo do tempo muito mais com as classes médias e com importantes segmentos das massas populares, ela cresceu e se consolidou exibindo marcas de progressismo moderado, que não travou a modernização do país ainda que não tenha trabalhado pelo atendimento das demandas mais estruturantes e vitais dos setores subalternos ou por alguma modalidade de “radicalização” da democracia. Tem sido uma elite que coordenou a versão brasileira da “revolução passiva” gramsciana. Ou, para usar a engenhosa fórmula de Marcos Nobre, que pilotou uma curiosa forma de “imobilismo em movimento”, que encapsulou o processo político e o manteve sob controle, impedindo-o de se democratizar mais e de se abrir mais para a sociedade. Construiram-se assim as bases de um macro projeto de poder, que trouxe consigo um mal explicitado, porque camuflado, projeto de Estado e de sociedade.

Não há como, portanto, deixar de falar do PMDB.

Falar do PMDB é falar do caráter da democratização brasileira, do processo que nasceu nas dobras da luta contra ditadura e criou condições para sua superação mediante um longo e exaustivo ciclo de negociações, pactos e entendimentos entre forças políticas. Muito da opinião contrária ao PMDB, aliás, reflete a dificuldade que parte dos democratas sempre teve de entender e aceitar a “lógica” e o ritmo da transição democrática.

Falar do PMDB deveria, também, significar vê-lo como algo mais que um bando de aproveitadores. O partido é um sobrevivente, aprendeu a vender apoio, aprofundou sua estrutura de “partido-ônibus”, inchou e se disseminou pelo país inteiro. Não tem fisionomia muito clara, é uma federação de correntes que nem sempre se entendem e que travam a elaboração de uma personalidade programática ou doutrinária.

Muita gente torce o nariz para isso. Os que foram às ruas contra Dilma também falaram contra Temer e os peemedebistas. É usual associar o PMDB a Cunha e a Renan, duas das figuras mais problemáticas da República atual, para dizer o mínimo. Há alguma injustiça nisso, pois o que tem havido de positivo na trajetória do partido termina por ser sumariamente ignorado, como se todos os peemedebistas fossem asseclas do presidente da Câmara. Mas é assim que as coisas estão e o PMDB terá de se esforçar um pouco mais para escapar desta estigmatização.

O PMDB tem sido um fator de equilíbrio na política brasileira. Um personagem conciliador. Não é pouca coisa. Em boa medida, tem feito isso em sintonia com o que vem prevalecendo na política nacional: o fisiologismo, a compra-e-venda de apoios, a administração “passiva” das pressões sociais, as coalizões sem perfil programático, a busca obsessiva pelos benesses e pelas prebendas do governo. Faz o que todos fazem, mas beneficiando-se de sua porosidade nacional e de seu estilo catch all you can de atuar. Se a política tem sido fortemente fisiológica, com coalizões sem caráter, todos os partidos foram contaminados por isso, moldaram-se ao quadro geral e, em boa medida, submeteram-se ao magnetismo peemedebista. Ou será que, hoje, daria para dizer que o PT ou o PSDB são menos “aproveitadores” que o PMDB? A chave seria descobrir o que estes iguais têm de diferença entre si, o que cada um pode fazer que os outros não podem ou o que cada um pode fazer melhor que os outros. Ou pior.

Tanto é assim que o PMDB tem se aliado com igual entusiasmo e idêntica cautela seja com petistas, seja com tucanos. Sua ascensão ao primeiro plano da política brasileiro foi impulsionada pelas alianças que entabulou com os governos do PSDB e do PT, inclusive no plano estadual e municipal. Trata-se de um mérito que não devia ser diminuído. E dada a crise de hegemonia em que nos encontramos – situação na qual nenhum partido consegue atuar como dirigente intelectual das forças sociais nem deter condições políticas de prevalência sobre os demais –, relações e articulações entre peemedebistas, petistas e tucanos, com ampliações em direção ao PP, ao PSB e ao PSD, conforme o caso, tenderão a fornecer o pouco de estabilidade e governança que se pode esperar nos próximos meses.

Em suma, a democracia brasileira continua a necessitar do PMDB, e é boa política não bater em excesso nele, sem avaliar bem o que ele terá a nos oferecer.

Ainda não há, por exemplo, um “Plano Temer” à disposição. O pós-Dilma é uma incógnita. Há a “Ponte para o futuro” lançada meses atrás pelo PMDB e algumas entrevistas dadas aqui e ali por próceres peemedebistas ou por intelectuais de outros partidos ou sem partido (Serra, Ricardo Paes de Barros, Samuel Pessoa, por exemplo), mas nada disso configura um programa de governo, que terá de ser forjado a partir de um conjunto muito mais amplo de forças, caso prevaleça a ascensão do partido ao primeiro plano. Uma grande negociação nacional será inevitável.

Parte do nó atual, aliás, está justamente aí. Entre um “Plano Temer” desconhecido e as medidas de ajuste neoliberal que o governo Dilma tenta desde o ano passado adotar, com os efeitos que estamos vendo, a escolha é trágica. Temer não é uma variável independente, solta no ar. As articulações que está fazendo e vier a fazer revelarão seu retrato, mas tudo ainda será cozinhado nos bastidores. O problema é que um eventual “Plano Temer” depende do impeachment, de seu ritmo e de seus prazos. O tempo não é propriamente seu aliado. Em algum momento, as questões terão de ser postas com maior clareza na mesa, por todos os envolvidos e interessados.

Tudo é incógnita hoje. Há dúvidas sobre o impeachment, sobre como o governo Dilma se arrumará se sobreviver, o que fará se a presidente for afastada, quem será oposição e se haverá oposição, quanto durará um governo Temer. Novos fatos poderão surgir e fazer com que o vento sobre em direção inesperada.

Se o barro de que é feita Dilma contivesse densidade política, se ela não tivesse cruzado o Rubicão nas eleições de 2014, se o PT tivesse atuado como partido moderno de esquerda, capaz de dialogar com a sociedade plural e “líquida” que está aí, a atual presidente teria empreendido uma política de “entendimento nacional” já no início do ano passado. Estaria hoje comandando a abertura de um novo ciclo político, levando o país a dar um passo à frente. Infelizmente, ela não é assim. Não há o que fazer. Tentaram melhorar as coisas trazendo Lula para o centro do palco, mas ele chegou já desgastado, sem poder exibir a mesma força de antes.

Com ou sem impeachment, comeremos o pão que o diabo amassou ao menos até 2018. O drama, porém, não será igualitário. Todos terão de abrir mão de alguma coisa, mas uns perderão mais do que outros. A esquerda, em particular, tenderá a experimentar maior sofrimento, pois precisará digerir os erros que cometeu e processar as culpas que lhe serão atribuídas pelo que ocorreu no ciclo em que esteve no governo. Sua autocrítica terá de ser profunda, sonora, grandiosa. O que é sempre difícil e doloroso.