Precisamos conversar sobre o Lula

Marco Aurélio Nogueira

13 Julho 2017 | 18h23

Até as pedras sabiam que Moro condenaria Lula. Mas a divulgação da sentença, ontem, reverberou intensamente, gerando uma onda de manifestações de solidariedade ao ex-presidente, a que se seguiram outras de comemoração do fato.

Em termos imediatos, a sentença de Moro serviu para Lula aumentar a pressão sobre o PT. Se antes ele dizia que não havia reivindicado nenhuma candidatura, agora sua posição é a de postular claramente a Presidência da República em 2018. Para ele, somente o povo “tem o direito de decretar o meu fim”.

Lula quer ser abraçado mais uma vez pelo PT e pelas correntes de esquerda que orbitam o partido. Não aceita menos que isso. Quer ser paparicado, idolatrado, fazer o partido girar em torno dele, prestar-lhe homenagens e reverências. Mais ou menos como fez Gleisi Hoffman ontem, ao enxugar carinhosa e emocionada o suor do líder. Um gesto bonito, mas pouco comum em partidos democráticos de massa. Tem sido assim que Lula vem construindo sua vitoriosa trajetória política.

Uma coisa é prestar solidariedade a um companheiro ferido ou abatido em pleno voo. Outra coisa é avaliar com frieza o quadro geral, ver em que medida ele obriga a que se façam eventuais correções de rota. Solidariedade é paixão, análise fria é razão. Podem e devem se completar, mas a relação entre elas precisa ser sempre bem estabelecida.


A condenação de Lula tem carga suficiente para levar petistas às ruas em nome do que consideram ser uma “perseguição política” ao chefe. A bola vem sendo cantada há anos e ganha agora um combustível adicional. Condenado, Lula não será preso: foi premiado com o direito de recorrer em liberdade, por receio do juiz de acender uma fogueira incontrolável. Com isso, Lula continuará a fazer o que sabe, incrementando ainda mais sua subida aos palanques, que se converteram em sua principal boia de salvação. Mas terá de se explicar mais, o que não o ajuda.

Uma leitura possível poderia sugerir que a aposta é que a exposição pública de alguém maculado por uma condenação de corrupção seguirá via descendente. A cada dia o prestígio de Lula diminuirá um pouquinho e seu magnetismo será em parte consumido pela necessidade de justificar a condenação.

Ele poderá, claro, dizer que Moro mostrou ter medo dele, ao deixá-lo em liberdade. Mas dificilmente os fatos comprovarão a tese. Até porque outras condenações deverão vir.

Para os defensores de Lula, a melhor hora é agora, antes do julgamento do recurso, coisa que, de resto, poderá levar um bom tempo. É preciso mostrar ao mundo o tamanho da “injustiça flagrante” e do “absurdo jurídico” com que pretendem afastar Lula da política. Fazer de Lula um mártir, o maior de todos os heróis do povo brasileiro, vítima preferencial das elites predadoras.

Deste ponto de vista, será inevitável a retomada da polarização: nós, os justos, contra todos os demais, os perversos golpistas. O próprio Lula deu o tom: “Estavam condenados a me condenar.  Não é o Lula que pretendem condenar, é o projeto político que eu represento”. Acontece, porém, que esse projeto não é claro, nunca chegou a ser propriamente apresentado. Ele soa como música aos ouvidos do povo pobre, que o identifica com acesso a bens materiais, estrada aberta para uma tão sonhada chegada à “classe média”. E empolga a militância, que acredita que há ali um germe de anticapitalismo, coisa que de resto nunca esteve perto de Lula. Mas cada um acredita no que pode.

Acontece, também, que agora as circunstâncias são outras, muito diferentes da fase de ascensão dos anos 2000. O PT e as esquerdas que o orbitam estão isolados, em baixa, e precisariam se preocupar em reativar algumas alianças, para romper o cerco e não ficarem tão na dependência do desempenho de Lula nas urnas. Quanto mais, para defender Lula, se esmerarem em atacar os outros, mais difícil será sair do isolamento e piores serão os prognósticos eleitorais.

É o momento, portanto, em que a solidariedade precisa ceder espaço para a racionalidade. As esquerdas lulistas deveriam começar a por em dúvida a estratégia seguida até aqui. Indagar se é produtivo manter Lula no centro de tudo, como o sol que a tudo e todos ilumina, figura intocável alguns degraus acima dos demais. Seria o momento para mostrar ao mundo que um partido é maior que seus integrantes, sejam eles quem forem.

Enquanto Lula permanecer magnetizando tudo, ele arrastará consigo o que resta do melhor PT. Entre outras coisas, porque isso impedirá que o partido reflita sobre si mesmo, descubra o que o fez degenerar, elabore a questão moral e assimile a crítica da corrupção, abrindo espaço para a emergência de novas lideranças e de uma política não personalista.

A condenação de Lula não é o fim de Lula, nem significa sua inelegibilidade. Seu destino pode passar pelas urnas de 2018, mas está mesmo nas mãos dos petistas que ainda cogitam ter um partido de massas efetivamente democrático e reformador.