Postulações políticas podem ser tempestades de verão

Marco Aurélio Nogueira

05 Setembro 2017 | 16h08

Todos dão como certa a ascensão meteórica e invencível de João Dória como candidato presidencial. Em nome do direito à dúvida, deve-se relativizar a constatação.

Uma coisa é o desejo de protagonizar a próxima disputa eleitoral e de se tornar Presidente da República. Outra coisa, bem diferente, é conseguir isso. Uma coisa é se achar bem preparado para o cargo, outra coisa é ser assim visto pelos eleitores. Uma coisa é ter à disposição recursos financeiros e dotes comunicacionais e operar com desenvoltura no mundo das redes e das mídias. Outra coisa é fazer com que tudo isso se converta em recurso político efetivo. Uma coisa é ter uma imaginação (uma fantasia, um projeto) suficientemente apurada para bolar uma estratégia de conquista do poder, outra coisa é interagir criticamente com a realidade, aproximar-se dela com inteligência a ponto de flexibilizar a própria imaginação e viabilizá-la.

Dória quer fazer política sem se proclamar um político. Há um quê de narcisismo nessa postulação, que vem embalada por uma ideia quase mágica de ser “diferente”. É uma manobra arriscada, que tem um efeito colateral não desprezível: poderá provocar decepção em parte de seu séquito. Basta que comecem a ganhar fôlego os mesmos procedimentos tidos como típicos dos políticos, a simulação, a dissimulação, a demagogia, o cinismo, as promessas vazias, os jogos performáticos com segundas intenções. É um risco real, que levaria seus seguidores a perder a confiança no verdadeiro poder de fogo do líder.

Desse ponto de vista, Dória está em boa companhia. Todos os políticos correm idêntico risco. A diferença é que somente ele está a se proclamar “não-político” e, nessa medida, é o único a poder perder votos por sair do quadrado em que fixou raízes.

Seu capital político, por outro lado, depende do desempenho que exibir na Prefeitura de São Paulo, que funciona como um laboratório para dar acabamento à persona de candidato. Se entregar menos do que prometeu, terá dificuldades para persuadir e convencer. Obrigando-se a encurtar o mandato para poder concorrer, o tempo lhe será madrasta e não o ajudará.

Dória emergiu na vida política como uma tempestade de verão. Está se movendo ao som de muitas e sonoras trovoadas, seguidas ou não de raios e relâmpagos flamejantes. Nem todo ruído, porém, prenuncia boas coisas. Tempestades de verão causam estrago e assustam, mas nem sempre fazem cair a temperatura, mesmo porque os ventos por elas provocados não são brisas apaziguadoras.

Postulações políticas aprisionadas pela imaginação e desatentas à sinuosidade surpreendente da realidade, à “verdade’s efetiva das coisas” de que falava Maquiavel, costumam desencadear forças que não conseguem ser controladas.

Os ventos agitados pelas asas de Dória podem não levá-lo tão longe quanto se pensa, mas é inegável que são suficientes para alvoroçar o ninho tucano.

Ao abrir disputa no PSDB, Dória está obrigando o partido a lidar com seus recorrentes demônios internos. Ao fazer isso, poderá fazer com que a autodefesa partidária se manifeste. Ele está oferecendo ao partido um encontro com a hora da verdade. Posto à prova, o PSDB terá de se desdobrar para mostrar que ainda é um partido que respira ou um arremedo organizacional ao alcance de qualquer encantador de serpentes. Por uma porta ou por outra, a repentina entrada em cena de Dória prestará um serviço.