O Dia do Trabalho e os sindicatos

Hoje a data tem pouco magnetismo, é mais festiva que política ou simbólica

Marco Aurélio Nogueira

01 Maio 2018 | 13h08

O 1º de Maio sempre foi uma data dos trabalhadores. Data de luta, de política, de memória e homenagem, de defesa de direitos e de uma identidade. As esquerdas fizeram dela um de seus principais pontos de referência. A democracia política como um todo também.

De algumas décadas para cá, lentamente, a data foi perdendo magnetismo e significado, tornando-se mais festiva que política ou simbólica. Shows musicais viraram prática usual, assim como o sorteio de carros para atrair a massa e impulsionar uma mobilização cada vez mais difícil e custosa. O 1º de Maio diluiu-se.

Há uma explicação básica para o fato. É que o capitalismo globalizado e de alta tecnologia alterou a configuração da sociedade de classes, fazendo com que o trabalho perdesse a centralidade que tinha antes. Crises sucessivas, desemprego estrutural, automação e robotização, novas profissões, formas alternativas de emprego e atividade produtiva foram “desconstruindo” a classe operária, roubando-lhe projeção e capacidade de referenciar o conjunto dos trabalhadores.

Tem sido assim não somente no Brasil. Passa-se algo parecido em outros países, mesmo naqueles em que as tradições operárias e de esquerda são fortes e enraizadas, como por exemplo a Itália. Lá também o 1º de Maio deixou de ser uma “festa do trabalho” para se converter numa festa a mais. Um feriado em que muitos trabalham, em casa, em microempresas, em atividades autônomas, em escritórios ou dirigindo automóveis.

No Brasil, país que associou fortemente o mundo do trabalho ao Estado e às instâncias governamentais, a inflexão teria de ser mais acentuada. Por aqui, a própria estrutura sindical complicou o futuro, dificultando a organização na medida mesma em que o trabalho se fragmentava.

Enfraquecidas pela crise, pela perda de base social, pela reforma trabalhista e pelas piruetas político-partidárias de suas lideranças, as entidades sindicais ficaram sem força para alterar a situação. Ficaram, também, sem um programa claro de luta com que nortear os trabalhadores cada vez mais diferenciados e fragmentados. Seu poder de pressão declinou. Aos poucos, as categorias que haviam estruturado o movimento sindical foram sendo reconfigurados e vendo sua força reduzir-se. Primeiro os bancários, depois os metalúrgicos, para ficar com os dois mais poderosos. Foram sendo substituídos por dezenas de sindicatos de servidores públicos. Até aposentados criaram suas entidades.

Nesse ano de 2018, o parafuso deu mais uma volta. As centrais sindicais uniram-se num ato em Curitiba, numa articulação rara, que deveria ser motivo de comemoração. Resolveram fazer do ato um protesto contra a reforma trabalhista e contra a prisão de Lula. Transformaram o evento num palanque eleitoral, sob o pretexto de prestar solidariedade a um ex-presidente que teria saído das entranhas da classe operária. Data a dramaticidade do momento, não é difícil imaginar como os dois pontos da pauta serão hierarquizados. Tendo em vista as dificuldades do sindicalismo, é até compreensível que a luta por Lula ganhe destaque.

Poderá ter alguma ressonância. Mas também revelará que a união sindical está sendo buscada em um terreno arenoso, que dificilmente produzirá uma efetiva unidade. Os sindicatos terão de ir além, interagindo reflexiva e politicamente com as circunstâncias complexas do mundo atual.