Na passagem do ano, Temer, Alckmin e Dória mostram que 2017 será difícil

Marco Aurélio Nogueira

31 Dezembro 2016 | 14h27

Pode ter sido erro de comunicação, decisão gerencial atabalhoada, demagogia ou ato antidemocrático. O mais provável é que tenha sido uma síntese disso tudo.

Depois de terem trombeteado que congelariam a tarifa básica de ônibus, trem e metrô em R$3,80 na Grande São Paulo, o governador do estado Geraldo Alckmin e o prefeito eleito João Dória decidiram aumentar em 14,8% o preço do bilhete integrado ônibus-trem-metrô. Na versão mensal, o aumento foi de 30%. Numa só penada, afetaram cerca de metade dos usuários da rede de transporte na cidade. E introduziram um vetor de desorganização no sistema integrado.

Os governantes mentiram para a população, dando com uma mão o que tiraram com a outra. A explicação é que precisavam manter a “saúde financeira” do sistema, fazendo com que certos usuários arcassem com o aumento para que outros se beneficiassem. Os gestores dizem que mesmo assim o sistema terá de ser fortemente subsidiado, o que sugere que outras medidas poderão ser tomadas. Tipo suspender a gratuidade para idosos e os descontos para estudantes.  Como não esclareceram de onde virá o dinheiro para arcar com os subsídios, pode-se suspeitar que alguns cortes serão feitos em outras áreas governamentais.

Independentemente das eventuais “más intenções” que podem ser associadas ao ato, ele demonstra de forma cabal o que não devem fazer gestores responsáveis. Custava terem feito a comunicação com maior respeito à inteligência dos cidadãos? Custava terem explicado tudo de uma só vez, sem querer faturar uma medida simpática para depois, na calada da noite, atuar para relativizá-la? Que tipo de artimanha é essa?

Do ponto de vista gerencial, a decisão terá impacto no bolso das pessoas e no próprio sistema. Parece ser maldade pura, praticada para permitir que os gestores posem de “justos e generosos”. Revela uma mentalidade contábil mesquinha, feita com os olhos distantes do interesse coletivo e da vida das pessoas. Um modo de fazer política que caminha de costas para o futuro e se mostra hostil à ética pública.

Despojados das vantagens da integração, muitos usuários sobrecarregarão os ônibus, que já são horrorosos na cidade. Os gestores podem ter desejado incentivar a que se utilize de modo mais intenso o transporte desintegrado, o que pode gerar mais caos no sistema. Se puderem pagar menos para fazer os deslocamentos, os usuários não privilegiarão os bilhetes mensais integrados, que são essencialmente viabilizadores de formas inteligentes de integração. O sistema perde em fidelização e racionalidade, os ônibus perdem em qualidade, os cidadãos perdem em conforto.

Alckmin e Dória, infelizmente, não escorregaram sozinhos.

No mesmo dia, o presidente Michel Temer autorizou, mediante medida provisória, a concessão de aumentos para oito categorias de servidores públicos. O governo federal passou os últimos dias proclamando seu caráter “reformista” e sua disposição para defender o ajuste fiscal, mediante o indigesto “teto dos gastos”. Pois não é que resolve atirar no próprio pé e conceder aumentos que terão impacto de R$ 11,2 bilhões nas contas públicas?

Ou seja, enquanto pede à população que aperte o cinto e sinta na pele as dores do ajuste, o governo beneficia um seleto grupo de funcionários, já de antemão bem remunerados. Entre eles, estão auditores e analistas da Receita Federal, diplomatas, auditores fiscais do Trabalho e peritos médicos previdenciários.

O Ministério do Planejamento soltou nota esclarecendo que os reajustes decorrem de acordos salariais previstos para entrar em vigor a partir de agosto, mas que foram adiados para garantir o cumprimento da meta fiscal. “Mesmo com o reajuste, as despesas com pessoal permanecem estáveis em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), apresentando, inclusive, uma queda expressiva de 4,6% do PIB em 2009 para 4,1% na estimativa para 2017. Em 2018, o estimado é que despesas com pessoal representem 4,1% do PIB”, destacou o Planejamento.

Não explicou nem aliviou.

O governo federal mostra que continua péssimo em comunicação e falhando em termos de timing político.  Dias atrás, vetou as vantagens obtidas pelos estados na negociação das dívidas que têm com a União, dizendo que endurecerá na exigência de contrapartidas. Uma delas prevê que os governadores suspendam reajustes de servidores por dois anos, para assim tentarem equilibrar suas contas. Pois não é que o governo federal fez exatamente aquilo que exige que os estados não façam?

As decisões governamentais da passagem do ano deixam claro que não será fácil passar de um padrão a outro, que continuaremos a ser afetados por atropelos gerenciais, pela comunicação enviesada, por medidas de ajuste que valem para muitos mas não para todos. É uma indicação de que a política continuará a ser exibida com sua face mais pobre e mais distante das expectativas da população.