Lula e PT põem em risco o que resta de seu capital político

Marco Aurélio Nogueira

29 Outubro 2015 | 16h06

O realismo deve sempre prevalecer quando se analisam fatos políticos. A política não pode ser feita com luvas de pelica, ainda que exija operações certeiras e muitas vezes delicadas. Invariavelmente, o jogo sujo predomina: golpes de mão e manobras sórdidas, uso explícito da força e da pressão, formas menos agressivas de chantagem e coação, simulações e dissimulações, desmentidos e condutas sinuosas, feitas para confundir adversários ou outros protagonistas.

Em política, nem tudo o que se mostra ou se diz é o que se faz de fato. Condutas e declarações não carregam necessariamente a marca da verdade. A lógica dela é própria, distinta da lógica dos homens comuns. É preciso ir além de gestos e palavras.

A política exige sangue-frio e disposição para jogar um jogo no qual a fronteira entre o certo e o errado, o lícito e o ilícito, jamais está determinada de uma vez por todas. Quem quiser entrar em contato com ela, precisa saber que o certo nem sempre está do lado mais certo, o bem pode ser produzido pelo mal, e vice-versa. Parafraseando Sartre (As mãos sujas), quem tem excesso de pruridos ou estômago frágil não deve se meter em política, que exige atos complicados: “a política se faz com as mãos mergulhadas no sangue e na merda”. E nem sempre se consegue sair com elas limpas ou puras como antes. É impossível governar ou exercer o poder político inocentemente.

Tudo isso é sabido, mas não deixa de causar espanto a facilidade com que Lula tem pedido aos companheiros que poupem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de críticas mais contundentes, já que ele não deveria ser “prejulgado”. Consta que a posição será referendada pelo Diretório Nacional do PT, como tentativa de reagir ao que se considera ser uma “ação orquestrada” para destruir o partido e o governo. A cúpula partidária também pretende defender Lula das “armações” que contra ele estão sendo preparadas por setores da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Judiciário. Pelo que vazou no noticiário, o Diretório tentará dar o tom para mobilizar a militância petista a resistir e rechaçar a “escalada contra conquistas de nosso povo”, base do que o PT entende como “incursões de ódio, intolerância e mentira, nas ruas e nas instituições” que alimentam o “golpismo e o retrocesso”.

O espanto se deve ao fato de que Eduardo Cunha é hoje praticamente o inimigo público nº 1, repudiado por 10 entre 10 democratas e até mesmo por áreas do conservadorismo de direita. É a referência principal do reacionarismo que anda se manifestando por aí e contra o qual o PT jura se bater. Agarra-se à presidência da Câmara como expediente para escapar de uma cassação que parece inevitável e para ter uma trincheira de onde prosseguir ameaçando quem a ele se opuser. Com isso, vai deixando abertas as porteiras para tentativas várias de retrocesso legal.

Lula e o PT acreditam que podem manter Cunha sob controle com a decisão de valorizar o sacrossanto direito liberal que todo suspeito deve ter de se defender de acusações. Não querem esticar demais a corda com receio de que o presidente da Câmara, ao ir para o abismo, arraste consigo aquilo que poderia servir para evitar o impeachment de Dilma. Pensam que com isso será possível manter a correlação de forças em banho-maria, enquanto tentam recompor as forças internas (metade da bancada assinou documento propondo o afastamento de Cunha).

Se o cálculo estiver certo, é compreensível que os dirigentes petistas estejam a agir assim. Devem supor que este é o preço que será preciso pagar para manter o governo na corda bamba e fazer com que o partido permaneça competitivo na política nacional.

O problema é o efeito que esta posição pode gerar.

A preservação do mandato de Cunha pode impulsionar ainda mais as ações regressistas da bancada BBB e, com isso, fazer com que o clima político fica ainda pior.

O PT já não está em boas condições de temperatura e pressão. Poderá piorar se sua direção se distanciar dos fluxos mais ativos da opinião pública democrática e ficar na contramão dos humores da cidadania. Como o partido não está propriamente unido em torno de uma agenda, toda tentativa de enquadramento das bases pela cúpula tenderá a produzir mais dor e sofrimento do que unidade de ação e convicção.

Esperemos para ver.