Fausto Castilho (1929-2015), filósofo, intelectual público, dínamo institucional

Fausto Castilho (1929-2015), filósofo, intelectual público, dínamo institucional

Marco Aurélio Nogueira

05 Fevereiro 2015 | 18h19

O filósofo Fausto Castilho, falecido esta semana em Campinas (SP), foi um personagem ímpar da história da Universidade brasileira.

Antes de tudo, foi um pensador, um modelador de ideias, um frequentador das grandes correntes da pensamento contemporâneo, em particular de Martin Heidegger, que muitos consideram o principal filósofo do século XX. Fausto se encarregou da primeira edição bilingue (alemão-português) de Ser e Tempo [Sein und Zeit] (Unicamp e Vozes), magnum opus de Heidegger, à qual se dedicou durante três décadas, minuciosamente.

Seu espírito inquieto e provocador revelou-se de forma plena no episódio de que nasceu a Conferencia de Araraquara, de Jean-Paul Sartre, publicada no Brasil pela Editora Unesp/Paz e Terra.

Sartre era o filósofo da hora em 1960. Veio ao Brasil, onde ficou por quase três meses. Em Recife, recebeu uma carta de Fausto Castilho com uma pergunta filosófica sobre as relações entre o existencialismo e o marxismo, tema associado ao livro Crítica da Razão Dialética, que acabara de ser publicado em Paris. A pergunta foi refeita por telefone, com Sartre já no Rio de Janeiro, e depois pessoalmente, em São Paulo.

Fausto gostava de contar a história. “Sartre me disse que a pergunta era complexa demais e que só poderia respondê-la pessoalmente, numa conferência. Convidei-o, então, a ir para Araraquara”, em cuja Faculdade de Filosofia (hoje incorporada à UNESP) Fausto era professor. “Sartre fez questão de responder à minha pergunta pessoalmente em uma conferência, que ele preparou na biblioteca de meu apartamento”.

Em 4 de novembro de 1960, Sartre foi a Araraquara. E proferiu na Faculdade a prometida conferência, assistida, entre outros, por Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso e Antonio Candido.

Fausto Castilho foi um apaixonado pelo ensino e pela pesquisa. Em 1947, viajou para Paris, para uma longa estadia. Em 1949, aconselhado pelo filósofo Merleau-Ponty, seu amigo, seguiu para Friburgo, na Alemanha, a fim de estudar com Martin Heidegger (1889-1976). Retornou ao Brasil em 1952. Lecionou na UFPR (Universidade Federal do Paraná), USP, Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Unicamp.

Foi também um construtor institucional, um dinamizador da vida acadêmica. Ajudou a organizar a Unicamp e em particular o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, do qual foi o primeiro diretor (entre 1969 e 1972). Aposentou-se como professor emérito.

Tive a satisfação de tê-lo como amigo e colega na UNESP, sempre o admirando pela argúcia, pela disposição intelectual e pela flexibilidade política.

Parte expressiva do pensamento institucional e da ideia de universidade de Fausto Castilho pode ser encontrada no livro O conceito de universidade no projeto da Unicamp(Editora da Unicamp, 2008), que resenhei para O Estado de S. Paulo/Cultura em 08/03/2009, logo depois de seu lançamento.

A título de homenagear esta bela figura de intelectual público, republico abaixo a resenha.

fausto castilho

A universidade, entre promessa e realidade

Sobre O conceito de universidade no projeto da Unicamp, de Fausto Castilho.

O que esperar da universidade no século XXI? Que contribuição poderá dar a este século que se anuncia sob a égide da ciência, da racionalidade técnica e de categóricas exigências educacionais?

Nascida como ideia nos primórdios da era moderna, vinda das entranhas da Idade Média, a universidade só ganhou corpo e conceito claro – como instituição de pesquisa e estudo, não só de ensino – no correr do século XIX, fase demarcada pelo celebérrimo Memorando de Guilherme de Humbold, que é de 1808-1809. Desde então, esteve sempre no centro das atenções e das controvérsias.

Disseminou-se pelo mundo, mas não de modo imediato e nem segundo um único modelo. No Brasil, por exemplo, chegou com atraso, como reflexo da condição colonial e dos vínculos culturais fortíssimos que o país mantinha com a Península Ibérica, região onde a prevalência da Igreja e da escolástica dificultou a recepção da cultura científica. A universidade moderna encontraria, por aqui, um “complexo de determinações de longo prazo” que decretariam sua “multissecular inexistência” – processo que só conheceria reversão nos anos 30 do século passado, com a criação da Universidade de São Paulo.

Este o principal eixo argumentativo do belo livro de Fausto Castilho, emérito da Unicamp, ex-professor de filosofia na USP e na Unesp, ativo participante da formulação do plano geral da Unicamp e da organização de sua área de humanidades, entre 1967 e 1972. Estruturado como um diálogo conduzido pelo também filósofo Alexandre Guimarães de Soares, o livro é mais que uma análise das origens desta que forma, com a USP e a Unesp, o miolo do sistema universitário brasileiro. Trata-se sobretudo de uma erudita e instigante reflexão sobre os dilemas da universidade no Brasil, os obstáculos que se antepuseram à sua evolução, os líderes que lutaram por sua criação, entre os quais Fernando de Azevedo, Arthur Neiva, Júlio de Mesquita Filho e Darcy Ribeiro. Precisamente por isso, ajuda-nos a descortinar o estado atual e as possibilidades futuras da instituição.

Há nele um segundo eixo argumentativo: os projetos com que a idéia ganhou materialidade entre nós – a começar do da USP, mas também o da UnB e o da Unicamp – sempre contiveram rigor, desprendimento cívico e compromissos consistentes, mas acabaram por ser travados quando levados à prática. A dura realidade dos fatos conspiraria contra a idéia, e um permanente descompasso apareceria entre “o momento da concepção e o momento da implementação”. O argumento encontra apoio no famoso discurso que Júlio de Mesquita Filho proferiu na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em março de 1958, quando constatou a existência de “desvios metodológicos que alteraram fundamentalmente os objetivos que os fundadores tinham em vista”.

Põe-se assim um problema: teriam sido os projetos “excessivos” para as condições nacionais? Ou teria havido falta de clareza e de vontade política?

Para os pais fundadores e para Fausto Castilho, algumas cláusulas pétreas compõem o conceito de universidade moderna. Primeiro, ela deve ser “integral, isto é, situar-se no topo do sistema educacional, tendo como base todo o conjunto das escolas de nível inferior”. Também precisa ser uma “instituição de estudo que, antes do mais, faça pesquisa sobre a totalidade dos conhecimentos humanos e não se limite à qualificação profissional”. Além disso, deve constituir “um organismo centrado”, cujas partes componentes precisam estar dispostas “em torno da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, lugar de cultivo de todas as disciplinas básicas”. Seus docentes, por isso, devem ser também pesquisadores, cientistas, criadores de conhecimento, mais que professores ou difusores de saber.

Tal concepção foi recebida, ao longo do tempo, com entusiasmo mas também com ceticismo, como se faltasse confiança no país ou houvesse adesão a um enfoque imediatista, técnico e profissionalizante, que muitos achavam mais condizente com as necessidades do desenvolvimento. Ênfase em demasia será dada aos arremedos de universidade construídos durante o século XIX: as escolas superiores isoladas, profissionais, concentradas no ensino, que cobrarão um preço para ingressar na nova estrutura acadêmica. Antes de tudo, estas escolas não aceitarão nem a precedência, nem a função científica integradora da Faculdade de Filosofia. Serão assim mesmo incorporadas, numa espécie de concessão que terminaria por modelar a “concepção brasileira de ensino superior”, que permaneceria atrelada a uma visão não-universitária, ao menos em um primeiro momento.

Com o passar do tempo, as coisas se complicaram. E em vez de corrigidas, as falhas e concessões se aprofundaram, vis-à-vis as novas circunstâncias sociais do país. O “ensinismo”, o profissionismo e o isolacionismo – marcas de uma concepção de educação superior que prescinde da universidade – seriam turbinados pela “avassaladora privatização das escolas” e pela pressão social por ensino superior. O próprio aparelho educacional terminaria por ser “politicamente depredado”. É onde nos encontramos hoje.

Fausto Castilho sabe que muito se construiu ao longo do tempo. Sua postura recusa o ceticismo. Ele observa a história, esmiúça conceitos e busca deixar um registro pessoal de sua experiência na fundação da Unicamp. Oferece-nos um parâmetro para que se aborde a questão com os olhos para frente.

A ideia de “universidade ampla”, apoiada na reorganização dos três graus educacionais como um processo único, foi a maior promessa dos projetos de construção universitária no Brasil. Não é por acaso que o livro termina com sua celebração. Em que pesem os obstáculos, ela continua a ter “uma atualidade gritante”.

Mas ideias não se convertem em fatos materiais sem dor e sofrimento, assim como sem sujeitos que briguem por elas. Valem também pelo que prometem. Não seria acaso oportuno, pergunta-nos Fausto Castilho, retomar o exame do modelo educacional na perspectiva da “universidade ampla”? É uma pergunta contundente, e ao propô-la seu livro ganha uma luminosidade adicional.