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As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Crise é global, mas também tem motores nacionais

Marco Aurélio Nogueira

06 janeiro 2016 | 14:43

Algumas pessoas acreditam que se está amplificando artificialmente a crise brasileira.

A situação não seria tão ruim quanto a que é apresentada por analistas e jornalistas, especialmente pelos que vivem de fazer a louvação do governo Dilma. Haveria sim uma crise, mas além de não ser profunda, ela é global e não poderia ser atribuída às escolhas governamentais. O País está vivo, a passagem de ano foi comemorada em grande estilo, com todo mundo gastando, comendo e bebendo, sem resquícios de pessimismo.

Nada, portanto, de complexo de vira-latas. Há que se confiar no Brasil, o governo está fazendo sua parte, o povo contribuirá e muito antes do que imagina a economia estará bombando. No pior dos casos, ficaremos no mesmo lugar, o que não será tão ruim, pois o País tem avançado.

Os que assim pensam costumam atribuir o “pessimismo” (ou a crítica dura) ao “golpismo” que anda por aí, impulsionado por uma mídia oligopolizada que atuaria como abutres à espera da carniça, torcendo pelo fracasso do governo.

Não sou especialista em crises e não tenho elementos suficientes para avaliar o real tamanho do problema nacional. Mas penso que nunca se deve pegar a nuvem por Juno, a aparência como se fosse a essência.

Que a crise é global é uma obviedade que pouco acrescenta à análise. O que não seria global nem mundo estruturalmente globalizado? Mas a globalidade de um fato não retira dele a raiz nacional, nem muito menos faz dos povos meras marionetes dos poderes fáticos globais. Nas frestas que se abrem no relacionamento dos países com o mundo, podem agir as forças políticas, os governos, as empresas, as organizações. E quanto mais competentemente fizerem isso, mais poderão contribuir para que os países sejam donos de seus narizes. Se arrarem nas escolhas, serão responsáveis pela produção de uma crise dentro da crise, ou seja, errarão por não terem sabido assimilar adequadamente a crise global.

Dizer que o povo segue com sua vidinha normal, que a classe média endinheirada continua enchendo as praias e os hotéis de luxo, que os automóveis circulam como sempre, que bares e boates da moda estão a mil, não esclarece nada a respeito da crise. E se a moçada estiver somente extravasando a ansiedade, fugindo do calor insano, aproveitando os trocados que puderam ser poupados, valendo-se do relacionamento colaborativo para ratear despesas? E se amanhã a depressão e o ressentimento pularem para o primeiro plano?

Falar mal da mídia é preferência nacional e tem baixo poder de persuasão. Ajuda a que entenda aquilo que todo mundo já sabe: numa sociedade polarizada, ninguém é sem opinião e todos aqueles que dissentem de uma dada visão são automaticamente tratados como “inimigos” lesa-pátria — todos os que não aplaudem o governo, por exemplo, são elitistas mal-intencionados, teleguiados pela mídia golpista. Os que culpam a mídia pela disseminação de um clima antigovernista olham somente para os “outros” e têm dificuldade de reconhecer os erros do próprio campo em que se encontram, talvez por receio de que, se fizerem isso, fornecerão munição para os inimigos.

Em resumo, quando se fala em crise – pequena ou grande, leve ou profunda, tanto faz – está se falando de um processo que não tem data certa para começar ou para terminar, que tende a ser longo e no qual se combinam muitos níveis e muitos “tempos”, velhos e novos. Há indicadores clássicos para se constatar uma crise na economia, por exemplo: PIB, IDH, renda, emprego, dívida pública, expansão industrial e taxa de juros. Na política, uma crise pode ser medida pelo abstencionismo eleitoral, pela instabilidade das coalizões governantes, pela fragilidade técnica das escolhas políticas, pela inoperância dos partidos políticos, pelo desinteresse popular pela política. Uma crise ética aparece nas taxas de irresponsabilidade administrativa, no número de corruptos que são processados e presos. E assim por diante.

Sem que se tenha à mão dados deste tipo, a discussão fica impressionista e se converte numa competição para saber quem é mais pessimista ou mais governista.  Não leva a lugar nenhum. Serve apenas para que alguns incomodados com a situação desopilem o fígado.

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